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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

11.02.15

Café da Manhã com Nature - AS FLUTUAÇÕES CLIMÁTICAS DECANAIS COMO CAUSA DE COLAPSO ECOSSISTÊMICO FLORESTAL VS RIOS VOADORES


Sérvio Pontes Ribeiro

Reinicio o ciclo de Cafés com Nature com um ano de atraso. Explico. Tendo assinado a revista em papel desde 2001, resolvi que vale a pena organizar isto tudo em um lugar só e fazer alguns exercícios de pesquisa histórica na ciência. Toda a coleção, espalhada entre a UFOP e gavetas misteriosas da casa da minha mãe e na minha, foi agrupada no Clube da Ciência.

               Porém, nesta manhã me vi com as poucas restantes aqui no lab, e peguei a de janeiro de 2014. Fui para o meu café com a óbvia pergunta: o que sabíamos a um ano atrás e que ignoramos? Meu grande prazer foi o destaque para um artigo sobre as oscilações decadais pacíficas (PDO em inglês), possível causa do ciclo de seca que tão “súbita e misteriosamente” nos assola. Súbita e misteriosamente? Certamente não, e certamente não só fruto disto. A grosso modo, sabemos há quase duas décadas que os ciclos de chuva constantes com as quais nos acostumamos sofreriam quedas severas em intervalos de décadas.

Invés de garantir os mananciais de água, a proteção de zonas de recarga, as áreas de evapotranspiração e liberação de compostos orgânicos voláteis da Amazônia, que minimizariam este ciclo climático que inevitavelmente nos assolaria por agora, fizemos o contrário. O que tem para se saber, o governo sempre soube. Curiosamente, é na casa do Clube da Ciência que começa esta indagação. Este é um bairro da década de 70, como é esta casa que nos abriga e que foi finalizada em 1976. Até este exato ano, as chuvas eram de fato escassas, de forma que todo o Mangabeiras têm casas com reservatórios extras de água no chão, além de grandes caixas de água.  

Assim, em fevereiro de 2015 acordo para o fato que o ano de 2014 começou com este debate sobre o efeito dos ciclos decanais no aquecimento global, que não parou. Me pergunto que cientista ligado ao meio ambiente não sabia deste debate além de mim? Só em 2014 a Nature publicou oito artigos sobre a oscilação decadal pacífica e sua interação com poluentes e com o aquecimento global. Um está aberto e é muito interessante: http://www.nature.com/srep/2014/141017/srep06651/full/srep06651.html

Sigo daqui mostrando alguns aspectos que nos afetam diretamente, e contando uma historinha desconhecida da maioria, quanto ao Pantanal e nossa inconsequência científica-política.

Marengo (2006), em um interessante documento do Ministério do Meio Ambiente (“Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade”; acessível em http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/livro%20completo.pdf) indica vários eventos de chuvas abaixo da média na Amazônia, em extensa área territorial, desde 1997. Mostra também o interdecadal de poucas chuvas de 1925 que findou em 1975 (veja a fig 7 deste documento), mais forte no Nordeste, mas afetando todo Planalto Cristalino também. De fato, este interdecadal está relacionado a um longo período de seca no Pantanal, que pegou centenas de fazendeiros desprevenidos quando terminou em 1974. História fascinante e desconhecida de quem não viveu por lá: o Pantanal Mato-grossense responde a largos períodos com e sem regime de cheias. A grande colonização pecuária daquele território se deu em um longo período sem as cheias, quando água era tirada de poços salobros, alguns existentes até hoje. O que hoje todos tomam como fato imutável, as inundações, pode cessar em algum momento!

Este documento do MMA também mostra uma interessante relação destes ciclos com as vazões do rio São Francisco. O que se vê é que como são ciclos de vazão que a longo prazo se anulam. Mas ao limitar esta análise para 1979-1999, fica claro que as cheias e fortes chuvas que sucedem a primeira metade da década de 70 formam um pico em constante declínio.

 

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Extraído da Figura 8 de Marengo (2006)

 

Voltamos no início do ano de 2014, quando a Nature já debatia este fim de um ciclo específico decadal. Notável que em janeiro de 2014, começávamos o ano com o debate do fim deste ciclo, cuja consequência mais benéfica foi ter desacelerado o aquecimento global, resultando em um aumento médio de apenas 0,04 oC e não de 0,21 oC como previsto. Se por um lado, estes ciclos podem resultar em menos aquecimento global que o esperado a longo prazo, a notícia para a década que começa por agora não é boa: a América do Sul ficará mais quente e menos chuvosa.

Isto não só já é sabido e divulgado pelo próprio governo brasileiro em um documento de 2006, mas foi fortemente debatido no mundo em 2013/2014, desde o inverno extremamente severo da Europa neste período. Aqui, até muitos cientistas foram misteriosamente pegos de surpresa por agora: um ano depois do último debate sobre o assunto. Inclusive eu. Não que tivesse a obrigação de lidar profissionalmente com este conjunto de dados. Afinal, estou fazendo um mero exercício de leitura e entendimento. Não domino de fato nada do que escrevi acima! Mas consigo entender minimamente estes fatos. Este é o ponto mais importante de uma discussão sobre o porquê andamos às cegas.

Eu vejo um vazio na distribuição do conhecimento. O Brasil faz toda a ciência que precisa para gerir seu próprio futuro e desenvolvimento, e tem pleno acesso ao conhecimento global, do qual fazemos parte e ao qual somamos agressivamente, até como liderança em algumas áreas. O que não temos é o acesso da sociedade a este conhecimento e um corpo de políticos sensíveis ao significado destes resultados. Se por um lado a sociedade leiga tivesse leitura e entendimento do saber existente, poderia cobrar que não seguíssemos cegos e ao acaso. Se os políticos já tivessem esta sensibilidade e exigência mínima de terem que pautar decisões à luz da ciência, a sociedade viveria mais bem informada. Temos um buraco entre o que sabemos e como este saber nos afeta. Hoje, não nos afeta e seguimos na sorte.

 

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