Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

02.04.13

Análise eco-fisiológica dos Ficus da Avenida Barbacena, Belo Horizonte, 02 de abril de 2013.


Sérvio Pontes Ribeiro

Análise eco-fisiológica dos Ficus da Avenida Barbacena, Belo Horizonte, 02 de abril de 2013.

Sérvio P. Ribeiro & Bárbara de Carvalho Barbosa.

 

A análise preliminar sobre as condições de saúde dos Ficus da Av. Barbacena resultou em uma conclusão diferenciada da apresentada pela PBH. Embora diversos troncos secos apareçam em seis árvores, estas estão saudáveis e em condições de recuperação. Estas árvores devem ter os troncos mortos cortados rente ao tronco, mas precisam que todo o resto de sua copa seja mantida na integridade, ao mesmo tempo em que as árvores sejam adubadas (praticamente não há matéria orgânica nos solos e algum método para aumentar a concentração da MO no solo seria necessário) e irrigadas a fim de melhorar as condições fitossanitárias das mesmas. Diversos tratamentos específicos podem ser aconselháveis, mas o fato é que estas árvores tem plena condição de sobrevivência e não aparentam estar  irreversivelmente ameaçadas. A ampla presença de rebrotos indicam as condições fisiológicas de resposta destas árvores (ver detalhes abaixo).

Cinco indivíduos porém (dois abaixo e três acima do cruzamento da rua Guajajaras) estão completamente secas, e pela conformação de seus galhos maiores, nos pareceu que seja mesmo necessário sua poda mais ampla por motivos de segurança. Entretanto, mesmo estas árvores apresentam rebrotos estando biologicamente vivas. Neste sentido, e dado o valor histórico e biológico destes indivíduos na paisagem urbana de Belo Horizonte, a nossa proposição vai na direção da manutenção dos indivíduos genéticos, por meio da preservação de seu tronco principal e das bases dos galhos de maior porte, de forma a dar a devida chance de rebroto dos mesmos. Diante da função ecológica incomparável de uma copa de dezenas de metros de largura, não é aceitável a mera substituição de um Ficus por uma muda de qualquer tamanho.  Discordamos de “eutanásia arbórea”, mas mesmo que o indivíduo morra, seu tronco e raízes tem funções insubstituíveis no ecossistema urbano. Se não morrem, seguem o processo natural que qualquer árvore antiga segue, de redução de copa por diversas razões. A mais velha árvore do mundo passa de 5000 anos e hoje não tem mais que 15 metros de altura, mas encolher é como as árvores velhas vivem!).

Assim, para qualquer árvore sugerimos a remoção completa dos galhos que possa causar riscos de queda e que estejam completamente mortos, mas com a manutenção das copas verdes e rebrotadas de seis árvores afetadas e do tronco principal de cinco delas em condições piores. Para estas cinco, sugerimos o plantio de novas árvores junto ao seu tronco, juntamente com projeto paisagístico e sem a remoção do indivíduo antigo, parte do Patrimônio natural da cidade.

Enfatizamos também que não há um padrão claro na distribuição das árvores afetadas que sugira uma contaminação generalizada por micro-organismos

 

REBROTO ARBÓREO E CAPACIDADE DE REGENERAÇÃO DE COPAS.

            As plantas, todas elas lenhosas ou não, apresentam notável capacidade de rebrotar após passar por distúrbio. Em um ambiente florestal, as árvores quando sofrem com distúrbios (por exemplo queimadas, inundação, ventania e/ou perda de galhos pela queda de árvores com abertura de área muito iluminada), se a planta tiver recurso suficiente armazenado, ela começa a rebrotar. Esse comportamento demonstra claramente a tentativa a todo custo da planta de permanecer no ambiente.

            O investimento em produção de sementes é uma garantia de sobrevivência da geração futura, enquanto que o investimento no rebrotamento, é a garantia de que a espécie vai persistir in situ. A capacidade de rebrotar, garante a substituição do galho morto quando este é causado pelo distúrbio, não sendo o caso quando a perda dos galhos se dá por doenças.

            Existem vários aspectos dentro do conceito/habilidade de rebrotamento. Segundo literatura científica, e como citado acima, a primeira condição é ter recurso a fim de alocá-lo para a construção de novos galhos dentro da copa. Outro aspecto é a frequência e intensidade do distúrbio;  a maneira como ele ocorre induz diferentes respostas de regeneração que segue uma ordem hierárquica de recomposição da copa de uma árvore. Por exemplo, a perda de folhas induzem o rebrotamento/surgimento de gemas axilares no galho. Entretanto, se o distúrbio ocorre com altas frequências, o vigor e a sobrevivência das plantas diminui, pois se torna energeticamente impossível manter o estoque necessário para o rebrotamento entre um distúrbio e outro.

            Nesse contexto, a capacidade de rebrotamento pode beneficiar muito uma planta/uma árvore por permitir que ela se recomponha/reconstrua e ocupe o dossel se beneficiando da quantidade de luz que obtém. Ao contrário dos indivíduos que precisam passar pela germinação, se desenvolver e conseguir alcançar o dossel. Dessa forma, o rebrotamento é característica importante na manutenção da diversidade do sistema garantindo a permanencia desses indivíduos mesmos sofrendo distúrbios e alterações.

 

 

FONTE

Resprouting as a life history strategy in woody plant communities. Peter J. Bellingham and Ashley D. Sparrow. OIKOS 89:2 (2000)

Ecology of sprouting in woody plants: the persistence niche. William J. Bond and Jeremy J. Midgley. TRENDS in Ecology & Evolution Vol.16 No.1 January 2001

1 comentário

Comentar post