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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

14.06.14

DA SOCIOBIOLOGIA DO AUTORITARISMO


Sérvio Pontes Ribeiro

Estava vendo um documentário sobre a Aurora Dourada, partido neonazista grego, que recusa a aceitar este título, mas é. Subitamente lembrei de uma mesa de pub do Imperial College, com dois caribenhos negros e grandes, eu e outro brasuca branquelos, e um inglês, tipicamente pertencente às classes trabalhadoras ascendentes da época. Se eu fosse fazer uma tradução cultural, eu diria que era um cara que fez rolezinho na juventude - mas lá ser branco e trabalhador é o normal, e obviamente ele não sofria com o racismo que as classes ascendentes brasileiras ou sul-africanas sofrem. Mas se não sofre, aplica? Aplica! E aplicou ali, na cara de 4 estrangeiros, e dois deles negros! Ele falou do não reconhecimento facial! Citou um documentário de vida animal que tinha assistido, onde babuínos de espécies diferentes reconheciam "inimigos" pelos rostos.

 

Enquanto eu esperava o meu amigo negão de maior biomassa avançar nele (o que, elegantemente não fez), ia sedimentando aquela imagem do medo que aquele pobre coitado inglês tinha dos estrangeiros, e como ele retornava este medo ao componente de reconhecimento de linhagens! Em um mundo miscigenado e múltiplo, não há mais como definir que há um clã -  uma família onde se exerce a aptidão abrangente - como grupo amigo contra genes inimigos. Porém, a disputa entre clãs foi a base da competição intraespecífica humana, não a disputa entre raças, pois quem disputava recursos eram clãs de ancestralidade imediata comuns, ou seja, de mesma origem geográfica. Tanto é assim que  entre o espólio de uma disputa, em diferentes partes da Terra, a troca de mulheres ocorria afim de garantir uma minimização da endogamia. Portanto, não deveria ter nada disto de não reconhecimento de rostos! Em lutas ancestrais eram todos profundamente parecidos. No mundo atual, e na ausência de localizar seu clã genético em famílias ocidentais tão pequenas, a lógica daquela mente simplória e racista de meu amigo fazia um novo sentido, ou um velho sentido colonialista! Mesmo assim, podemos dizer que seria um sentido biológico básico e orgânico, assim como cagar (que é ao que comparo qualquer gesto racista ou sexista, que não sobre dúvidas do meu repúdio).

 

Mas o que me impressiona é a transferência orgânica e racista deste sentimento para movimentos sociais de ódio e exclusão, que hoje permeiam as sociedades de países tão distintos. Por trás de fascistas europeus ou da classe alta e média brasileira (só aquela do tipo "como angu e arrota peru", não a maioria de nós, devidamente educada), um padrão: ricos e vassalos de um lado, identificando os inimigos que tentam tomar o que lhes pertencia no passado. Curioso demais isto! Na Grécia, a crise e a Comunidade europeia estão tirando os privilégios de todos. Aqui, é a classe baixa e média baixa excluída que está ameaçando os direitos dos antes exclusivos!

 

Em ambos os casos, poderosos se alinham com não-poderosos que acham amparo no poder de poucos. Há castas que se privilegiam por servir poderosos, e que engrossam fileiras conservadoras e fascistas, dando um ar de movimento de revolta coletiva, que não é.

 

Porém, por trás desta confusão de adeptos, um padrão: outros grupos, de cor e origem (judeus, sempre, mulatos e negros, sempre, migrantes, ciganos, macumbeiros, mulheres e bichas) são reconhecidos como inimigos! Um reconhecimento baseados em memes culturais e não na genética! Mesmo assim, há algo de profundamente biológico nestas injustiças, mas assim como não podemos fazer cocô nas esquinas onde todos passam - e cocô é algo legitimamente biológico!! - não poderia ser aceito tantas ações francas de apropriação do Estado e recursos pelos que se sentem tão absolutistas! Mais triste, isto pertence a todo o mundo de hoje, e não às suas grotas mais atrasadas!

 

Porém, voltando ao grego neonazista, e todos outros entrevistados e devidamente doutrinados naquele documentários que citei ao começo, sua afirmação é que ele é nacionalista e não racista. Que a defesa é à unidade grega, e não à segregação. Claro, ele deixa implícito que quem não é grego é inimigo, pede para serem deixados sós, e acusa, explicitamente, europeus e os judeus. O que me incomodou foi ver que isto me lembra pessoas na academia defendendo suas visões do trabalho. Distorcendo (ou francamente mentindo) leis para fortalecer seu ponto de vista, tentando humilhar e desacreditar vozes dissonantes. Também me lembra gente cheia de ódio comprado da imprensa contra ações de governo, sem fazer as contas, sem ver prós e contras, só odiando por odiar.

 

A rejeição à esquerda pelos direitistas e ao centro pelos extremistas de esquerda mostra uma tendência humana de não aceitar de primeira mão o bom senso, o comum conviver de ideias e contradições, a tolerância e o aceitar. Isto me faz voltar ao cocô. Sim, a defesa obsessiva de um grupo contra o resto, como se os outros fossem criar um mundo que não te caiba, tem raízes biológicas claras. Por isto mesmo, é a causa das guerras e genocídios serem tão resilientes e resistirem até hoje, a despeito de todas as conquistas humanistas. Entretanto, como o cocô na esquina, este impulso biológico não deve ser aplaudido nem cultuado como virtude. Pois é apenas... cocô.

05.06.14

Trilogia Suja de Havana e você


Sérvio Pontes Ribeiro

Em um Brasil includente, o efeito colateral é rejeitar. Da rejeição, o efeito colateral é a intolerância. Dela, a guerra. Intolerância é crime e é uma violência. Se te achas superior, engula Pedro Juan Gutiérrez, em "Trilogia suja de Havana", e saiba que estás sendo apenas igual a tudo quee desprezas.

 

"tem que compreender que estará sempre encontrando caras feias, gente que vai fazer questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo, de ' fazer você entender' que não tem nada a dizer, ou que você deve evitar aquele sujeito porque é louco, ou efeminado, ou um verme, ...outro, macumbeiro, espírita, maconheiro, outra porque é canalha, indecente, puta, sapatona, mal educada. Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e perfeitas. E assim querem transformar você num excluído e num merda. Jogam você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros."