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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

16.08.18

A onipresença da seleção natural e novos ataques pseudo-científicos à Teoria da Evolução


Sérvio Pontes Ribeiro

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Sérvio Pontes Ribeiro

Esta reflexão surge da leitura (incompleta, confesso) de um best seller, o “Sapiens: uma breve história da humanidade” do “Yuval N Harari”, enquanto assistia a 2a Temporada de Orphan Black. No livro, toda uma vasta (e excelente) explicação sobre o que é a biologia evolutiva para o público leigo converge para uma estranha conclusão sobre o que o autor chama de “Design Inteligente”. Na série de TV, algumas mulheres vão descobrindo que são clones e parte de um experimento secreto e ilegal, cujo líder é o grande defensor do conceito de “Neolution”, uma invenção da ficção científica, claro. No entanto, com um nome ou outro, ambos instrumentos de comunicação debatem pelos seus meios o direcionamento dos caminhos evolutivos do homem pelo homem, e não mais pela seleção natural. Curioso que a série de TV parece se manter mais fiel a conceitos de biologia molecular a seu alcance do que o livro. Ao menos “Orphan” discute certas impossibilidades e questões moleculares com suficiente clareza, enquanto expõe o fato de que a Neolution é um processo fascista e excludente, que visa interesses militares e de dominância. Harari faz sim questionamentos importantes, induz reflexões necessárias sobre a bioética, mas rompe nas suas conclusões como a humildade dos fatos biológicos, e nos empodera para além da natureza.

A diferença que preocupa entre uma série e um livro sobre ciência é que qualquer um sabe a diferença de realidade e ficção. Por outro lado, um livro que tem objetivo de explicar a evolução, não deveria terminar com um capítulo dedicado a uma nova evolução gerida por nós, e menos ainda chamar isso de “design inteligente”. O conceito em si esconde um perigo de entendimento, em especial nos EUA. O “design” é um pseudo-conceito científico, com abrigo em algumas universidades americanas e mesmo um museu, onde criacionistas “provam” a existência de um Deus que desenha inteligentemente a vida e descartam os processos que levaram, erroneamente, os biólogos a aceitarem o darwinismo e suas vertentes. Nada que os “designers” fazem tem base metodológica aceitável, nenhuma crítica à evolução se sustenta diante de qualquer escrutínio mediano. Porém, precisamos lembrar que estamos falando de um país em que pessoas com títulos de Ph.D aparecem frequentemente na televisão dando relatos de provas irrefutáveis sobre a influência dos alienígenas na construção da nossa sociedade, presente e passada. Ali, a liberdade vai ao absurdo de permitir que algo que não é ciência se chame como tal e acomode-se em centros notadamente de pesquisa.

Claro, o “design inteligente” do Harari é um pouco diferente. Para ele, nós somos os desenhistas da vida, não Deus. No entanto, em ambiente onde a crença define e formata o pensar, é um passo muito curto e profundamente subliminar o que o livro permite, se não induz maliciosamente: que um leitor crente salte sobre a conclusão, para ele óbvia, de que se nós desenhamos, é Deus que guia nossa mão na reconstrução da vida. Se recria hoje, pode ter criado no passado. Nada disso, claro, está no livro. Nem de longe! Não se fala de Deus, mas tira de forma inquestionável, a seleção natural do nosso futuro evolutivo, usando um conceito criacionista. Portanto, dá na mesma, é como se falasse. De certa forma, ainda muito subliminar, fica fácil crer que o que nos parecia “evolução” nos bilhões de anos anteriores era uma longa e paulatina criação divina.

Mas então, do que de fato se tratam os avanços e mudanças que impomos a nós mesmo pela engenharia molecular, se não é um novo processo evolutivo? Primeiramente, precisamos esclarecer que nossas ações sobre a biologia que afetam, no sentido de mudar a direção da seleção natural, existem tempos antes de Watson e Crick, e em alguns casos não dependem de manipulação genética de nenhuma natureza. Nos casos que dependem, temos o velho e bom melhoramento genético (seleção artificial) de espécies domésticas, que inclusive Darwin usou para ilustrar como a seleção natural funcionaria.

Nos casos que não há nada de manipulação genética, por exemplo, temos a perda de acuidade visual no homem moderno. Da necessidade de caçar e não ser caçado, também de perceber com clareza a profundidade entre galhos, numa vida total ou parcialmente arbórea, evoluiu nossa acuidade visual. A física ótica e a invenção dos óculos e lentes causaram um efeito sobre a seleção, mas não a destruíram ou sua ação sobre nós. A seleção natural da capacidade visual nas populações humanas indígenas é a chamada direcional, ou seja, elimina os genótipos variantes com menor acuidade, por incapacidade de caçar ou por aumento de risco de mortalidade por predação ou acidente. Não se vive tanto vendo mal, por isso também não se reproduz muito, e assim se é gradualmente eliminado. Criar óculos então passa a funcionar como a eliminação de predadores ou a facilitação da caça, e é descrito como afrouxamento da seleção natural. O afrouxamento é um processo perfeitamente “selvagem” no seu mecanismo, que acontece por exemplo em aves de ilhas oceânicas que perdem a capacidade de voar por não terem predadores nas ilhas (assim, voar é uma perda de energia desnecessária e arriscado, dado que tudo envolta é mar!). Aí, se pensar bem ... ei! Nós já tínhamos eliminado a predação e facilitado a “caça” (na pior das hipóteses, um míope sem óculos só vai comprar mais carne vencida por não conseguir ler as letrinhas da data de vencimento). Mesmo sem óculos, não sofremos estas pressões primitivas mais e, assim, por séculos, olhos menos competentes se acumulam na nossa espécie sem nenhuma consequência reprodutiva. Como se pode notar, há todo um processo que muda como as pressões de seleção natural atuam sobre nós, mas não elimina em nada nem nos torna imunes, às suas ações.

Como também vemos, as mudanças tecnológicas têm muito mais a contribuir na maneira como mudamos as pressões seletivas do que as mudanças biológicas e genéticas que venhamos a engendrar em nossos corpos. Criamos um mundo diferenciado e isso está nos mudando, mas já faz milênios, e em nada afetamos a seleção natural, apenas a afrouxamos em vários aspectos, mas apertamos em outros. Por exemplo, hoje há enormes vantagens adaptativas em genótipos que sejam resistentes a toxinas orgânicas similares à agrotóxicos ou à metais pesados ou poluição atmosférica. São fortes pressões seletivas como também são aquelas que favorecem genótipos que quebram gorduras em taxas elevadas ao invés de acumulá-las (por sinal, um genótipo com raras chances de sobreviver em um mundo primitivo, onde a fome era lugar comum). Para nenhum destes novos cenários ambientais estamos de fato “desenhando” um homem melhor, e muito provavelmente não há como fazê-lo senão por eugenia, ou seja, seleção da “raça superior”, algo associado as piores ideias da Humanidade, o fascismo e o Nazismo. É possível? Sim, é possível tentar ao menos, como em partes do mundo se matam certos fenótipos ou mulheres no nascimento, pode-se decidir por inseminar e permitir crescer só o tipinho que se queira. Infelizmente (brincadeira, felizmente), as condições ambientais mudam totalmente fora do nosso controle, por mais que tentemos impedi-las ou domá-las. Assim, a “raça superior” nazistamente selecionada para hoje, será um fracasso amanhã.

Em outras palavras, não desenhamos nada, não eliminamos a seleção natural, apenas manipulamos intensivamente recursos naturais e genéticos, e em função deste manejo, sofreremos as consequências evolutivas que forem, todas, como de costume, desde a origem da vida.

Concluindo, apenas algo dá alento diante de debates e proposições de divulgação de ciência tão distorcidas assim: é um engano e não está acontecendo. A evolução é um processo populacional, e nada que nossa biotecnologia crie de totipotente para a mudança direcionada de uma pessoa, haverá aplicabilidade em escala para sequer roçar nossa espécie antes do mundo eliminar esta, tecnicamente falando, aberração. Sigamos a vida, como ela é e sempre foi.

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