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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

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02.04.20

A SARS-CoV-2 NÃO É UMA ARMA BIOLÓGICA. ENTENDA AS RECORRÊNCIAS DE PANDEMIAS ZOONÓTICAS E SUA ORIGEM: A FOME E O DESMATAMENTO


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

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Rotas de migração do H1N1 que infectou pessoas no México, em uma criaçao de porcos vindos dos EUA. Os mexicanos também quiseram dominar o mundo como os chineses?

As doenças de origem animal acometem as populações humanas por séculos. Como se trata de uma invasão a um novo hospedeiro, as defesas são poucas, e a tendência é da doença se espalhar rapidamente, podendo gerar uma pandemia, como a que enfrentamos agora, do vírus SARS-CoV-2. Junto com TODAS as pandemias registradas, acontecem também ao longo da história as teorias da conspiração. Inevitavelmente, sejam quais foram os meios de comunicação da época, se alastra uma série de ideias delirantes sobre alguém, algum governo, ter criado essa doença para dominar o mundo. Vou tentar desconstruir esse tipo de coisa descrevendo um pouco da história das pandemias.

As doenças nos acometem vindo de animais, às vezes devido à alimentação, as zoonoses, às vezes por transmissão secundária, via vetores Invertebrados, as chamadas arbodiseases (arthropod born diseases). A peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida dos ratos às pessoas pelas pulgas, é um exemplo. As arboviroses, viroses transmitidas por mosquitos hematófagos, como a dengue, zika e chinkungunya, são outro grupo de tais doenças. Essas infecções são a causa de relações de medo e rejeição ao mundo natural pelo homem civilizado, em especial nos trópicos.

A despeito do medo das doenças encontradas em ambientes naturais, a relação dos homens com o mundo selvagem é natural e necessária. Uma das suas manifestações é a caça, de quase tudo! Por exemplo, as pessoas comem ratos em diferentes partes do mundo até hoje. É um habito comum, mas em muitas partes do mundo, um enorme tabu. A verdade é que tabus são reações etnoecológicas contra o risco de doenças. Uma possibilidade é que a combinação de  Leptospirose crônica e o surto da peste bubônica em meados do Sec. XIV, e que se repete em Londres por volta de 1665-66, tenha levado a Europa, que vivia nas mais precárias condições de higiene, a repudiar os ratos como alimento? Uma hipótese...

Uma doença zoonótica que se espalhou pelo mundo e mudou o comportamento sexual de duas gerações foi a AIDS. Esse vírus invadiu a espécie humana através da prática de caça e ingestão de chimpanzés, comum em algumas regiões da África. Mais uma vez, a alimentação de caça nos dias modernos, em sociedades urbanas e tecnologicamente estruturadas, resultou em problemas globais de saúde. No entanto, para aqueles na pobreza e fome, não há opção senão caçar. Assim como hoje com a COVID-19, houveram diversas teorias de conspiração sobre a criação de laboratório dessa doença, todas refutadas.

Várias zoonoses, portanto, tem grande potencial em resultar em pandemias quando invadem a espécie humana. Gripes aviárias e suínas, as chamadas HxNx, como a H5N1, e a terrível H1N1, são exemplos recorrentes. A H1N1 foi a causadora da gripe espanhola, cuja origem nunca foi descoberta, tendo a pandemia começada durante a Primeira Guerra Mundial, acobertada pela maioria das nações e apenas revelada na Espanha, no primeiro momento. Seu gene foi resgatado de corpos na década de 90, quando a biotecnologia já permitia resgatar a estrutura de RNA preservada, especialmente em  corpos em regiões congeladas, como no Alaska.

A H1N1 de 2009 iniciou uma pandemia e hoje está presente em todo o mundo, e coexistimos com milhares de mortes anuais, porém suficientemente controladas pela existência de uma vacina. Sua origem está na alimentação de porcos no México, o que traz a questão para outro patamar: parar de caçar mas criar animais. Sem a devida vigilância sanitária, nos expõe aos mesmos riscos da caça. A ausência de vigilância sanitária é, por definição, uma outra característica típica da pobreza.

Essa é a realidade atual do SARS-CoV-2. É mais que alimentarmos de animais infectados, mas sim de alimentarmos de animais doentes. A diferença está no fato de que animais saudáveis, ou seja, em condições ideais, com a devida qualidade de vida, mesmo infectados são menos acometidos por doenças. Doenças se dão quando o organismo parasitário reproduz excessivamente dentro do hospedeiro, causando danos em seus órgãos e funcionamento. A doença tem origem ambiental. Quando a alimentação de animais selvagens se dá pela captura e péssimo acondicionamento dos mesmos, vivos, e em confinamento de múltiplas espécies, a chance de adoecimento generalizado e interespecífico se alastra. A culpa disso? Pobreza e desmatamento. Nada além da busca de uma fonte barata de proteína, e poderia ter acontecido aqui, na África, Indonésia, onde houver pobres e pouco saneamento e vigilância sanitária.