Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

09.02.14

CIÊNCIA E MAGIA: TEXTO COMPLETO


Sérvio Pontes Ribeiro

Existe uma bizarra percepção de que quando encontro uma explicação científica para algo previamente mistificado, Deus deixa de ser parte deste fenômeno!

 

Entretanto, o que todo cientista sabe é que a ciência é falível, e entende por partes. Ou seja, é reducionista e limita-se a partes das explicações. Ao contrário, os ritos cerimoniais ativadores de energias, são completos, herméticos e desenvolvidos intuitivamente ao longo da história de uma dada tradição.

 

Um curandeiro sempre será um curandeiro, entenda você o processo ou não. Se ele executar sua mágica à luz do conhecimento racional e só, algo que ainda não descobrimos sobre aquele processo não será executado, e a cura não acontecerá da mesma maneira.

 

Neste processo de ser curandeiro, ao menos dentro das culturas Afro-brasileiras, a relação psique-doenças-ameaça sempre andaram juntas. Como membro de uma típica família católica do sudeste, cresci ciente da existência do feitiço e, ensinado por todas as velhas, sabíamos como lidar com ele sem nunca termos entendido sua origem cultural ou a rica herança imaterial que estas práticas representam, dentro do Candomblé e na Umbanda. Porém, outra coisa que não sabemos (para além do fato de que macumba é a madeira dos tambores antigos e não uma prática de maldades) é que as práticas prejudiciais às pessoas são condenadas pelas  organizações religiosas acima citadas. Há custos kármicos para os praticantes, e vários ritos e crenças étnico-sociais que previnem tais práticas. Ainda assim, sabedores de como manipular as energias naturais, pessoas de má índole, fazem de fato os tais feitiços.

 

O que há, porém, de antemão às energias da natureza pouco compreendidas e que são manipuladas, é a manipulação do psicológico da vítima. Todo feitiço tem que ser descoberto ou desconfiado. Pois bem, com um inimigo na cola e com uso de energias sobrenaturais poderosas contra uma pessoa, esta fica vulnerável. Mais especificamente, seu sistema imune fica! Da mesma forma, a má fé acontece do outro lado. Como diria um velho provérbio russo, nem sempre quem te tira da merda quer te ajudar, e falsos curandeiros que cobram pela limpeza “detectam” o feitiço na vítima (nota de ressalva, a prática legítima destas religiões é baseada na caridade, e a forma mais simples de separar o charlatão do sacerdote é pela presença ou não de cobrança pelos trabalhos). De tempos em tempos, pessoas distantes destas realidades me perguntam por estas práticas, abaladas por terem sido enfeitiçadas! Abaladas mesmo!

 

Agora entra as tradições legítimas de curas! Qualquer um que chegar “sobrecarregado” a um terreiro poderá receber uma receita de banhos purificadores. Pois bem, vários outros processos para os quais não se tem uma explicação definitiva acontecessem concomitantemente às práticas chamadas de “passe”, e que influem tanto no físico quanto no psíquico da pessoa. Do ponto de vista biológico é profundamente interessante que os banhos que acompanham toda a ritualística são feitos com plantas que tem sabidos efeitos medicinais, como ações antibióticas ou desinfetantes. Considerando uma pessoa com sistema imune abalado, nada melhor para se receitar!

 

Outra nota de ressalva, nos centros que praticam estas religiões, doenças diagnosticáveis não são tratadas assim. Pessoas com doenças são “rezadas” mas fortemente aconselhadas a procurarem um médico – as limpezas de fato são na esfera metafísica e psíquica e nenhuma centro honesto vai te prometer milagres, o que em grande parte corrobora as práticas complementares. Antônio Olinto, no Terceiro livro de sua Trilogia “Alma da África” (“O Trono de Vidro”, Bertrand Brasil), descreve um vilarejo onde o líder era um médico formado em Paris, e que inicialmente tentou combater as práticas medicinais iorubás. Com os anos e a falta de infraestrutura, cedeu, e incorporou estas práticas aos seus diagnósticos ocidentais:

 

“Aprendi, com o tempo, que era possível unir meu conhecimento de medicina com as cerimônias curativas e religiosas de minha gente. Há séculos que, nesta região, o sacerdote especialista em curar doentes precisa de ladainhas e cânticos tradicionais de sua nação para dar força ao seu esforço de curar”

 

Claro, devemos lembrar que os livros de Olinto são ficção, mas dado seus anos de experiência e vida em Lagos, grande parte desta ficção foi apropriada das realidades locais.

 

Acho interessante que, do ponto de vista civilizatório, o discurso sanitarista-científico alega que as populações tradicionais não devem confiar nas suas práticas assim que os tratamentos industriais e ocidentalizados passam a ser disponíveis. Além da óbvia farsa financeira que sustenta tal orientação, há uma óbvia contradição! Se, e concordo com isto, um indivíduo não deve abrir mão de uma metodologia de cura, porque haveria de abrir mão de outra? Só porque a ciência moderna não a descreveu propriamente, significa que não funciona? Se não funcionasse, este sistema que mantém curandeiros e Babalossains atuando por séculos não existiria mais!

 

Concluindo, a apropriação indevida do conhecimento tradicional e sua conversão em fármacos patenteados não irá tornar uma realidade científica mais científica que outra! O conhecimento da humanidade está distribuído em diferentes formatos e invólucros culturais. A despeito da enorme eficiência da ciência moderna, ela não é nem nunca será a única forma de saber e nem a única origem das nossas capacidades de usar as energias e a biodiversidade deste planeta em nosso benefício.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.