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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

15.05.19

A EXCELÊNCIA CIENTÍFICA DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS SEMPRE FOI CAPITALISTA E LIBERAL


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

Uma das grandes alegações desse governo atual para punir e sufocar financeiramente as Universidades Federais está calcada em acusações de ineficiência e balbúrdias, além de terem se transformado em um antro esquerdista. Há eco a isso, e vários apoiadores denunciam que as Federais são geridas por partidos de esquerda. Vamos investigar essas afirmações.

 

Faço aqui uma avaliação desse momento delicado, mas alerto que é minha visão pessoal. Sou professor de Federal e gestor de recursos públicos para pesquisa, os quais nos chegam por editais de ampla concorrência do MCTI ou fundações Estaduais de Amparo à Ciência. Somos um grupo diverso de pessoas e não falo por ninguém mas eu mesmo: Ph.D pelo Imperial College, UK via financiamento público federal, verbas devidamente restituídas ao Brasil pela Embaixada Britânica que me agraciou depois da minha volta com um projeto de treinamento em pesquisas florestais. Esse projeto custou mais do que o que o Governo tinha gasto com minha formação, e foi a base para a criação de um Programa de Pós-Graduação novo em Ecologia, aqui no Brasil. Falo em nome de quem acredita que verbas devem achar as mãos capazes de transformá-las em capacitação e conhecimento, e retorne desenvolvimento. O que será novidade para muitos, é que o sistema brasileiro de Pesquisa-Ensino nas Universidades Públicas já funciona assim, e só agora está ameaçado.

 

Mas vamos avaliar a presença de alas esquerdistas nas Federais. Há mesmo influências de esquerda em alguns setores, mas o que todos sabemos lá dentro é que essa influência se restringe em grande escala nos entornos sindicais, ou no tempo livre dos improdutivos. Detalhe é que na verdade isso vai tanto à esquerda quanto à direita, pois se acham que não há grupos internos defensores e propagadores do atual governo, se enganaram. Há, mas ambos, enquanto ativistas políticos, são os menos competitivos entre nós, e uma minoria. Todos podem ter seus lados, e costumávamos respeitar e mesmo nem saber que lado era esse antes das redes sociais. A base da ciência ocidental é colaboração intelectual, distante da política e da religião, desde a criação da Royal Society, em 1640. Quem não segue isso, para mim, é um desocupado, de esquerda ou de direita.

 

Agora vamos avaliar o porquê eu estou criando vários inimigos no meu ambiente de trabalho afirmando isso, em um dia de defesa das universidades federais. Primeiro, porque esses são a minoria absoluta. Em cursos de ciências exatas ou biológicas, onde a maioria das patentes, tratamentos, remédios, técnicas essenciais para o desenvolvimento e bem-estar das pessoas são criados, poucos tem tempo de se ocupar da política. Os atuais ataques à nossa sobrevida nos fizeram sair dessa bolha e lidar com a política, mas fazemos de má vontade. Queremos é fazer pesquisa. Agora, o que poucos estão vendo é que esses 30% de cortes no funcionamento das Federais se somam aos mais de 40% de cortes do Ministério de Ciência e Tecnologia, a despeito dos gritos solitários de protesto do Ministro Pontes, o único que parece defender os objetivos e funções de sua pasta.

 

O que o cidadão comum, em especial de direita, precisa saber, é que nesses cortes o governo está matando o sistema capitalista e liberal mais eficiente em atuação no serviço público, e jogando os mais competentes à mercê dos incompetentes ou ao corporativismo do serviço público. Afinal, o que diferencia esses grupos é a quantidade de verbas que cada um trás para as Universidades. Sim, caro leitor, o dinheiro de pesquisa não chega automaticamente, chega para projetos específicos que concorrem por essa verba. Um processo cuidadosamente auditado em todas as fases.

 

A distribuição de verbas de Pesquisa, de agências como o CNPq e a CAPES, são feitas por editais públicos, onde qualquer Instituição de ensino E pesquisa, público ou privado, pode concorrer. As universidades públicas produzem mais ciência porque acumulam mais competências e ganham mais verbas, de forma competitiva e capitalista, o que muitas vezes inerva quem não ganha, que nos acusam de meritocratas e elitistas!  Porém, é o sistema capitalista mais bem montado na prestação pública de serviços, com as universidades tendo pouquíssimo controle sobre a distribuição de verbas de ciência, o que garante liberdade política, e combate o corporativismo. Ou seja, os mais competentes laboratórios não precisam puxar o saco de ninguém. Um processo lícito e eficiente que em duas décadas nos colocou como a 14a produção científica do mundo, e que acaba agora, com esses cortes, e nos jogam na boca dos leões, ou, na análise governista, dos esquerdistas.

 

Mas então nos perguntamos o mais importante: a quem beneficiaria esses cortes? A qualquer um, nacional ou estrangeiro, que não tem interesse em um Brasil científico, tecnológico e competitivo. Momento esse que começamos a nos perguntar se estamos guinando à direita com um governo que nos apoia em um mundo capitalista, ou sendo vendidos como sucata a outros capitalistas não brasileiros a quem os governantes são subjugados? Não é lícito perguntar?

 

O objetivo desse texto que a todos vai irritar é mostrar que o gasto do dinheiro público no consórcio Ensino-Pesquisa é eficiente, honesto e produtivo, e que todo esse investimento não se mantém inerte se há um corte do repasse de verbas. Ciência é interesse de Nação, de Soberania, e em todo o mundo capitalista é financiado pelos Estados.

 

Com os cortes muita coisa vai se perder e recuperar isso seria muito mais caro que a economia do contingenciamento. Pensem em biotérios – animais mantidos vivos há décadas que deverão ser sacrificados, coleções que se perderão e custaram milhões para serem obtidas em campo, equipamentos caríssimos que precisam de manutenção. Fora toda a corrida para ser o autor de uma descoberta, que perderemos para grupos estrangeiros. Não há senão o fracasso nacional em todas as escalas, e o fortalecimento daqueles que dizem estar combatendo com os cortes “sanadores”.  Não há o que sanar, senão a influência de fake News na cabeça das pessoas comuns.

 

Assim, seguem alguns sites com esses dados, e alguns posts de fácil difusão, com informações didáticas sobre o que fazemos.

https://www.instagram.com/ufmgpesquisa/?utm_source=ig_profile_share&igshid=pbl1i658ut8g

 

https://jornal.usp.br/ciencias/fabricas-de-conhecimento/?fbclid=IwAR3PLPOgEpMriXiGQZUrn-0n2fd19NM6tvV56_ObpkYXZZ3kFxLdVwZKTSE

 

https://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/2019/05/13/internas_educacao,1053232/cortes-do-mec-nas-federais-com-nome-e-curriculo-conheca-vitimas-ufmg.shtml