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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

08.03.20

Mulheres nas Ciências Biológicas no Dia Internacional de Luta pelos Direitos das Mulheres.


Sérvio Pontes Ribeiro

 

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Valerie K. Brown, minha orientadora de Doutorado no Imperial College, Diretora do International Institute of Entomology

Raquel Thomas, primeira Doutora Pesquisadora em Ecologia da Guiana Britânica, minha melhor amiga no doutorado.

Vão estranhar eu começar esse texto falando de um homem, mas logo vão entender. Paulo Vanzolini é reconhecido como um dos maiores compositores de samba da contemporaneidade, mas além de sambista, ele era Professor Titular da USP, Zoólogo e curador do museu de história natural daquela universidade. Um grande biólogo, especialista em anfíbios. Anos antes de sua morte vi uma entrevista fantástica com ele, onde lhe foi perguntado por que com todas as músicas dele publicadas sendo aclamadas ou mesmo premiadas, foram porém tão poucas? Com ar resignado, Vanzolini respondeu algo como “meu filho, a Zoologia é uma esposa muito exigente, nunca tive tanto tempo assim para o samba ou outras coisas”. Cada palavra me marcou, mesmo não garantindo a exatidão dessa frase. Escrevo isso em um sábado, meio dia, na varanda do nosso laboratório no Parque Estadual do Rio Doce, longe de casa faz 10 dias, coletando espécies de Diptera hematófagos para minha nova fase na carreira. Carreira de entomólogo, o mais obcecado dos zoólogos, e que não acabará, não aposentará, ou, na fala de Paulo, não aceitará outra coisa senão “até que a morte nos separe”.
Nessa lida me lembrei de um sonho por mim não sonhado, mas de uma aluna de graduação, que em uma dessas viagens para cá se apaixonou perdidamente pela entomologia. Ela com um pouco de receio, acabou contando que sonhou que tinha perdido o próprio casamento, porque estava coletando insetos. A coisa foi cinematográfica, com igreja fechando, transferência do lugar da festa, se descobrir na porta da igreja com potes de insetos e ainda sem maquiagem, até que quando resolve entrar, as amostras caem e se perdem, e ela acorda.
Que Carl Jung me perdoe a heresia de uma intepretação rasteira desse sonho, mas não lhe parece, leitor, que ainda temos um medo subconsciente de ter que escolher entre uma carreira demandosa ou afeto, mas que é esse um medo exclusivamente das mulheres? De fato, ao menos para as carreiras de desbravamento, aos homens sempre foi dado o direito inquestionável de viajar por meses a zonas remotas (para o bem ou para o mal do meio ambiente) e manter uma família feliz e apoiadora, mesmo que saudosa.
A pergunta, em homenagem ao dia internacional da luta pelos direitos das mulheres, é se os homens de hoje são machos o bastante para dar suporte a mulheres de carreiras difíceis e exigentes, como são as de ciência. Esse é o momento que uma feminista iria me condenar à fogueira por achar que mulheres precisam de suporte dos homens, mas de fato, TODOS precisamos de afeto, família e apoio. Então, sim, precisam de apoio de seus parceiros, todas as mulheres. Eu, que formei em meu laboratório 60% de mulheres e vi empregadas em ciência na razão 1:1, garanto que quem não vingou não teve apoio de seus maridos, com uma ou outra exceção, que, por si só, não quis tanta demanda quanto a que nossa carreira científica nos impõe. Um sonho desses me faz refletir no óbvio imponderável e tão difícil, em especial para elas: o dia que o machista não for escolhido como parceiro, deixará de existir, mas, existem homens à altura do extraordinário dessas mulheres? 

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