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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

06.10.16

A curiango e o gavião na jardineira


Sérvio Pontes Ribeiro

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Um pequeno drama da vida selvagem na minha janela. Vários sabiás fazendo o que chamamos de “mobbing” (mais ou menos, bagunça) entorno de um gavião que acabara de destruir o ninho de curiango da minha jardineira. Isto mesmo. Bem dentro de BH, dois predadores primários (sabiás e curiangos, insetívoros) contra um predador de topo. Para um biólogo que estuda saúde ecossistêmica, isto equivale a olhar uma pele saudável de uma pessoa esbelta! Reflete que ao menos a parte da cidade onde eu moro, está bem.

 

Deveria estar satisfeito, mas tinha acabado de ver um pequeno curta sobre o acidente da Samarco, e quando meus olhos voltaram da distante árvore onde o gavião foi buscar sossego, viu o telhado de meu vizinho, um francês, geólogo da mineração. Será ele responsável pelo acidente em Barcarena, com aquela mineradora francesa que destruiu as águas amazônicas naquela região, sem alarde, sem drama e com uma pequena multa? Barcarena, o maior PIB do Brasil, uma das populações ribeirinhas mais miseráveis da Amazônia, cujo único benefício minerário foi o de sempre: prostituição para as filhas e violência para os filhos.

 

Mas fiquei pensando no nosso recente desastre ambiental no Rio Doce, e no sistema falido, entrópico, que destrói para construir. Este sistema terá que acabar, ele é o causador de TODO o racismo ambiental do mundo. No entanto, além e antes disto, é preciso melhorar e preservar a qualidade ambiental de onde está bem. A saúde florestal de uma cidade depende de suas árvores, e seu manejo com menos inseticidas e mais predadores naturais. Depende de reconhecimento da importância da fauna nativa dentro da cidade. Depende de um forte saneamento básico combinado com controle de zoonoses de animais domésticos, que não deve ser confundido com defaunamento silvestre urbano. Depende de voltarmos a viver como parte de um ecossistema. Até entendermos que temos que consolidar ecossistemas antrópicos sem destruir outros, temos que ser cautelosos com as poucas chances que nos restam.

02.10.16

SOBRE O FIM DO MUNDO E QUANDO ELE ACONTECEU


Sérvio Pontes Ribeiro

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Costumo ler Nature na cantina do Instituto uma vez por semana ao menos, para não esquecer o que vim fazer aqui. Nesta, dei de cara com um artigo sobre “Capability” Brown, arquiteto de paisagem inglês, responsável por boa parte dos “landscape gardenings” do Sec. XVIII, e Frederick Olmsted, arquiteto criador do Central Park. Pensadores de grandes paisagens selvagens, mesmo que permeando as áreas urbanas, defensores do lúdico, do belo, e das grandes visadas da natureza como remédio para a alma, e bem estar de toda a população. Olmsted em particular foi fundamental para a concepção de parques nacionais, que dos EUA se espalhou para o mundo inteiro.

 

Porém, mesmo os antigos modelos de preservação da paisagem, ou de modificação da mesma, visando o engrandecimento estético da vida por meio da natureza, refletiam uma forma de transformar o mundo com grande potencial de compatibilidade com o ideal da sustentabilidade que, em algum momento, nós perdemos.

 

De fato, estamos falando de Séculos XVIII e XIX, os últimos antes do fim do mundo. Claro, o mundo ocidental, os anteriores, no Oriente e em África, já haviam  acabado um tanto antes, e crescíamos sobre os destroços, destruindo outros, como os das Américas e remoendo, entre um e outro, o fim dos mundos Mesopotâmio, Egípcio e Helênico, causados pela maior desertificação que o homem já fez na Terra. Mesmo que cruel, crescíamos um mundo que evoluiu muito rapidamente de 1700 até a virada para 1900. Se humanizou, achou sombra na ciência e no misticismo (Eliphas Levi era contemporâneo a Darwin). Pensava-se civilizatoriamente, nos EUA, inclusive, pensava-se para todos, em igualdade, fraternidade e liberdade. Mas deu errado, e acabou, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

 

Já se notava no auge do triunfo, a decadência que aproximaria. Por exemplo, sintomático que nos relatos de 1854 para frente, Richard Burton (antropólogo, espião e geógrafo inglês, que descobriu as nascentes do Nilo, portanto, o Lago Vitória) já tendia à distorção do entendimento recente da biologia evolutiva para descrever, tendenciosamente, os povos africanos como uma raça degenerada. Abandonando o antropólogo sensível que ele foi, que amava as culturas africanas, e assumindo o militar, o primeiro homem ocidental que fez todo a peregrinação à Meca, ajudou a implantar a ideia distorcida do darwinismo social, e fortaleceu a última fase do Império Britânico, justificando sua opressiva presença no mundo. Começava o fim. Ao pararmos de perceber a beleza no diferente, começamos a morrer.

 

Depois disto vamos ruindo, lentamente, mas já após o fim do mundo. Aqui que quero chegar. Temos esta perversa ideia cristã de que há um fim súbito, que vai arrancar motoristas crentes de trás de seus carros velhos e despedaçados, que vão sair sem controle pelas ruas, batendo nas limusines dos pastores ímpios, ou nos carros dos ateus, católicos e macumbeiros, até tudo se desfazer entre o céu e o inferno. Não há isto, né? Já se estabeleceu o inferno na maioria das regiões habitadas pelo homem na Terra. Um resquício do que possa ser bom sobrou em regiões selvagens e em pouquíssimos jardins, perdidos, secretos, ou semi abandonados daqui e Dalí, mas como ilhas em meio as quais o barqueiro de Dante navega, sádico.

 

Porém, a boa nova é que o fim do mundo já aconteceu. Nunca conhecemos o mundo, nem nós nem nossos pais. Nossos avós sim, mas já há quatro gerações pós o fim. Isto é bom, porque não temos o que perder? Claro que não, é bom porque não temos que ter mais a ansiedade do colapso. Ele já ocorreu. O resto é farsa para alarmar políticos e a população para a necessidade de parar a queda. Se ruímos, e ainda estamos vivos, vamos parar de fingir que vivemos as últimas décadas de benesses tecnológicas e água pura (a água que você bebe não é pura, é suja como o ar que respira) e vamos começar a reconstruir.

 

Fundamental disto é que se tiver esta consciência, vai parar de achar normal casa sem reboco, nem esgoto, nem luz, pobre na rua, lixo, poluição, rios destruídos, ou que a humanidade inteira trabalha para o luxo de 1% das pessoas. Mundo? Onde um bom País africano, o Quênia, tem na sua capital, Nairóbi, 60% da população morando em uma só favela gigante, que nem é a maior do planeta? Preciso lembrar (e quem leu “A Trilogia Suja de Havana” de Pedro Gutiérrez sabe) que a miséria extrema se instalou em Cuba muito antes do planeta alcançar seis bilhões de pessoas, e que não foi por se alcançar uma capacidade suporte de população diferenciada por regiões do globo. Se instalou porque alguém controlando o mundo, em Washington, achou boa ideia meter um embargo econômico à ilha, levando milhares a uma vida de pobreza dor, e morte precoce. O que isso tem haver? O fim do mundo levou ao sistema de controle extremo dos recursos restantes, e este controle não está sendo usado para mudar o cenário, mas para nutrir as ilhas perversas de prosperidade.

 

O mundo acabou. Vai entender que é um processo em cadeia que já dura séculos, e que vai levar, um dia, à inviabilidade da nossa espécie. Vai entender que já é o pós fim. Se aceitar que a miséria com a qual você acostumou é o preço de um fracasso já velho, mais velho que você, vai procurar outra forma de viver, não vai?

27.06.16

Capitães da Ciência I: a morte da interdisciplinaridade


Sérvio Pontes Ribeiro

Qual é o critério mais poderoso de qualidade científica no momento? Na verdade, ele é baseado em princípios de... quantidade, e não de qualidade: o Fator de Impacto! As revistas são avaliadas pela quantidade de vezes que seus artigos são citados em outras revistas. Assim, aquelas revistas que publicam artigos de maior interesse para a comunidade científica, recebe maior número de citações, bem como seus autores (também julgados por outro cálculo bem complicado que os associa ao tanto que eles, pessoalmente, foram citados). Parece até razoável, não fosse o fato de que o princípio capitalista por trás desta disputa feroz alimente em si fraudes e um mero princípio de não independência. Claro que as revistas que acumulam melhor reputação vão ser mais lidas, independente do real conteúdo de seus artigos científicos. Isto sempre aconteceu, mas antes gerava uma certa ambição por publicar ali, fundamentada em interesses legítimos do conhecimento. Hoje, procuramos nichos que nos aceitem e que vençam esta batalha, e isto resulta em retroalimentar quem já venceu.

            Uma outra consequência funesta deste método é que ele levou ao completo isolamento entre as áreas do conhecimento. Se o critério de qualidade passa a ser quantos o leem, e se os pesquisadores são avaliados pelas revistas onde publicam, como alguém de uma área que é lida por milhões poderia interagir com alguém que, mesmo que tenha a expertise para resolver problema de conhecimento, estaria listado em revistas muito mais fracas (quantitativamente falando)? Vamos falar de viroses transmitidas por artrópodes (Arthropod Born Diseases = arboviroses), como a dengue e a Zika. Boa parte do entendimento sobre mecanismos da doença pousam em revistas lidas por pesquisadores em medicina, um número enorme de pessoas. Entretanto, parte do problema epidêmico precisa ser entendida em áreas muito menos populares, como Ecologia de Populações! Como interagir oficialmente sem comprometer a prestigiada (=extremamente popular, não melhor ciência, não mais competente na sua execução!!) Medicina com a muito menos prestigiada Ecologia?

            A CAPES, no Brasil, criou um sistema de avaliação que poderia resolver isto: o Qualis. Uma revista Qualis A1 na área de Biodiversidade deveria indicar pesquisadores publicando no topo desta área do conhecimento. Com isto, deveriam ser equiparáveis aos imunologistas publicando em revistas Qualis A1 na Ciências Biológicas III, a mais internacionalmente severa das áreas biológicas. Assim, o melhor ecólogo poderia trabalhar a longo prazo em programas de pós-graduação típicos da CBIII, onde doenças são estudadas. No entanto, esta possibilidade vai totalmente para o lixo quando a CAPES não escalona as revistas e as equipara sendo as melhores de cada área, mas as escalona exclusivamente DENTRO das áreas. Assim, as melhores da Biodiversidade precisam ser reescalonadas na CBIII, onde ganham notas, obviamente, péssimas. Continuamos isolados e cegos, pois as verbas, tempo, orientações, tudo, depende destes parâmetros.

              Assim, a interdisciplinaridade nos programas de pós-graduação do Brasil, ou no mundo, está morta.  Devemos recriá-la fora? Fora, na mente de jovens, para que um dia ressurja em meio à uma nova humanidade, mais brilhante e razoável que a que temos hoje.

Continua....

13.12.15

A CIDADE CELEBRA CICLOS QUANDO A ARTE CELEBRA A MORTE


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

Há quem se negue a ver os mais graves impactos ecossistêmicos que a remoção sem proporções das árvores do ambiente tem causado. Mesmo dentro das cidades, é preciso que se tenha as árvores não como elementos decorativos, mas como formadores de florestas urbanas. Como tais, estas florestas são como quaisquer outras, e são pautadas pela dinâmica de nascimento, crescimento, ocupação delongada do espaço pelas copas, redução e, finalmente, morte das árvores. Sem qualquer uma destas etapas, aleijamos este ecossistema.

 

Se negando a abraçar a proposta do movimento Fica Ficus de incorporar as árvores tombadas como parte da paisagem de Belo Horizonte, a Prefeitura realizou nosso sonho ao só largá-las por lá. Uma onda de mortalidade abriu um buraco no dossel da floresta linear da Av. Bernardo Monteiro, como de fato acontecesse nas florestas. Porém, como se tivesse lido nossos prognósticos, a onda parou.

 

 

 Uma clareira não nega uma floresta,

é parte dinâmica dela.

 

As árvores sobreviventes revigoraram-se, mesmo quando reduzidas. Largam aos céus seus poucos mas gigantescos galhos. Trazem ao urbano o assimétrico, complexo, grandioso e dinâmico SER de uma floresta.

 

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Galhos restantes de um Ficus, retorcidos pela busca da luz em meio aos

demais galhos que se foram, desenham a memória da copa que se foi,

deixando a marca de sua antiga grandeza, a velha senhora.

 

A floresta está viva mas o cidadão não vê. Uma velha e simples técnica de desfazer dos espaços públicos. Se não é o que o Poder quer, se é algo que surge da vida, das pessoas, não dá dinheiro aos amigos, abandona-se. Que o capim cresça, o cocô se acumule, as caixas e sacos escalem as árvores como cipós.

 

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O abandono não desfaz da floresta,

nem do renascer constante.

 

 

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Ainda são canteiros, mas o cidadão não

pode mais reconhecer.

 

 

Agrega-se o senso de lixo e feio ao que é um ciclo que garante que a cidade viva, respire, nasça, cresça, morra, mas siga em outra rodada da Fortuna. Para este descaso, há um antídoto: a Arte. O crescimento e a expansão dos troncos de um Ficus e suas raízes aéreas, são a arte da luz, da água e dos espaços. Morta a árvore, fica a Arte que moldou sua vida.

 

 

 

O desenhar do ar nos troncos que

deixam a senda de sua vida, e um

tronco-arte, reto, que traz risco

zero de queda.

 

 

 

 O desenhar da água, que faz

escorrer as raízes em busca do

solo que lhes firme e eternize.

 

Mais que arte, o tronco é o registro biográfico de uma existência centenária. Cuidada, estas formas desenhadas pelos anos serão a moldura de uma galeria ao céu aberto. Esta galeria terá que ser aberta em meio a capim, mato e restos, mas é onde o mundo mais precisa de mudança que o belo precisa invadir. Atrás do belo que se instale, que venha a cidade, os jardins o bem estar e o querer ficar.

 

  

 

Fiquem, Ficus, mortos e vivos.

15.09.15

A ciência de hoje no Brasil


Sérvio Pontes Ribeiro

Sentei para tomar um café no velho pátio do ICEB, onde em 2000 era a cantina, e onde eu sentava, professor substituto, preocupado. Embaixo daquela mesma árvore comecei a pensar o artigo da Nature sobre a falta de emprego para cientistas e professores universitários no Brasil, que depois achei companheiros para escrever, e que desde ontem voltou a ser citado.

 

Agora tudo é um pouco diferente, mas talvez outro artigo coubesse, já que passou-se 15 anos e a proporção de brasileiros com doutorado não melhorou (crescemos na taxa da população, portanto não superamos as deficiências e não migramos – do ponto de vista de volume de pessoas e da enorme demanda regional - para o Oeste e Norte). Porém, melhoramos e é nisto que habita o aspecto mais cruel disto tudo.

 

Hoje, quem eu formei em 2008 na graduação já são melhores doutores do que eu, e melhores do que os que formei em 2000, e que já são doutores faz uma década!

 

Hoje, não abrir concurso (especialmente doloroso na ciência e universidades, mas é válido para todo o serviço público federal – que urge por competência) é retardar a melhoria de todo o país, pois é negar oportunidade aos melhores.

 

Hoje, em ciência e educação, a juventude vale muito mais que a experiência. Mas hoje, um salário pouco promissor meu, será o desânimo mesmo de quem poderia entrar no sistema por concurso.

 

Ontem, o Governo brasileiro optou por ceder suas melhores mentes e mais caros profissionais para os países que pagarem mais e oferecerem melhores condições.

 

Hoje, o interesse de países já desenvolvidos e ricos, ou de quem quer desenvolver mais rápido, venceu o Brasil, e num gesto que soa como de curto prazo para gerar uma economia temporária, mas que na verdade nos condena ao atraso histórico que acreditei ter acabado.

 

Hoje entendo que quem manda no Brasil é um mundo ao qual nossos governantes obedecem, e que nossas chances são pequenas janelas que o vento planetário insiste em fechar assim que as abrimos.

 

Meses atrás quase perdi um amigo batendo boca numa forte defesa à pesquisa brasileira. Hoje entendo que defendia meus desejos mais que a realidade. Hoje esta amizade vale mais que a farsa que criei para mim mesmo.

 

Hoje eu estou tendo enormes dificuldades de ser a empolgação que os alunos que do curso que eu coordeno precisam que eu seja.

13.07.15

A Pós-graduação brasileira não faliu: uma visão patriótica da história do conhecimento.


Sérvio Pontes Ribeiro

Nos intervalos da correção de uma proposta de doutorado que vamos submeter amanhã à UFOP, eu no meu nervosismo mental, paro de tempos em tempos, e nestas me deparei com a série de críticas pessimistas, legitimamente pessimistas, sobre os cortes recentes nas verbas da CAPES. Assim mesmo, escrevo este blog para relaxar o cérebro e continuar, e continuo só porque tenho a certeza que vale a pena. Por mais crítico que eu seja, neste momento, não consigo de fato concordar com a forma negativa com que as circunstâncias atuais estão sendo postas. Cortes em custeio de pós-graduação é atraso inaceitável? Sim, sem dúvida, e fruto de sermos ignorados. Mas quanto somos ignorados de fato.

 

Por outro lado, não dá para olhar para isso como falência da ciência brasileira. Meu incômodo não é com nada que escreveram de fato, mas com esta palavra: falência. Certamente não vamos procurar o significado jurídico e legal do termo, já que as práticas de pós-graduação e ciência não visam, ao menos não diretamente, a geração de lucros e não são detentoras de capitais privados. Mas há os sentidos alegóricos que foram aplicados à pós-graduação brasileira. Posso pensar em alguns citados no Wikipédia: “falência é também um termo associado ao ato de decretar o fim de algo”. Isto que me incomoda. Como o fim, se mal começamos? Claro que se mal começamos estamos à mercê de políticos que não nos entendem ou sequer nos enxergam, mesmo quando nos usam como bandeiras desenvolvimentistas, o caso específico da atual Presidência da República.

 

Afinal, somos mesmo invisíveis dada nossa desorganização política (http://posgraduando.com/blog/cortes-na-capes-e-minha-esperanca)? Menos que antes! De fato, nunca fomos tão visíveis! O que falta? O ensino fundamental e médio terem cientistas ali lecionando (e na grande maioria das universidades privadas também, onde ainda se faz pouca ciência), pois esta é a forma de fazer uma Nação entender o valor da ciência: com cientistas junto a juventude tenra, deixando claro que dela prescindimos!

 

Em 2001, eu e colegas soltamos uma nota na Nature (Vol 413, pg16) sobre o abandono e descaso do governo FHC com a ciência brasileira, dado o enorme número de doutores formados no exterior e retornando sem encontrar emprego. Uma crise, outra, diferente da atual, já que agora boa parte dos jovens doutores consegue sim empregos em ciência. Naquela crise, detectamos um número preocupante: apenas 0,02% da população brasileira tinha doutorado, e esta pequena parcela não ter emprego era ultrajante, como é hoje esta parcela empregada não ter mais verba para trabalhar! Porém, em 2010, cruzei os dados do IBGE com os da GeoCAPES para uma palestra e descobri que ainda estávamos com apenas 0,02% da população brasileira com doutorado! Dado o crescimento populacional em uma década, isto significou que tínhamos aumentado algo como 4.200 doutores no período. Muito pouco para todas as áreas do conhecimento!

 

 

Do ponto de vista de falência e negócios, porém, uma oportunidade! Olhando atentamente para estes dados da GeoCAPES, descobri também que a maioria dos municípios das regiões Norte e Centro-Oeste tem menos de um doutor empregado no serviço público em média! Temos todo um mundo para colonizar, como podemos falir? Entre 2000 e 2010 estas regiões cresceram em 20% suas populações mas a ciência não migrou com esta gente para lá! E lá, na nossa área, está nossos mais preciosos recursos estratégicos. Temos tudo pela frente, não abre-se falência na expansão! Mas também não se estabelece quem não faz o dever de casa. Temos que convencer melhor, verdade, e lutar contra uma proposta de mundo que não se interessa pela real e absoluta democratização do saber.

 

O Index Nature Global 2015 (vol 522, no 7556, de 18 de junho) deixa bem claro a longa senda a ser trilhada, já que em índices simplórios como contagem de artigos e peso do conhecimento gerado, a América Latina e Caribe só estão na frente da África. Há muito o que desbastar no universo político dominado pelo controle das massas ignorantes, e esta luta é dura, mas é gratificante se feita da forma certa. Quando fui aprovado em dois concursos e, após um tempo, chamado para a melhor destas universidades (melhor em termos EXCLUSIVAMENTE de índices), escolhi a mais fronteiriça das duas. Pensando nos dados globais e nós, não vejo que estamos no pior lugar do mundo para fazer ciência, estamos apenas expandindo as fronteiras do saber e encolhendo a ignorância no mundo. Não se faz isto nos grandes centros, mas nas periferias. Digo mais, tenho uma vida melhor e muito mais respeito e prestígio (aqui e no exterior) por abrir fronteiras e não ficar apenas corroborando paradigmas, o que ainda faço relativamente bem. Não vamos deixar a numerologia comparativa nos abater!

 

O fato é, o mesmo Nature Index  que escancara as desigualdades na pesquisa no mundo, conclui que para a América Latina o Ciência Sem Fronteira e o Beca Chile são as grandes esperanças da região para ampliar a qualidade de suas publicações, via uma aproximação quantitativa com o Primeiro Mundo. De fato, os editores do Index não precisam saber das distorções existentes, mas certamente conseguem ver as virtudes de iniciativas que nunca antes houveram.

 

Eu e a maioria dos cientistas brasileiros vemos claramente as distorções, má emprego de verbas, escolhas políticas que não priorizam as soluções mais profundas e transformadoras. Mas não podemos deixar de ver que a Ciência, pela primeira vez, é uma palavra-chave de plano de Governo. Resta a esperança dela continuar ali e um dia o governo entender o que exatamente ela significa.

02.05.15

A adolescência da Biologia brasileira precisa acabar


Sérvio Pontes Ribeiro

Acho que porque somos tão novos no mundo e no Brasil, temos atitudes tão estranhas quanto a nós mesmos. Não demos força ao Sindicato quanto foi criado, não cobramos uma postura moral e mais ativa dos Conselhos, não processamos mal empregadores, e não sabemos fazer negócios (o que pouca gente sabe no Brasil, mesmo em outras carreiras). Pior? Sim, nos envolvemos em iniciativas altamente corporativistas e protecionistas em todas as áreas de atuação, distantes da academia e dos avanços da ciência: quão mais distantes, mais protecionistas. Deste mundinho sem regras claras, nasce a fragilidade do biólogo, do seu parecer e de seu papel e respeito na sociedade.

Falta entre nós lideranças autenticas fora da Academia, que tenham investido sua carreira em administração ou gestão de recursos humanos e que atue no real apoio ao profissionalismo do biólogo, no trabalho da construção moral de seus limites, deveres e direitos.

Hoje é mais fácil vermos no lugar da gestão das competência uma prática imoral: a gestão com base na exploração abusiva dos juniores, na desvalorização dos resultados mais complexos, polêmicos, ou capazes de mudar rumos dos projetos dos clientes. Uma não atuação do biólogo que os Conselhos tinham a obrigação de coibir e não fazem.

Falta um grupo que delimite salário e valores de serviços, e de preço para pessoas, que nunca são iguais. Falta se impor e mostrar que certas mudanças que agreguem saúde, conservação, soluções ambientais, podem ser lucrativas e não custosas aos empreendimentos e ações das empresas na sociedade.

Para tudo isto, falta que estas pessoas mantenham sua proximidade com a ciência, ou canais do saber que transbordem para a sociedade e cobrem do profissional sua constante atualização. As ciências biológicas mudam mais rápido que qualquer outra ciência hoje, e mesmo quem ensina no primeiro e segundo grau tinha que manter uma maior proximidade com seus avanços. Para mim, somente ao lado do legítimo saber e seus avanços é que poderá alicerçar as bases de uma profissão madura, que ainda não temos para nós, biólogos.

11.02.15

Café da Manhã com Nature - AS FLUTUAÇÕES CLIMÁTICAS DECANAIS COMO CAUSA DE COLAPSO ECOSSISTÊMICO FLORESTAL VS RIOS VOADORES


Sérvio Pontes Ribeiro

Reinicio o ciclo de Cafés com Nature com um ano de atraso. Explico. Tendo assinado a revista em papel desde 2001, resolvi que vale a pena organizar isto tudo em um lugar só e fazer alguns exercícios de pesquisa histórica na ciência. Toda a coleção, espalhada entre a UFOP e gavetas misteriosas da casa da minha mãe e na minha, foi agrupada no Clube da Ciência.

               Porém, nesta manhã me vi com as poucas restantes aqui no lab, e peguei a de janeiro de 2014. Fui para o meu café com a óbvia pergunta: o que sabíamos a um ano atrás e que ignoramos? Meu grande prazer foi o destaque para um artigo sobre as oscilações decadais pacíficas (PDO em inglês), possível causa do ciclo de seca que tão “súbita e misteriosamente” nos assola. Súbita e misteriosamente? Certamente não, e certamente não só fruto disto. A grosso modo, sabemos há quase duas décadas que os ciclos de chuva constantes com as quais nos acostumamos sofreriam quedas severas em intervalos de décadas.

Invés de garantir os mananciais de água, a proteção de zonas de recarga, as áreas de evapotranspiração e liberação de compostos orgânicos voláteis da Amazônia, que minimizariam este ciclo climático que inevitavelmente nos assolaria por agora, fizemos o contrário. O que tem para se saber, o governo sempre soube. Curiosamente, é na casa do Clube da Ciência que começa esta indagação. Este é um bairro da década de 70, como é esta casa que nos abriga e que foi finalizada em 1976. Até este exato ano, as chuvas eram de fato escassas, de forma que todo o Mangabeiras têm casas com reservatórios extras de água no chão, além de grandes caixas de água.  

Assim, em fevereiro de 2015 acordo para o fato que o ano de 2014 começou com este debate sobre o efeito dos ciclos decanais no aquecimento global, que não parou. Me pergunto que cientista ligado ao meio ambiente não sabia deste debate além de mim? Só em 2014 a Nature publicou oito artigos sobre a oscilação decadal pacífica e sua interação com poluentes e com o aquecimento global. Um está aberto e é muito interessante: http://www.nature.com/srep/2014/141017/srep06651/full/srep06651.html

Sigo daqui mostrando alguns aspectos que nos afetam diretamente, e contando uma historinha desconhecida da maioria, quanto ao Pantanal e nossa inconsequência científica-política.

Marengo (2006), em um interessante documento do Ministério do Meio Ambiente (“Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade”; acessível em http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/livro%20completo.pdf) indica vários eventos de chuvas abaixo da média na Amazônia, em extensa área territorial, desde 1997. Mostra também o interdecadal de poucas chuvas de 1925 que findou em 1975 (veja a fig 7 deste documento), mais forte no Nordeste, mas afetando todo Planalto Cristalino também. De fato, este interdecadal está relacionado a um longo período de seca no Pantanal, que pegou centenas de fazendeiros desprevenidos quando terminou em 1974. História fascinante e desconhecida de quem não viveu por lá: o Pantanal Mato-grossense responde a largos períodos com e sem regime de cheias. A grande colonização pecuária daquele território se deu em um longo período sem as cheias, quando água era tirada de poços salobros, alguns existentes até hoje. O que hoje todos tomam como fato imutável, as inundações, pode cessar em algum momento!

Este documento do MMA também mostra uma interessante relação destes ciclos com as vazões do rio São Francisco. O que se vê é que como são ciclos de vazão que a longo prazo se anulam. Mas ao limitar esta análise para 1979-1999, fica claro que as cheias e fortes chuvas que sucedem a primeira metade da década de 70 formam um pico em constante declínio.

 

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Extraído da Figura 8 de Marengo (2006)

 

Voltamos no início do ano de 2014, quando a Nature já debatia este fim de um ciclo específico decadal. Notável que em janeiro de 2014, começávamos o ano com o debate do fim deste ciclo, cuja consequência mais benéfica foi ter desacelerado o aquecimento global, resultando em um aumento médio de apenas 0,04 oC e não de 0,21 oC como previsto. Se por um lado, estes ciclos podem resultar em menos aquecimento global que o esperado a longo prazo, a notícia para a década que começa por agora não é boa: a América do Sul ficará mais quente e menos chuvosa.

Isto não só já é sabido e divulgado pelo próprio governo brasileiro em um documento de 2006, mas foi fortemente debatido no mundo em 2013/2014, desde o inverno extremamente severo da Europa neste período. Aqui, até muitos cientistas foram misteriosamente pegos de surpresa por agora: um ano depois do último debate sobre o assunto. Inclusive eu. Não que tivesse a obrigação de lidar profissionalmente com este conjunto de dados. Afinal, estou fazendo um mero exercício de leitura e entendimento. Não domino de fato nada do que escrevi acima! Mas consigo entender minimamente estes fatos. Este é o ponto mais importante de uma discussão sobre o porquê andamos às cegas.

Eu vejo um vazio na distribuição do conhecimento. O Brasil faz toda a ciência que precisa para gerir seu próprio futuro e desenvolvimento, e tem pleno acesso ao conhecimento global, do qual fazemos parte e ao qual somamos agressivamente, até como liderança em algumas áreas. O que não temos é o acesso da sociedade a este conhecimento e um corpo de políticos sensíveis ao significado destes resultados. Se por um lado a sociedade leiga tivesse leitura e entendimento do saber existente, poderia cobrar que não seguíssemos cegos e ao acaso. Se os políticos já tivessem esta sensibilidade e exigência mínima de terem que pautar decisões à luz da ciência, a sociedade viveria mais bem informada. Temos um buraco entre o que sabemos e como este saber nos afeta. Hoje, não nos afeta e seguimos na sorte.

 

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28.01.15

Biólogo em tempos de crise ambiental, ou, por que você está tão infeliz no trabalho?


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

 

Biólogo, a ilusão: o que não é ser Biólogo - Este título de certa forma remete ao livro de Richards Dawkins (God a delusion), um de nossos ilustres, mas de certa forma o lembro em crítica. Quando Dawkins resolve usar a Biologia Evolutiva para lidar com religião (assunto de outras áreas, como Filosofia e Sociologia), o faz levianamente, mas entendo que na busca por um papel do Biólogo na sociedade, ao debater questões de importância. Embora legítima a busca pela interdisciplinaridade e integração de pensamentos, a leviandade ao fazê-lo reflete a falta de um foco satisfatório na busca pessoal do escritor em questão. Será?

O fato é, alegoricamente, gosto do Prof. Richard (a quem Bill Hamilton me apresentou um dia, como se não fosse Hamilton que devesse ser procurado por Dawkins, e não o contrario!), mas tenho pena de sua sina, que é a nossa sina: todo biólogo vive tão enfiado na Biologia que dificilmente consegue lidar com outros aspectos de sua vida se não à luz da Biologia (e portanto, da Evolução, segundo Dobzhansky, e eu todo mundo, espero!!).

Isto é um fundamentalismo existencial triste, que nos leva a exercer meio tortamente a nossa profissão. Pensando nisto fui vasculhar a internet sobre o que é ser biólogo e fiquei horrorizado, das descrições mais pueris às descrições em dicionário, precisamos de um pouco de racionalidade aqui. Antes de começar, temos que entender que não temos que acordar, comer, respirar e dormir biologia, por mais que isto nos seja óbvio! Ao não fazê-lo poderemos delinear onde atuamos e com que objetivos de maneira mais clara. Este é o aspecto que quero realmente abordar: o que é ser biólogo, e porque não somos, hoje em dia, tão mais felizes com nossa profissão.

 

O ser Biólogo e sua missão – Como dito, não vou me ater às definições secas e descritivas, oficiais, acadêmicas ou insanas e delirantes, do que seja um biólogo. Eu vou dar meu ponto de vista quanto à missão que nos cabe. Há duas grandes vertentes que eventualmente nos definem: ciência e educação. Não adianta querer que sejamos uma profissão tecnocrata, com procedimentos e protocolos pré-determinados sobre o que fazer (embora já haja vários). Somos profissionais do limiar do saber, ou seja, lidamos sempre com o desconhecido, com o descobrir e com a imprevisibilidade. Neste sentido, a maioria de nós, em saúde ou meio ambiente, teremos que lidar com a metodologia científica e decisões baseadas em formulações de hipóteses e análises de risco, para atuar no mercado de trabalho. Este lado, ligado à ciência, eu chamo de vocação à Sobrevivência humana. O outro lado de nossa profissão é o ensino. Esta não será nunca uma área menor, ao contrário, é o cerne de nossa existência. Quem toma decisões práticas profissionais com base em decisões científicas no limiar do saber necessitará, obrigatoriamente, saber ensinar o que descobriu, para convencer quanto às suas decisões. Desta forma, mesmo aqueles trabalhando para a nossa sobrevivência, precisam professorar. Já aqueles professorando, só por fazê-lo, já estão lidando com a nossa sobrevivência a longo prazo! Eu chamo  de vocação ao lúdico da vida.

 

A Sobrevivência humana - O biólogo que lida com a sobrevivência é todo aquele atuando nos diversos mercados de trabalho que temos. Se na saúde, biotecnologia ou meio ambiente, a missão jurada é de garantir a preservação das espécies e buscar soluções para o bem estar do homem. Assim, gerar fontes sustentáveis de alimentos, germoplasma, criar, manejar e estudar áreas protegidas, desenvolver processos para capitalizar em serviços florestais, cuidar da saúde, são ações típicas da profissão. Além disto, temos que ser os mais cuidadosos pilares da qualidade do trabalho de nossos pares. Afinal, o serviço público, a fiscalização e análise em saúde e meio ambiente, é hoje um do grandes mercados que temos e a qualidade do biólogo que vai atuar está nas mãos do servidor dos Conselhos Regionais e dos órgãos de Meio Ambiente e Saúde. Não é sem estranheza que estando a maioria dos empregos ligados ao licenciamento ambiental que muitos vivem um estado de profunda decepção pela profissão. Dentro de regras atuais que dão poucas ou nenhuma garantia de preservação do recurso natural, não fazemos nosso papel!

Paradoxalmente, nunca tivemos tantos biólogos altamente qualificados disponíveis para o mercado como agora, mas paga-se muito pouco para ceder e aceitar decisões contrárias às nossas crenças profissionais. Ao fazer assim, o mercado não absorve sempre os melhores, ou a eles não dá as devidas condições de trabalho. Acompanhar inerte, passivo e impotente ações mitigadoras ou de compensação que pouco conseguirão fazer para neutralizar uma perda inefável de áreas naturais, por tão pouco, faz de nós profissionais de uma triste figura.

Enquanto não conseguirmos ter força técnica para impedir as perdas ecológicas irreversíveis que estão sendo impostas ao Brasil, não estamos sendo biólogos! Curioso ver este mercado crescente e olhar para o bom colega e lembrar dos amigos engenheiros e honestos que eu tinha na falida década de 80. A maioria desistiu de atuar na Engenharia porque a falta de fiscalização punha como regra das grandes construtoras o baixo custo! Desta forma, o profissional sério se negava a entregar um apartamento cuja pia de luxo poderia cair no pé do proprietário, dada a péssima qualidade do rejunte, ou coisa pior. Imagino se não tínhamos que entender o que fez a engenharia evoluir no Brasil e evoluir ainda mais do que eles para um mercado comprometido com nossos resultados (vide viadutos por aí). Afinal, quando erramos não deixamos escombros, mas não deixaremos esperança!

 

O lúdico da vida - Por outro lado, todo este processo de atuação devida e gratificante da profissão depende não só de nós reagirmos e tentarmos reverter o quadro profissional atual. Depende de uma sociedade que veja claramente que a saúde e o meio ambiente são bens inegociáveis, por valor algum! Uma sociedade desta não surge, é formada e aí entramos da maneira mais triunfante: educando. O biólogo educador é aquele mais fortemente ligado aos componentes lúdicos da nossa profissão. Sim, somos sem pieguices ou inocências, defensores do belo. Afinal, a proximidade com a vida, o entendimento da evolução da mesma, a contextualização de nós mesmos no Planeta e na sua história evolutiva, são elementos de grande enriquecimento cultural para qualquer pessoa. Bem como a pintura, música e outras artes, é sabido que o existir e o conviver com a biodiversidade é uma maneira de diminuir crises depressivas e outras doenças mentais e corpóreas. A beleza é mais do que útil, e nada mais retrógrado e perigoso que achar que não (principalmente em uma sociedade utilitarista e imediatista como a nossa). Para um biólogo, pouca coisa será mais bela que a descrição da morfologia de uma planta, uma ave, a descrição de um ciclo bioquímico, o entendimento da vastidão desconhecida do Microbiomas, das floresta tropicais, das interações antagônicas (onde vemos beleza até no parasitismo). Nada mais belo que a vida, e nada mais nobre que defendê-la.

 

Conclusão - Como disse porém, sem pieguice! O saber é útil bem como a diversidade da vida o é para a nossa sobrevivência. Assim, fechamos um círculo perfeito para a nossa atuação: educar o leigo sobre o papel da biodiversidade para a obtenção de fármacos, novas formas de alimentos, para a proteção do solo e da água, é o caminho mais possível, embora não o mais curto. Sem hesitar e com urgência, temos que segui-lo. Se estamos inconformados com a maneira como o mercado de trabalho lida com o que consideramos mais belo e precioso, que tal todos sermos meio professores, e mudarmos na base do esclarecimento intransigente, que não pode ser do jeito que tem sido?

 

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29.12.14

O Corsário da Ciência


Sérvio Pontes Ribeiro

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 O Corsário é uma Iniciativa. Como Corsários desgarrados, é uma iniciativa informal. O rumo de sua Nau:

- sequestrar o conhecimento acadêmico e torná-lo acessível à sociedade e aos não iniciados;

- promover a Biologia como propriedade cultural e base para técnicas simples de manejo de ecossistemas residenciais urbanos e rurais;

- fortalecer as iniciativas de auto-sustentabilidade;

- enriquecer democraticamente por meio do conhecimento.