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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

17.01.16

O Brasil sem ciência e a supremacia da engenharia: o Iluminismo manco e a cegueira diante da lama da Samarco


Sérvio Pontes Ribeiro

Sentar, seco, numa varanda diante de uma chuva forte nos faz admirar não só a chuva, mas o valor que a engenharia tem na vida de todos nós. Uma construção sólida é princípio da família e da dignidade, que a natureza teima em tomar de tempos em tempos, daqueles que menos recursos tem para usufruir do poder da engenharia.

 

Entretanto, nem tudo a engenharia resolve, em especial, quase nada ela de fato resolve, quando o problema é por ela causado. Isto nos leva a um impasse de cunho histórico no que se deve ou não fazer. Na minha opinião, e de todos outros biólogos revoltados do momento, o acidente da barragem da Samarco sobre toda a bacia do Rio Doce e litoral brasileiro é ambiental, transcende questões conhecidas, e pede urgentemente estudos que o façam entendido e assim, solucionado. O que vemos que deve ser entendido e solucionado, entretanto, é a perda de biodiversidade e a funcionalidade dos ecossistemas aquáticos e marginais à bacia do Rio Doce, portanto, dos serviços ambientais da bacia, fora os ecossistemas costeiros e marinhos já impactados.

 

Como se trata de um problema em grande parte desconhecido nas suas particularidades, quem deveria ser ouvido primeiro seriam os cientistas. Cientista é aquele profissional treinado para formular hipóteses e métodos para trazer à tona o desconhecido. Quem tem sido ouvido no acidente em questão, no entanto são os engenheiros, que são profissionais prontos para aplicar soluções para problemas controlados, bem entendidos, e que tem, no geral, a maioria das variáveis sob controle. Em outras palavras, problemas previsíveis e com soluções conhecidas.

 

De jeito nenhum, este acidente é um problema de engenharia. A engenharia certamente trará remediações e melhorias de vários dos processos pós rompimento. Ela, por exemplo, deveria ter sido usada para o cumprimento da lei, e ter conseguido parar a lama de descer para o rio em 10 dias. Como eu tenho certeza que as pessoas que trabalham para a Samarco não são nem cruéis nem mal intencionadas, temos que supor que o fato da lama estar descendo por mais de 70 dias reflete o que estou dizendo: é um problema complexo, de consequências complexas, e quem tinha que ser ouvido primeiro seriam cientistas, e não técnicos.

 

Resumindo antes de avançar, não podemos resolver problemas desconhecidos com a engenharia. Precisa-se conhecer o mundo para lidar com as transformações que causamos neles. Do contrário, soluções prontas podem até piorar o problema (no caso, não resolver nada já é piorar bastante). Por exemplo, ao menos uma das tentativas emergenciais de estabilizar as margens destruídas do rio Doce pode criar um problema ainda pior de se remediar que a lama: a introdução de espécies invasoras herbáceas que vão retardar enormemente a sucessão das matas ciliares.

 

Duro é que o engenheiro, o médico, eles nascem da ciência, ou de uma visão coletiva do que seja a ciência, que de certa forma existe mais no imaginário de uma população com pouco contato real com a ciência. Se a ciência não é objeto de real entendimento de todos, as pessoas imaginam que ela seja uma caixa preta onde as pessoas entram, estudam e saem de lá sabendo “resolver” problemas. Talvez por isto nós adoremos tecnologias de comunicação e invistamos tão pouco na geração de patentes ou em pesquisa sobre a mesma. Basta comprá-las! Com esta visão de mundo, temos uma Presidente que acha que pode mudar um rio (Tocantins) para resolver os problemas já causados em outro (São Francisco). Também acha que toda grande obra deve acontecer e que as remediações sanam todos os problemas. Assim pensam não só ela, mas o Congresso e o Senado, que acham que licenciamento ambiental deve ser minimalista e deixar a engenharia transformar o mundo, ao nível de resolver todos os problemas por ela mesmo criados.

 

O mundo em questão é o biológico e o sócio-ambiental. Aqui, curiosamente, embora a biologia moderna seja fruto puro do Iluminismo, não diferente da física moderna, ela, idiossincrática como é, se torna uma ciência natural, quasi-exata, porém, próxima da visão humanista do mundo.

 

Isto porque quando numa sociedade algo falta, sua necessidade faz desta coisa mais humana. No Brasil falta ciência! A ciência de fato é tão desumana quanto a tecnologia, ao bem entender dos romancistas e humanistas da primeira metade do Sec XX, saturados do poder supremo da ciência iluminista. De fato, a mais fundamentalista troca que se podia esperar para a Inquisição foi uma ciência que não aceita o que ela não conhece! No campo do existencialismo, Isto é um desastre, mas no campo da razão, isto tem um antídoto na sua própria fórmula: o que ela passa a conhecer, passa a ser aceito, posto que é entendido! Assim, quando lidamos com o desconhecido em campos da vida que a ciência atua (biologia, ecologia, geologia) precisamos que cientistas atuem primeiro para que técnicas se apliquem.

 

No Brasil, isto não se dá ainda. O biólogo é um profissional moldado na ciência. Sua prática raramente se dá pela repetição ou aplicação de práticas pré-concebidas. Se repetem protocolos amostrais e experimentais, mas seu desenvolvimento variam em função do real problema em análise e das hipóteses formuladas. Biólogos e cientistas deveriam estar `a frente do debate de uma catástrofe desta dimensão. Deveríamos ser chamados pelas autoridades. Não estamos e não fomos. Onde atuamos, é por força de nosso senso de responsabilidade e envolvimento espontâneo. Desesperadoramente.