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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

10.08.13

O BRASIL NÃO TEM UMA CARREIRA EM CIÊNCIA E NUNCA TERÁ? Uma chave de porta perdida, um pé machucado e o obvio...


Sérvio Pontes Ribeiro

Quando um pequeno problema no seu laboratório (lotado de pesquisadores) acontecesse quando seu pé está machucado, e quase não se resolve sem você, começa-se a ver o óbvio. A maioria dos seus mestrandos não consegue mudar para a cidade da sua universidade porque o valor da bolsa não permite isto,  suas doutorandas sentem a urgência de trabalhar e ter uma renda melhor, e os recém doutores acabam se envolvendo com trabalhos em educação (sim! Educação paga mal? Paga muito melhor que pesquisa – nós professores universitários e pesquisadores do CNPq, por ex., os poucos que ganham, ganham de R$1.100,00 a R$1.500,00, do menor ao maior nível!! Ciência NÃO NOS PAGA!!) e consultoria, e não buscam pós-doc, assim como os mestrandos não voltam para o doutorado. Aí você lembra que é biólogo, e trabalha com uma carreira que é profundamente científica! Não oriento engenheiros para passar por uma crise de laboratório (embora cheio) vazio!

 

O fato é que os melhores chegam a um ponto na vida que querem ter vida, e a ciência no Brasil não sustenta ninguém que não passe em um concurso. Até na fabulosa Unicamp e na USP, conheço pós-docs brilhantes, pesquisadores natos que não viveriam de outra coisa na vida mas ciência, vivendo como? Continuam, a maioria, nas mesmas repúblicas que criaram ao entrar no mestrado. Em cidades caras como Campinas, Rio e Brasília, ou se casa com alguém que tem uma profissão de verdade ou, se optar por ciência, equivalerá por optar por uma vida de Peter Pan!

 

Lembro de meus colegas doutores ingleses, muito novos, casados, pagando hipoteca, vivendo como adultos, e estamos falando de 1995-1999, época de crise profunda naquele país (inclusive para a ciência). Aqui, pós-docs não conseguem sair do regime estudantil pois ganham uma miséria de R&3.000,00 (com exceções de poucos e com poucas vagas, programas da FAPESP)! Doutorandos abandonam a pesquisa porque o passo seguinte não era para ser o concurso universitário, mas uns 3-5 anos de pós-doc. Ao contrário, alguns são concursados, os outros desistem.

 

O problema é que ao entrar precocemente na Academia, um cientista vai ser absorvido e anulado pela excessiva carga didática e administrativa que temos que encarar, e sua produção científica vai cair em número e qualidade. A sobrevida decente (alguns anos) de um recém doutor em uma posição que permita que ele se dedique exclusivamente à pesquisa é fundamental para ele, e para um país que tem uma carreira séria em pesquisa. Porém, isto só é possível se o sujeito puder ser adulto e independente com o que ganha.

 

Nunca tivemos uma carreira científica no Brasil, portanto! Já os que são cientistas, são heróis ou meramente sortudos que participam de uma elite ridícula que impedem os demais de jogarem na cara do governo e do público o fato chocante de não termos um projeto científico para o Brasil. Eu, infelizmente, faço parte desta farsa. Entretanto, agora, todos começam a se incomodar, pois passa a ser imoral pedirmos aos nossos “pesquisadores” dedicação exclusiva ao laboratório com a miséria que ganham! Correção, para todos não! Os imorais não ligam para isto.

 

Enfim, em 1999 voltei para o Brasil ao final do meu doutorado, pelo motivo que exponho ao fim deste texto. Em 2001, estávamos publicando uma correspondência na Nature denunciando o abandono da pesquisa no governo FHC e a extinção das vagas para professores em universidades públicas, portanto, a extinção do emprego permanente em pesquisa no Brasil. Junto com isto fizemos - naquela época sem facebook - um abaixo assinado de quase 1000 nomes de doutores desempregados e ameaçando abandonar o país. Este foi entregue em mãos ao Ministro da Educação por um aluno da UFMG que estava em Brasília recebendo um prêmio. Como consequência direta tivemos a abertura imediata do PROFIX, um programa de pós-doc muito bem remunerado na época (equivalente hoje ao JP em Centros emergentes da FAPESP), e um ano depois a reabertura de concurso público para professores nas Federais.

 

Será que preciso fazer outro abaixo assinado, puxar uma greve geral? Eu? Com tanta gente em situação mais crítica que a minha? Sinceramente, não se esquentem com os prazos, e imaginem: UM MÊS SEM CIÊNCIA NO BRASIL! Um Movimento coordenado dos programas de pós, orientadores e bolsistas! Somos poucos. O Brasil ainda tem só 0,02% de sua população com doutorado (dados gerados a partir de cruzamento do último censo com dados do GeoCAPES). Somos a menor minoria, e como os Guarani-Kaiowá, só venceremos com ameaça de guerra ou morte. Vamos parar tudo um mês!

 

Enfim, eu ainda estou no Brasil porque meu objeto científico é a biodiversidade brasileira. Eu me interesso pelo que havia neste território antes do homem branco chegar. Sou feliz como um pseudo-sertanejo, bem mais do que como um pleno cientista. Pois há motivos para aqui estar como naturalista, explorador, conservacionista. Haverá, como cientista?

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