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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

28.09.10

Debate inaugural – Parentoni Martins & Zanette: Texto 4


Sérvio Pontes Ribeiro

 

À procura da estética

Rogério Parentoni, prof-visitante, Dep. Biologia Universidade Federal do Ceará

 

Zanette treplicou sobre minhas considerações com esmero, competência e também com um entusiasmo digno de um “buldogue de Hamilton”. A despeito desse entusiasmo quase contagiante, seus argumentos de que seleção de parentesco representa um avanço teórico extraordinário para a biologia evolutiva não me convencem. E não é apenas porque a atraente teoria hamiltoniana tenha despertado tanto interesse, de certa forma tardiamente, após sua publicação em 1964, mas especialmente devido à restrição de sua abrangência. Tanto quanto eu sei, seleção de parentesco não é aplicável a angiospermas, um grupo de organismos notadamente diverso e rico em estratégias reprodutivas. Além disso, os numerosos casos de seleção natural atuando sobre indivíduos de diferentes categorias taxonômicas, inclusive angiospermas, são evidências empíricas de que, apesar dos indivíduos obviamente morrerem, como corretamente salientou Zanette, eles não deixam de ser o alvo da seleção natural que atua sobre os indivíduos que integram uma geração. Em outras palavras a aptidão é individual e não gênica. Mesmo reconhecendo que os genes, pedaços de DNA ou complexos sistemas genéticos interativos possam ser considerados de fato imortais e um genótipo contenha uma longa história nele inscrita. Porém, especialmente em biologia há a necessidade que os objetos de estudos sejam conceitualmente bem definidos a fim de se evitar dubiedade nas interpretações, aliás, não raras em nossa ciência. Por isso, não definir o que é gene e admitir que seleção de parentesco seja independente da caracterização do objeto sobre o qual a seleção atua, pode dar margem a interpretações ambíguas e até mesmo abrir caminho para considerações metafísicas (e.g. vitalismo). Neste caso, esses objetos indefinidos seriam revestidos de uma força intrínseca desconhecida que os fazem manipular atributos fenotípicos que maximizem suas chances de se tornarem imortais. É forçoso reconhecer, portanto, o caráter restritivo da teoria sob a perspectiva da diversidade biológica e quando se discute sobre quais seriam de fato as unidades de seleção.

 

Por outro lado, Zanette comete um equívoco ao tentar desvincular a hipótese sobre haplodiploidia da teoria de seleção de parentesco, pois esse peculiar sistema de reprodução é tido como facilitador da ação da seleção de parentesco em Hymenoptera, como bem o disse Zanette. Outra razão é simplesmente epistemológica: haplodiploidia faz parte da estrutura da teoria de seleção de parentesco, mesmo que tenha sido formulada ad hoc para tratar da espantosa evolução independente de sistemas eusociais avançados em Hymenoptera, que Zanette, novamente equivocado, diz que não sou capaz de reconhecer.

 

Finalmente, a produção de machos haplóides por operáreis “estéreis” é um evento raro que não tem força para romper a coesão colonial, à qual não denominei superorganismo como Zanette se expressou, mas apenas um indivíduo complexo sobre o qual a seleção natural deve atuar. Além disso, muito embora, nós humanos sejamos indivíduos estruturalmente complexos (150 bilhões de células, estruturais e reprodutivas, além da metade de microorganismos interagentes em diferentes níveis) a seleção natural atua sobre cada um de nós indivíduos que temos a potencialidade de exibir aptidão darwiniana, sobrevivendo e reproduzindo descendentes férteis.

 

Em conclusão, Zanette se expressa fervorosamente ao dizer que seleção de parentesco é indiscutivelmente o mecanismo e o “gene” a unidade de seleção como a nova “revelação” da biologia evolutiva. Porém, tenho a convicção que ele não ignora sobre a importância do confronto de idéias e evidências para o avanço do conhecimento científico em biologia e quaisquer outras ciências. E, que tanto quanto eu, desfruta o prazer de confrontar idéias e evidências como nos propusemos a fazê-lo.