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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões livres, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista: uma análise sociobiológica aplicada ao dia a dia, senão meras divagações sobre as políticas científicas do Brasil!

20.02.13

Poda radical, tratamento fitopatológico, ou mera maquiagem do mal?


Sérvio Pontes Ribeiro

A Prefeitura de Belo Horizonte resolveu exterminar todos os gatos e cachorros com pulgas, para evitar a disseminação desta praga pelos demais animais sobreviventes. Entretanto, a Prefeitura afirma ter monitorado estes animais por um ano, e então tem certeza daqueles irrecuperavelmente contaminados, assim garantindo que nenhum sacrifício desnecessário será feito. Os animais mortos ficarão porém expostos em vias públicas, para que as pessoas não tenham dúvida de sua doença.

 

Na verdade, não são gatos nem pulgas, mas árvores centenárias e fungos, mas dá na mesma quando uma profissional ousa lançar tal percepção da ecologia urbana na cara de uma plateia inteligente demais para comprar esta versão. Isto aconteceu hoje, 19 de fevereiro de 2013, em meio ao protesto contra o corte das figueiras da Avenida Bernardo Monteiro, em Belo Horizonte, supostamente infestadas pela mosca branca e por fungos.

 

Antes de dar o parecer do que eu vi, preciso relatar como me impressiona a percepção parcial do significado de uma árvore de tronco gigantesco dentro de uma cidade. Para a Prefeitura, parece que uma árvore não vale como habitat, como elemento urbanístico, ou como nada se não for uma árvore limpa, liberta de interações. Nada mais efetivo para empobrecer nossas cidades que ver as árvores fora de seu contexto ecológico fundamental: elas são a base de um ecossistema!

 

A visão reducionista sobre o que sejam os processos de interação de espécies e ecologia ficou evidente na fala oficial hoje: alguém vê uma árvore coberta de fungo, julgam-na uma fonte contaminadora das outras árvores, e resolvem eliminá-la. Curiosamente, depois de um ano de monitoramento, e fazendo uma poda severa, priorizando galhos saudáveis mas deixando diversos outros troncos claramente tomados de fungos em pé. Estranha forma de controlar o risco de disseminação de um fungo patológico, se este for de fato um fungo patológico. Vamos ao que há de fato.

 

Árvores não vivem sós. São habitat e alimento para diversas espécies de insetos e micro-organismos. Associados aos troncos vivem diversos fungos e bactérias, na maioria das vezes comensais da árvore (hoje se sabe que árvores usam toxinas de seus fungos associados para diminuir o impacto causado por insetos que comem suas folhas). Dos insetos sugadores, como a famosa "mosca branca" (na verdade não é uma mosca mas sim um Hemiptera da família Aleyrodidae), que se alimentam da seiva da árvore, são diversas espécies e indivíduos vivendo em uma árvore grande como os Ficus da Avenida Bernardo Monteiro. Então, onde está o problema se as árvores coexistem naturalmente com estes diversos organismos que se alimentam dela?

 

Uma árvore que adoece e leva uma existência debilitada, perde sua capacidade de reagir aos seus parasitas e, portanto, de mantê-los em densidades suportáveis. Portanto, quando uma árvore adoece, ela já estava doente! A falta de manejo, adubação, aeração e permeabilidade do solo para que raízes respirem, contaminações e poluição, estão entre os mais óbvios suspeitos da deterioração da saúde de uma árvore urbana. Não sabemos que combinação levou alguns dos Ficus remanescentes de uma arborização histórica de Belo Horizonte, a chegarem no ponto de morte. O que sabemos é que ela não é uma fonte de propagação de um fungo mortal, que apenas aumenta em densidade quando partes do tronco começa a decompor. Portanto, uma parte de uma árvore morrendo sempre será tomada por fungos decompositores.

 

Há fungos que causam doença e morte, claro, e posso retirar esta minha afirmação na hora que a Prefeitura apresentar um laudo com a identificação da espécie de fungo, mais a especificação do dano causado por esta espécie nociva. Mas mesmo que fosse um fungo patógeno, a fragilidade da árvore tem que ter permitido o crescimento exagerado do fungo.

 

Fábulas à parte, o fungo saindo daqueles troncos mortos é um basidiomiceto cuja estrutura reprodutiva é do tipo "orelha de pau". Estes fungos na sua grande maioria ou senão todos, são meros decompositores.

 

Assim, a causa real da morte de parte daqueles troncos é um fato não esclarecido!

 

Também não está claro o que queriam com uma poda daquela, que larga troncos fungados e mortos em pé, com o risco de caírem, enquanto se retirou todos os poucos troncos ainda vivos e relativamente saudáveis da árvore. Não se deixam troncos inteiros mortos, nem tocos de troncos de qualquer tipo em uma árvore que se pretende tratar.

 

Sabemos que a negligência e falta de investimento na manutenção e manejo das árvores mais antigas de Belo Horizonte são sim a causa original de todo adoecimento atual. Entretanto, não temos ideia alguma do que as está deixando assim: com uma aparência que justifique sua morte. Podemos desconfiar, porém, e fortemente, que a mosca branca e o fungo podem ter pouco haver com isto, mesmo que se aproveitem da situação.

 

Por falar em aproveitar da situação, por que deixar galhos e troncos inteiros descascando, fungados, em pé, numa árvore dilacerada? Como a pele sarnenta de um cão velho que não se alimentou até que morresse, e aí foi dependurado, será que tal maquiagem do mal, a qual chamaram de poda, tenta convencer alguém de um problema inventado ou aumentado?

 

Assim, antes de terminar, deixo claro que se as figueiras da Bernardo Monteiro morrerem, eu vou lutar para que seus troncos impressionantes, mesmo mortos, sejam tombados como um alerta para gerações futuras. Se lá ficarem e apodrecerem devagar, no meio dos troncos plantaremos orquídeas e flores, e quando já quase se desfizerem, plantamos ali dentro outra árvore.

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