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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

26.02.20

O que é um mudlarks, e o que tem eles com a chamada ciência cidadã?


Sérvio Pontes Ribeiro

Me chamou a atenção um artigo do The New York Times, sobre os “mudlarks” e sua intensa atividade no rio Tâmisa, dentro de Londres. Uma palavra desconhecida para mim, prima dos “trainspotters”, que se tornou famosa pelo cinema britânico dos anos 90. Talvez, antes de tudo, eu devesse explicar o que seja a ciência cidadã.

Ciência cidadã é um processo de envolvimento das comunidades leigas na geração de dados científicos, com aprendizado ao longo do caminho, grosseiramente falando. Digo grosseiramente por que há enorme variação na definição de protocolos de ação entre os cientistas e as pessoas em colaboração. Como muita da informação gerada é repassada a depositórios em tempo real, via aplicativos de celulares, o envolvimento vai da mera captura e compartilhamento de dados, seguindo instruções pré-estabelecidas pela ciência, até ao envolvimento das pessoas no estabelecimento de metodologias, delineamentos e objetivos da pesquisa. Do quase nada ao muito includente, ciência cidadã têm feito sucesso em diferentes ambientes culturais, e daí as diferenças de técnicas, e aí que os “mudlarks” entram.

Na verdade, o primeiro exemplo de ciência cidadã que eu conheço em ecologia surgiu na Europa, cerca de cinco anos atrás, quando um grupo financiado pela British Ecological Society, convidou observadores de árvores a relatarem com fotos georreferenciadas, suas descobertas de fim de semana. Um dos maiores levantamentos arbóreos da Inglaterra se construiu dessa maneira. De volta na década de 90, durante meu doutorado, tive contato com um estudo que coletou dados de observadores amadores de borboletas em toda a ilha, gerados por amadores por mais de 100 anos, e que conseguiu mostrar uma relação clara entre a expansão da iluminação artificial e a diminuição de várias populações desses insetos.

Os ingleses, famosos observadores de tudo (horários de trem, os “trainspotters” ou pássaros, os “birdwatchers”, sendo os mais famosos) e por muito tempo, estão mergulhados em uma cultura de apreciação do ambiente e dos acontecimentos. Pode-se dizer que uma parcela substancial da população sempre foi “naturalista amador”. Não só pelo prazer da observação, mas pela meticulosidade das anotações, dados confiáveis e passíveis de tratamento estatístico-científico adequado puderam ser resgatados dessas pessoas. Agora veja, em uma sociedade onde esse tipo de atividade é secular, não é necessário estruturar uma ciência cidadã inclusiva, que defina normas e compartilhe o conhecimento com os “coletores”. Os coletores, ao contrário, é que compartilham seu vasto conhecimento amador, sistematizado, com os cientistas. Afinal, como disse Thayer (2002 – A crise não moderna da universidade moderna, Ed. UFMG), a ciência formal não mais é do que a coletânea dos saberes tradicionais que o mundo dominador considera de maior relevância.

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Um guia de identificação de árvores para amadores, usualmente usados com

um "Pathfinder", um mapa de escala 1:100, que permite o  botânico amador iden-

tificar e registrar a localização de cada espécie em seu mapa.

Nesse sentido, os “catadores de objetos na lama”, os “mudlarks” que inspiraram esse texto, entram como arqueólogos amadores. Aqui, como há captura de objetos de importância histórica, e outros nem tanto, bastou ao British Museum e a Prefeitura de Londres normatizarem as regras de entrega de peças de valor histórico ao museu. Até onde sei, algo que é feito com prazer, em um país onde os museus são entendidos como do povo, e o conhecimento coletivo mais importante que a possessão privada (ao menos na classe média).

Como deve estar claro nesse momento, há um notável contraste dessa realidade com nossa, ou da maioria dos países colonizados e largados à sua sorte, onde os conhecimentos tradicionais foram desprezados, e os científicos elitizados. Nesse ambiente, tipicamente latino-americano, a universidade tem que se apresentar em outro contexto, e assumir seu papel transformador da sociedade, portanto, educador. Aqui, a ciência cidadã é mais difícil de construir, pois precisa crescer junto com uma melhor comunicação da ciência, que alcance os anseios do interesse das comunidades pelo saber.

Lembremos que na Inglaterra, desde 1660, quando a Royal Society foi criada, os cientistas faziam palestras públicas, demonstrações de seus experimentos para os demais e outras formas de comunicação da ciência. O objetivo era levantar fundos, e a “sociedade” aqui eram os mais nobres e ricos. Mesmo assim, quando a ciência é um show enriquecedor, ela alcança a curiosidade humana de qualquer um, e pode essa ser uma das origens dos diversos “cientistas amadores” ingleses (resta verificar se esse percurso fez dos ingleses mais imunes que outros povos à farsas científicas, como movimento anti-vacina ou terraplanismo, mas isso é para outro texto).

Portanto, para vencermos na busca de apoio cidadão para obtenção e compartilhamento de dados, precisaremos primeiro explicar o que e porque fazemos o que fazemos, e sempre atento aos saberes não tradicionais, e sua difícil leitura na ótica cartesiana. Uma tarefa árdua, mas grandemente empoderadora. Iniciaremos um projeto assim, com estudos de insetos vetores de doenças, na bacia do Rio Doce. Em breve, mais notícias sobre a ciência cidadã aqui.