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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

28.09.10

Debate inaugural – Parentoni Martins & Zanette: Texto 3


Sérvio Pontes Ribeiro

 

Além da estética.

Lorenzo Zanette, PHd/ Universtity College London

 

O colega Parentoni, assim como outros o fizeram, confunde seleção de parentesco e a hipótese da haplodiploidia (ver Dawkins 1989). Esta hipótese, sugerida também por Hamilton (1964-II), era uma tentativa de explicar as múltiplas origens da eusocialidade em Hymenoptera. Como argumenta Parentoni, esta hipótese não contempla os casos em que a eusocialidade surgiu em organismos diplóides. Curiosamente, Parentoni desconsidera que a eusocialidade surgiu um número muito maior de vezes em Hymenoptera do que em qualquer outro grupo animal. Ou seja, apesar de não ser o único fator relevante para a evolução da eusocialidade, a haplodiploidia pode ter facilitado seu aparecimento (ver revisão em Bourke e Franks 1995). Ao confundir a seleção de parentesco com uma hipótese derivada da mesma, desconsidera-se que as limitações da hipótese haplodiplóide não são aplicáveis à seleção de parentesco. Esta é uma generalização muito mais ampla, não limitada pela ploidia dos organismos estudados e nem mesmo pelo grau de parentesco entre indivíduos. A regra de Hamilton (rb - c > 0), considera não apenas os genes compartilhados mas também os benefícios e custos reprodutivos associados à determinado atributo. Alem disso, como mencionado anteriormente, pode e é usada para entender a evolução de vários tipos de interações entre indivíduos ou até mesmo células que compartilham genes (Burt e Trivers 2006). Como argumentado anteriormente, este grande poder explicativo decorre da incorporação do conceito de aptidão darwiniana inclusiva, i.e. aptidão darwiniana direta e aptidão darwiniana indireta somados (revisão em Bourke e Franks 1995).

 

A segunda limitação apontada por Parentoni também parece considerar que a utilidade da seleção de parentesco se restringe à evolução da eusocialidade em insetos. Além disso, contrariamente ao que ele afirma, até mesmo em insetos eusociais mais avançados como Apis mellifera, operárias podem sim apresentar autonomia reprodutiva, i.e. podem produzir machos haplóides fora de suas colônias natais. De modo geral, conflitos de reprodutivos são relativamente comuns dentro de colônias de himenópteros eusociais (Ratnieks et al 2006). Tais disputas não fariam sentido evolutivo se as colônias fossem realmente superorganismos como afirma Parentoni. Ao defender esta idéia, Parentoni embarca na seleção de grupo, afinal colônias são indiscutivelmente conjuntos de indivíduos. No entanto, como afirma o próprio Parentoni, não há sustentação empírica ou teórica para esse barco.

 

A terceira critica de Parentoni se concentra nos genes e sua indefinida existência. É preciso recordar que esta indefinição, i.e. o debate a respeito da definição de gene, é fruto dos recentes avanços em biologia molecular e portanto mais recente do que os trabalhos de Hamilton. Este adotava uma definição bastante geral e simples de gene, usada até hoje. Um gene é uma seqüência de DNA que é transcrita para RNA, junto com regiões não transcritas que participam da regulação da transcrição (Futuyma, 2005). Alem disso, a seleção de parentesco não depende de como se define o gene (Grafen 1991). O único pressuposto genético para a utilização da seleção de parentesco é o de que os atributos sendo estudados sejam resultado da expressão de um ou mais fragmentos de DNA herdáveis, independente de como se escolha defini-los, um gene, vários genes uma rede de genes,etc.

 

Graças à elaboração da seleção de parentesco e do conceito de fitness inclusivo, foi possível pela primeira vez perceber que o conjunto atributo - informação genética constitui a unidade sendo selecionada. E esta informação genética que pode passar para as gerações seguintes, mesmo indiretamente através de parentes, não os indivíduos. Estes são inquestionavelmente um conjunto de atributos-informações genéticas, uma constelação Dobhzanskiana transitória, que serve de veiculo para a informação genética (Dawkins, 1976). Portanto, contrariando Parentoni, a seleção de parentesco e o conceito de fitness inclusivo são fortes candidatos à grande avanço teórico pós nova síntese.

 

Bourke, A.F.G. and Franks, N.R. 1995, Social evolution in ants, Princeton University Press, Princeton, USA.

 

Dawkins, R., 1989, The Selfish Gene 2nd ed., Oxford: Oxford University Press.

 

Grafen, A. 1991, Modelling in behavioural ecology in Behavioural Ecology : an evolutionary approach 3rd ed. (J.R. Krebs e N.B. Davies, eds.), Blackwell, Oxford, UK.

 

Futuyma , D. J., 2005, Evolution, Sinauer Associates, Sunderland, USA

 

Ratnieks, F. L. W., Foster, K.R. and Wenseleer, T. ,2006, Conflict resolution in insect societies. Ann. Rev. Entomol. 51:581-608.