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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

30.07.17

Nulis in Verba e a pós-verdade


Sérvio Pontes Ribeiro

Semana passada ensinei método científico e hipóteses. O velho e bom modelo indutivo-dedutivo, e a necessidade de se ter conhecimento acumulado para se fazer boas perguntas científicas na construção do conhecimento contemporâneo. Mas para tal, volto na criação da Royal Society, em 1640, e na sua regra pétrea: o Nulis in Verba. Palavra alguma vale nada, tudo deve ser demonstrado. E me pego redirecionando a aula para o quanto isto se tornou necessário e verdadeiro no mundo pós-verdade da internet.

 

O tanto que se lê de absurdo hoje é em nada diferente das crenças e mistificações absurdas que rodavam o mundo mágico (no sentido exclusivo aqui de não real, não possível) daquele tempo. A Royal Society, sob uma certa proteção de liberdade garantida por Rei Carlos I, pode exercer os primórdios da ciência moderna com princípios fundamentais: liberdade de pensamento e de experimentação, independência político-religiosa, demonstração de tudo possível a fim de definir as realidades e fatos do mundo natural.

 

Neste processo, não lembro se Elias Ashmole ou Robert Hooke (dois dos menos cientistas do corpo original) propuseram verificar se de fato os chifres de unicórnio em um círculo poderiam prender uma aranha, como rezava uma lenda mística da época. E essa era a ideia! Testar tudo! Claro, com a maior clareza e maior acúmulo de conhecimento dos dias de hoje, faríamos um pouco diferente. Primeiro, estabeleceríamos um controle, ou seja, um espaço igual ao delimitado pelos chifres, mas cercado por outro tipo de material similar, e submeteríamos as aranhas controle e tratamento ao mesmo tipo de estresse de experimento. Afinal, elas poderiam ficar quietas entre os chifres por outros motivos que não uma força magística que os retivessem. E mais importante, ao mandarmos um servente comprar chifres de unicórnio no mercado local, verificaríamos se eram mesmo de unicórnio, e não de rinocerontes, como de fato foram naquele experimento.

 

A questão é que naquele tempo, crer que se conseguiria chifres de unicórnio para comprar deveria ser uma façanha não muito diferente da de comprar chifres de rinoceronte. Porém, a falta de circulação da informação científica não dava bases sólidas para dúvida e, ao contrário dos meus alunos de olhos estatelados, ninguém duvidava de um elemento básico do experimento, mesmo que a mera ocorrência do unicórnio na Terra fosse mais interessante que os poderes de seus chifres arrancados!

 

Hoje, não posso deixar de me perguntar quantos por aí assistindo Alienígenas do Passado de fato não acreditarão em unicórnios? O homem é tão afim de ter conhecimentos privilegiados, saber o que é desconhecido ao próximo, mas de preferência, saber de forma fácil, sem muito gasto de energia. Matéria prima para todo tipo de enganadores! Assim, vejo o grande valor do tempo gasto ao promover o pensamento científico! Para tal, dois conselhos: 1 – Se a informação tem base no mundo natural (física, biologia, matemática, química) ou tecnológico, verifique! Busque fontes confiáveis e veja se há publicações em revistas sérias que sustentem a afirmação; 2 – Se a informação tem caráter transcendente ao testável pela ciência, não confie e pronto. Não estou dizendo para não transcender, mas se o assim o quiser, faça pelo caminho correto: procure Templos, Tradições, livros e orientações de iniciados no assunto que te fascina, e que não é científico. Como ouvi uma vez, até o diabo tem critérios e não vai te seduzir por um post. Agora, se o assunto for política, bem, é mentira.