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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

06.10.16

A curiango e o gavião na jardineira


Sérvio Pontes Ribeiro

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Um pequeno drama da vida selvagem na minha janela. Vários sabiás fazendo o que chamamos de “mobbing” (mais ou menos, bagunça) entorno de um gavião que acabara de destruir o ninho de curiango da minha jardineira. Isto mesmo. Bem dentro de BH, dois predadores primários (sabiás e curiangos, insetívoros) contra um predador de topo. Para um biólogo que estuda saúde ecossistêmica, isto equivale a olhar uma pele saudável de uma pessoa esbelta! Reflete que ao menos a parte da cidade onde eu moro, está bem.

 

Deveria estar satisfeito, mas tinha acabado de ver um pequeno curta sobre o acidente da Samarco, e quando meus olhos voltaram da distante árvore onde o gavião foi buscar sossego, viu o telhado de meu vizinho, um francês, geólogo da mineração. Será ele responsável pelo acidente em Barcarena, com aquela mineradora francesa que destruiu as águas amazônicas naquela região, sem alarde, sem drama e com uma pequena multa? Barcarena, o maior PIB do Brasil, uma das populações ribeirinhas mais miseráveis da Amazônia, cujo único benefício minerário foi o de sempre: prostituição para as filhas e violência para os filhos.

 

Mas fiquei pensando no nosso recente desastre ambiental no Rio Doce, e no sistema falido, entrópico, que destrói para construir. Este sistema terá que acabar, ele é o causador de TODO o racismo ambiental do mundo. No entanto, além e antes disto, é preciso melhorar e preservar a qualidade ambiental de onde está bem. A saúde florestal de uma cidade depende de suas árvores, e seu manejo com menos inseticidas e mais predadores naturais. Depende de reconhecimento da importância da fauna nativa dentro da cidade. Depende de um forte saneamento básico combinado com controle de zoonoses de animais domésticos, que não deve ser confundido com defaunamento silvestre urbano. Depende de voltarmos a viver como parte de um ecossistema. Até entendermos que temos que consolidar ecossistemas antrópicos sem destruir outros, temos que ser cautelosos com as poucas chances que nos restam.

02.10.16

SOBRE O FIM DO MUNDO E QUANDO ELE ACONTECEU


Sérvio Pontes Ribeiro

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Costumo ler Nature na cantina do Instituto uma vez por semana ao menos, para não esquecer o que vim fazer aqui. Nesta, dei de cara com um artigo sobre “Capability” Brown, arquiteto de paisagem inglês, responsável por boa parte dos “landscape gardenings” do Sec. XVIII, e Frederick Olmsted, arquiteto criador do Central Park. Pensadores de grandes paisagens selvagens, mesmo que permeando as áreas urbanas, defensores do lúdico, do belo, e das grandes visadas da natureza como remédio para a alma, e bem estar de toda a população. Olmsted em particular foi fundamental para a concepção de parques nacionais, que dos EUA se espalhou para o mundo inteiro.

 

Porém, mesmo os antigos modelos de preservação da paisagem, ou de modificação da mesma, visando o engrandecimento estético da vida por meio da natureza, refletiam uma forma de transformar o mundo com grande potencial de compatibilidade com o ideal da sustentabilidade que, em algum momento, nós perdemos.

 

De fato, estamos falando de Séculos XVIII e XIX, os últimos antes do fim do mundo. Claro, o mundo ocidental, os anteriores, no Oriente e em África, já haviam  acabado um tanto antes, e crescíamos sobre os destroços, destruindo outros, como os das Américas e remoendo, entre um e outro, o fim dos mundos Mesopotâmio, Egípcio e Helênico, causados pela maior desertificação que o homem já fez na Terra. Mesmo que cruel, crescíamos um mundo que evoluiu muito rapidamente de 1700 até a virada para 1900. Se humanizou, achou sombra na ciência e no misticismo (Eliphas Levi era contemporâneo a Darwin). Pensava-se civilizatoriamente, nos EUA, inclusive, pensava-se para todos, em igualdade, fraternidade e liberdade. Mas deu errado, e acabou, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

 

Já se notava no auge do triunfo, a decadência que aproximaria. Por exemplo, sintomático que nos relatos de 1854 para frente, Richard Burton (antropólogo, espião e geógrafo inglês, que descobriu as nascentes do Nilo, portanto, o Lago Vitória) já tendia à distorção do entendimento recente da biologia evolutiva para descrever, tendenciosamente, os povos africanos como uma raça degenerada. Abandonando o antropólogo sensível que ele foi, que amava as culturas africanas, e assumindo o militar, o primeiro homem ocidental que fez todo a peregrinação à Meca, ajudou a implantar a ideia distorcida do darwinismo social, e fortaleceu a última fase do Império Britânico, justificando sua opressiva presença no mundo. Começava o fim. Ao pararmos de perceber a beleza no diferente, começamos a morrer.

 

Depois disto vamos ruindo, lentamente, mas já após o fim do mundo. Aqui que quero chegar. Temos esta perversa ideia cristã de que há um fim súbito, que vai arrancar motoristas crentes de trás de seus carros velhos e despedaçados, que vão sair sem controle pelas ruas, batendo nas limusines dos pastores ímpios, ou nos carros dos ateus, católicos e macumbeiros, até tudo se desfazer entre o céu e o inferno. Não há isto, né? Já se estabeleceu o inferno na maioria das regiões habitadas pelo homem na Terra. Um resquício do que possa ser bom sobrou em regiões selvagens e em pouquíssimos jardins, perdidos, secretos, ou semi abandonados daqui e Dalí, mas como ilhas em meio as quais o barqueiro de Dante navega, sádico.

 

Porém, a boa nova é que o fim do mundo já aconteceu. Nunca conhecemos o mundo, nem nós nem nossos pais. Nossos avós sim, mas já há quatro gerações pós o fim. Isto é bom, porque não temos o que perder? Claro que não, é bom porque não temos que ter mais a ansiedade do colapso. Ele já ocorreu. O resto é farsa para alarmar políticos e a população para a necessidade de parar a queda. Se ruímos, e ainda estamos vivos, vamos parar de fingir que vivemos as últimas décadas de benesses tecnológicas e água pura (a água que você bebe não é pura, é suja como o ar que respira) e vamos começar a reconstruir.

 

Fundamental disto é que se tiver esta consciência, vai parar de achar normal casa sem reboco, nem esgoto, nem luz, pobre na rua, lixo, poluição, rios destruídos, ou que a humanidade inteira trabalha para o luxo de 1% das pessoas. Mundo? Onde um bom País africano, o Quênia, tem na sua capital, Nairóbi, 60% da população morando em uma só favela gigante, que nem é a maior do planeta? Preciso lembrar (e quem leu “A Trilogia Suja de Havana” de Pedro Gutiérrez sabe) que a miséria extrema se instalou em Cuba muito antes do planeta alcançar seis bilhões de pessoas, e que não foi por se alcançar uma capacidade suporte de população diferenciada por regiões do globo. Se instalou porque alguém controlando o mundo, em Washington, achou boa ideia meter um embargo econômico à ilha, levando milhares a uma vida de pobreza dor, e morte precoce. O que isso tem haver? O fim do mundo levou ao sistema de controle extremo dos recursos restantes, e este controle não está sendo usado para mudar o cenário, mas para nutrir as ilhas perversas de prosperidade.

 

O mundo acabou. Vai entender que é um processo em cadeia que já dura séculos, e que vai levar, um dia, à inviabilidade da nossa espécie. Vai entender que já é o pós fim. Se aceitar que a miséria com a qual você acostumou é o preço de um fracasso já velho, mais velho que você, vai procurar outra forma de viver, não vai?