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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

27.09.13

Em alto mar


Sérvio Pontes Ribeiro

Parto para campo, mas volto em breve, quisá com o novo texto. 

Quero falar do vazio intelectual do Norte, do ponto de vista estatístico (pois o que lá estão são fabulosos corsários e os mais bravos pesquisadores que conheço).

 

Quero falar que me surpreende termos programas de estudo para toda a África, mas não temos benefícios nenhum ou incentivo algum para formar doutores de origem no Norte do país. Pois enquanto os sulistas preferem se digladiar por poucas vagas no sudeste do que ir abrir fronteiras Amazônicas, mesmo quando o tema da pesquisa do sujeito é Biodiversidade, a Amazônia carece de doutores, em escala extravagante!!  E a gente de lá que vai fazer este papel. 20% da população brasileira emigraram para o Norte e Oeste nos últimos 10 anos, e em nenhuma escala crível ou necessária, a ciência acompanhou isto! Temos um novo país sendo formado sem doutores, sem pesquisa, tomadas as escalas que seriam necessárias.

 

O Corsário escreve aos domingos, mas estarei no mato, subindo árvores e estreando equipamento novo, mas tento escrever, e tento publicar antes do outro fim de semana!

23.09.13

CORSÁRIOS FAMOSOS DA ECOLOGIA E DA ENTOMOLOGIA II


Sérvio Pontes Ribeiro

 

William Donald Hamilton – Bill era em muitas maneiras um corsário no seu tempo, mas hoje em dia talvez tivesse feito mesmo a sua segunda escolha, que era ser carpinteiro. No "Narrow roads of gene land" (1996, W.H. Freeman, Oxford), onde ele compila e comenta sua obra literária, chega a falar disto. De fato, a sua permanência até a morte no Departamento de Zoologia de Oxford já é um "reconhecimento do Rei" e a consagração como "capitão de longo curso", já que para lá foi como Professor Honorário, e talvez nunca tivesse tentado isto pelos caminhos normais. De fato, sua trajetória ganha vulto na bem menos gloriosa Michigan State University, e de sua boca, mesmo quando já em Oxford, se ouvia frequentemente frases de autodepreciação.
Ele se considerava um péssimo orientador, o que só seria se fosse tratado pelo aluno como se trata um orientador convencional. Ele não dava direções para o seu artigo ou estatística, nem abordava questões sobre financiamento – ele sentava com você por uma noite inteira para discutir ideias, ver fotos da sua área de campo e propor hipóteses que eram de alguma relevância na interface ecologia-evolução. No resto, você tinha mesmo que se virar. Uma marca do Bill que se vê em muitos pesquisadores brasileiros de elevada qualidade teórica e de profundo conhecimento prático foi a baixa produtividade científica! Falo quanto a números claro! Seus poucos artigos mudaram o rumo da Biologia, e para isto, bastou aqueles que fez, e nem todos foram precisos!


Certamente o perfil dele seria muito mal visto pela CAPES e pelo CNPq, como de fato foi pelo CNPq e pelo IBAMA, que o proibiram de vir coletar sangue de aves no Brasil para sua pesquisa sobre a evolução de sexo e doenças! Laudo de um super competente veterinário, claro, e nada adiantou Márcio Aires, ainda vivo, correr a Brasília e tentar reverter o erro. Ao final da história, isto traçou outra rota para sua "vessel", e ele foi estudar AIDS na África, onde contraiu a malária que o matou em 7 de março de 2000, aos 63 anos de idade apenas. Assim, podemos dizer que a inteligente e flexível burocracia científica brasileira matou, indiretamente, o maior Biólogo do Século XX.


A intenção aqui não é falar de da regra de Hamilton, aptidão abrangente, nem nada tão famoso, mas sim de suas idiossincrasias. Porém, na ótica corsária, o que fica claro é que em uma sociedade científica madura como a Inglesa, sabe-se pontuar e valorizar um cientista brilhante e "outlier" na sua rota acadêmica! Sabe-se achar pesquisadores essenciais que não estão no corredor central do "oriente centenas e publique milhares", e ainda assim ter esta gente separada do joio! Aqui, ainda tão verdes que somos, temos agências rígidas e inflexíveis, quase Weberianas na forma de avaliar criatividade (como se fosse possível), e que põe no balaio do "baixo clero" qualquer um que não pontua de acordo com a regra X. Claramente sabemos que são muitos sujeitos brilhantes e nada preocupados com estas métricas que são descartados por esta pueril postura, infelizmente.


Porém, suas maiores loucuras se via em campo, e para tal, tenho este modesto relato que fiz após sua morte, descrevendo sua maravilhosa pessoa e sua vibrante atitude ao longo de uma sofrida expedição em Mamirauá, em 1991. Temo que a qualidade de meu pdf não permitaa leitura dependendo dos seus recursos, mas vai a capa do Bulletin a Royal Entomological Society, Antenna, onde foi publicado para seus alfarrábios.

 

No próximo, Jonathan Majer, afinal, Bill merece um post só para ele.

 

 

 

16.09.13

CORSÁRIOS FAMOSOS DA ECOLOGIA E DA ENTOMOLOGIA


Sérvio Pontes Ribeiro

Dentro deste princípio, sempre houve corsários brilhantes. Aproveito o ensejo do novo blog para celebrar estes velhos marginais e não desanimar os novos pretendentes, para que não desistam dos ágeis pequenos navios. Listarei aos poucos, embora digo que a maioria com que convivo, de fato o são. Comecemos pelos antigos:

 

Alfred Russel Wallace  - Sim, claro! Em uma época que a ciência convencional era atividade da nobreza, um filho da classe trabalhadora/comerciante não tinha muito espaço. Teve a oportunidade de estudar e ler, e foi construir sua história de naturalista em expedições pelos trópicos para montar coleções entomológicas e vender na Europa (ainda hoje, no IBISCA, alguns dos pesquisadores ainda levam espécimens avulsos para vender à colecionadores, e assim pagar suas despesas de viagem. Pasmem, mas boa parte do IBISCA também corsários são, e não tem emprego formal em ciência, embora publiquem na Science ou em revistas invariavelmente de topo). Das suas histórias creio que a mais fascinante de imaginar eram os encontros no rio Negro com Henry Bates (do mimetismo). Cada um vinha de um lado da bacia, onde ficavam meses coletando, depois encontravam perto de Anavilhamas, abriam suas coleções e faziam um longo período de debates e formulações de hipóteses sobre os padrões geográficos observados. Anos depois da publicação conjunta do Origem das Espécies, Darwin foi pessoalmente à Rainha e lhe conseguiu um emprego na Academia, mais especificamente na Royal Society. Embora devidamente ancorado, ele foi um controverso e alternativo cientista até o final. Entre seus feitos, está seu envolvimento na campanha contra a vacinação, na época que a vacina estava em teste, recém-criada. O princípio da cautela, que hoje põe muitos em embate justo contra os transgênicos, foi seu modus operandi, aparentemente!

Dêem uma olhada em http://wallace100ufes.wordpress.com/ para outras infos.

 

Wallace, até pelas origens sociais similares na Inglaterra, inspirou enormente o nosso contemporâneo Roger Kitching – Roger largou o mainstream britânico em troca pela Austrália, indo de cara para uma universidade de menor porte. Brilhante ecólogo, ele recebeu e orientou outro corsário que largou uma orientação no Imperial College, com John Lawton, e veio a ele: Yves Basset (apresento suas corsarisses outro dia). Embora hoje em dia a Griffith University seja uma universidade grande e competitiva, com excelentes estatísticas científicas, ainda não é parte do “Group of Eight”, os Almirantados acadêmicos australianos. Entretanto, sem dúvida nenhuma é uma universidade de grande destaque regional e científico dado o grandioso trabalho de vida inteira de pesquisadores como o Roger, Nigel Stork e outros, nas mais diversas áreas.

 

Na próxima, William Hamilton e Jonathan Majer.

16.09.13

SociobioloDia agora é Corsário e a ciência: A ciência e o interior I


Sérvio Pontes Ribeiro

NOTA – Estes questionamentos e reflexões são feitas preservando a minha admiração e respeito por todos que me antecedem, e por aqueles que optaram pelo “mainstream”. A pesquisa brasileira é frágil como um todo e precisamos de todos, mas é preciso olhar para quem está nas bordas desta aventura.

 

 

O momento e o instrumento de divulgação e resistência aqui iniciado, merece que uma enciclopédia aberta seja a referência citada. Do Wikipédia:

 

 

“Um corso, ou corsário, (do italiano corsaro, comandante de navio autorizado a atacar navios) era um pirata que, por missão ou carta de corso (ou "de marca") de um governo, era autorizado a pilhar navios de outra nação (guerra de corso), aproveitando o fato de as transações comerciais basearem-se, na época, na transferência material das riquezas.”

 

 

Trocando em miúdos, O Corsário não é pirata, é uma parte do jogo, e toma com a devida autorização para tomar. A ciência hoje, não só aqui, mas no mundo todo, é feita de reinados, e corsários. Universidades sem prestígio, jovens doutores empregados, grupos emergentes, em suma, são desejáveis e importantes, mas o são como os corsários eram. Podemos tomar e crescer aos poucos para sermos um dia parte de uma grande nação. Enquanto não somos, somos corsários! Não importa se o indivíduo tem porte de almirantado, se ele optou por uma rota alternativa, mesmo que a rota fosse estimulada, é um corsário.

 

O Plano Nacional da Pós-Graduação, documento público da CAPES, tem um capítulo inteiro sobre a interiorização e expansão da pós-graduação para as regiões mais distantes do país. Eu cri nisto antes deste documento existir, e olha que por sorte nem fui tão para longe. Vim para um próximo recanto de Belo Horizonte, mas para uma universidade que saia de uma fase centrada na formação consagrada de engenheiros, para se tornar de fato uma universidade plena (no dia 21 de agosto a UFOP comemorou 44 jovens anos apenas, enquanto que as Escolas de Minas e Farmácia tem ambas bem mais que 150 anos).

 

O tempo dispensado nos últimos 10 anos à missão de trazer a pós-graduação (tanto em Ecologia quanto um modelo novo, interdisciplinar, em Evolução) para a UFOP foi consagrado com fabulosos sucessos, extravagantes fracassos, e ameaças de desmontes cotidianos. Pessoalmente? Internamente, eu enfrento diariamente quem prega que formar profissionais na base da ciência não é o caminho; externamente, eu chegarei aos 48 anos de idade como um mero Pesquisador 2 do CNPq (a bolsa de produtividade não considera o empenho para criar programas, coordenar programas, criar Departamentos, ou seja, o CAPINAR do campo não semeado, como produtividade científica - os 50 mestres em Ecologia que a UFOP formou desde a criação de nosso Programa, em 2007, não me somam nenhum extra). O que me faz respirar é o enorme apoio e reconhecimento que tenho dos pares internos (cientistas e a administração da UFOP) e dos pares, DE FATO, externos (os dois grandes grupos internacionais dos quais sou fundador e sempre deles participarei: IBISCA e Azorean Biodiversity Group).

 

O fato é, por melhor que seja um Corsário, está condenado a gastar sua vida na redistribuição das riquezas, e só ganhará por isto reconhecimentos lendários, e nunca a formalização de algum reconhecimento pelo sistema. Fui revisitar o tal Plano Nacional da “pós” feito pela CAPES para acreditarmos que devemos nos lançar nesta aventura. Na página de início (http://www.capes.gov.br/sobre-a-capes/plano-nacional-de-pos-graduacao) achamos os documentos com os certames para as políticas nacionais, inclusive a expansão da Pós-graduação Brasil afora.

 

Mas saberão aquelas pessoas que não se arrisca em mar tão bravio sem grandes recompensas? Que pessoas são estas? Bem, o Plano foi integralmente coordenado por pesquisadores da UFMG, e comissionado por representantes de Institutos de Pesquisa e oito IFES de capitais, cinco das quais, do sudeste. São todas pessoas fabulosas, de inquestionável índole e intenções, mas não creio que saibam como sacodem o alambrado de nossos pequenos navios de ataque.

 

No próximo texto, algumas informações sobre a estagnação da formação de doutores no Brasil.

16.09.13

A Caveira de John Avary


Sérvio Pontes Ribeiro

Cosrsário, Henry Every ajudou amotinados, morreu na miséria. Esta é sua bandeira original, vermelha. Agora é fundo do novo SociobioloDIA.

 

 

Também conhecido como John Avary, Long Ben e Benjamin Bridgeman, este pirata ficou famoso por ter usado uma caveira e ossos cruzados antes de qualquer coisa. A diferença do símbolo que conhecemos é que a caveira estava de lado, onde poderiam ser distinguidos uma bandana e um enorme brinco no lugar na orelha. Originalmente, a bandeira era Vermelha, depois foi alterada para preta.
Há quem coloque a criação em dúvida. Se for mesmo de John Avery, marca o começo de sua utilização como símbolo. Avery começou suas aventuras piratas em 1694, quando ajudou uma tripulação de espanhóis mutinados e tornou-se Capitão de um navio que chamou de Fancy (Imaginação; Fantasia). Morreu alguns anos depois em Bristol, Inglaterra, completamente pobre. Fonte (http://et-omnia-vanitas.blogspot.com.br/2012/06/jolly-roger-parte-ii.html)