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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

09.06.12

Uma breve reflexão sobre a desvalorização da diversidade biológica e da riqueza cultura – o desastre desenvolvimentista do antigo Terceiro-mundo e a Rio+20.


Sérvio Pontes Ribeiro

Individualmente, não damos conta dela: a diferença. Não suportamos excessos, extravagâncias, temos um certo repúdio ao diferente, e o “fascínio midiático pelo novo”, ou é uma mera curiosidade mórbida protegida por uma tela, ou uma busca controlada no mundo real (sempre uma fonte segura e confiável - comercial quase sempre – lhe dirá qual é o “novo” que você precisa para apimentar suas férias ou seu fim de semana, por exemplo, sem te tirar da segurança de seus valores). Com raras e preparadas exceções, não gostamos das diferenças em diferentes graus, sendo isto mais arraigado quão mais isolada e pequena for a comunidade (qualquer um arriscando a viver em uma cidade pequena de Minas Gerais – isoladas historicamente pelas montanhas – sabe disto, assim como sabe quem visita os Açores, o país de Gales, Auvergne, é tudo igual). A grande exceção a este padrão é a cultura americana, de onde vem o grande risco de uma perversão causadora de perdas irreversíveis da nossa diversidade cultural.

 

Não ao acaso citei férias, pois a maioria das pessoas que vivem limitadas, com uma margem pequena de tolerância à diferenças, as aceita melhor fora do seu habitat. Se dada a devida segurança, queremos experimentar pratos novos, assistir ao menos às novas culturas, muitas vezes sobre condições artificiais e controladas, mas ao menos a maioria das pessoas do mundo aceitam uma certa exposição ao diferente se estiverem protegidos. Os americanos, ao contrário, precisam arrastar sua cultura na frente e assolar o mundo com MacDonalds e sua música e filmes infernais antes de botar um pé naquele lugar. O estado deploravelmente “britanizado” de algumas ilhas mediterrâneas e o Algarve sugerem que esta tendência vem de longe entre os anglo-saxões, clássicos invasores e dominadores do mundo.

 

De fato, não estou fazendo nenhuma descoberta, pois este padrão de invasão e uniformização foi claramente apresentado no célebre “Ecological Imperialism” de Alfred W. Corsby(Cambridge University Press 1986). Crosby demonstrou como que a seleção natural de genótipos europeus capazes de manter a lactose ativa na vida adulta,  criou uma oportunidade sem precedentes de segurança alimentar para grupos invasores, desde que acompanhada do rebanho leiteiro e das ferramentas para abrir florestas e instalar pastos ao longo do caminho. Ou seja, boa parte da “normatização” paisagística do mundo (em outras palavras, desflorestamento e perda de diversidade) se deu para tornar os mais diversos habitats os mesmos: os europeus.

 

Este comportamento de “mudar para conquistar” foi tão bem sucedido que define os padrões de ocupação de destruição do planeta que temos que enfrentar hoje. Da mesma forma, porém, Edward O. Wilson sugere que nossa memória coletiva de “bom ambiente” remete às savanas africanas, berço da espécie humana. Uma ou outra versão, o fato é que isto não se aplica a todos humanos.

 

Grupos dos mais diversos de pessoas vivem enfiados em florestas, blocos de gelo, estepes desérticas, picos montanhosos. Não vejo muita chance de alguma gente de um grupo de pescadores habitantes de enseadas cobertas de florestas tropicais sonhar com campos floridos cheios de vacas e sentirem algum conforto. Estas gentes, porém, armazenam na sua história coletiva, tabus e ritos, soluções de coexistência de longo prazo com recursos naturais muitas vezes sazonais e escassos temporalmente. Ou seja, nestas pequenas e profundamente ameaçadas populações humanas podem estar escondidas soluções para um mundo em crise no qual poderemos mergulhar em poucas décadas, se nada mudar de direção.

 

E nos vemos de novo no mesmo velho dilema. As ações que estão acabando com estes povos e seus recursos são as mesmas que estão nos levando para esta crise de recursos e sustentabilidade. A forma de domínio material capitalista se espalha por um terceiro mundo agora em desenvolvimento, e este espalhar vai devastando tudo, aliás, vai devastando aqueles recursos que vendemos para o primeiro mundo sustentar seu estilo devastador de vida, que agora queremos adotar. Mas então, venderemos nossa matéria prima para sustentar a nossa ou a cobiça deles? Fato simples, não tem para todos.

 

Este debate lembro de ter em 1998, no meu último ano de doutorado, com o grupo de discussão do Sir Prof. Lawton. Um aspecto que os alunos “tropicais” levantavam às vezes antes dos europeus é que a busca dos povos tropicais e dos países em desenvolvimento era de dignidade. Em 1998, de fato, seria enorme o ganho brasileiro se houvesse saneamento básico, água limpa, comida devidamente distribuída, tratamento médico e acesso à medicamentos para toda a população (coisas que ainda não temos para toda a população!). Os estilos de vida vividos até aquele momento pela maioria da população não eram, no fundo, tão degradantes não fosse pela falta destes elementos, com exceção das grandes favelas urbanas, onde se somava a isto a violência.

 

Violência, sujeira, fome e doenças. Varridos do mapa entrariam em lugar a dignidade e uma alternativa de sobrevivência decente, e sustentável, com uma progressão gradual nas melhorias materiais, sempre em torno das condições alimentares, sanitárias e de saúde. Boas e velhas ideias falidas, eu temo. O processo de retirada das pessoas da miséria no Brasil, por exemplo, um evento extraordinário e necessário, trouxe parte deste cenário de melhores condições de vida. As trouxe a reboque! Isto mesmo, a busca e o caminho para sair da pobreza foi o consumo e a renda, as quais pagam parte destes processos básicos, diretamente ou através de impostos. Ou seja, assustadoramente o governo de centro-esquerda do PT e Lula se transformou num capitalismo democratizado de sucesso. Ou seja, vamos ampliando e piorando o cenário do mundo e o motivo é louvável: tirar milhões de pessoas da miséria!

 

Claro que é louvável, e minha vida interia eu quis ver a pirâmide social brasileira virar como virou, mas gostaria de ver esta virada continuar por várias gerações invés de contribuir para um colapso futuro e breve. Como ecólogo, antes mesmo de terminar meu doutorado, tínhamos a conta da desgraça na ponta da língua: em 1995 um norte-americano médio consumia 17 vezes mais energia que um africano médio. Em termos de disponibilidade de recurso, o mundo não suportaria uma solução à miséria nos moldes do desenvolvimento capitalista americano em outro continente inteiro. Enfim, exatamente o que a China está fazendo.

 

No trator deste modelo, Belo Monte e outras diversas centrais hidrelétricas passam destruindo qualquer vitória. Preservam-se mais áreas, mas em troca de represas que além da sua própria destruição, estão sendo criadas para incrementar a capacidade minerária da bacia amazônica, fechando o ciclo da destruição extrativista, sem agricultura, sem povos da floresta, nem mesmo os  vilões pastos! Só que não vai dar para ser assim. Não há conciliação dos dois modelos. A decisão é por mudança drástica.

 

A extinção ou risco de extinção de povos tradicionais e pequenas comunidades indígenas é só a ponta mais cruel deste evento catastrófico. Se em 2012 ainda há o que justifique o extermínio ou o mero vulnerar moral, cultural e física de povos raros, há pouca esperança. Se não conseguimos conciliar as garantias de preservação continuada de territórios e outros direitos adquiridos destes povos com nossa opção de desenvolvimento, há só um recado do governo federal: o caminho foi escolhido que no caminho não sobrará ninguém. Pior, se nada disto soa imoral aos indivíduos que costumavam ser torturados pelos direitos de toda uma população brasileira, a quem soará?

 

Só proponho uma alternativa, frágil tanto quanto o momento: pode sobrar tempo para educar a próxima geração e mostrar as poucas chances que lhes sobram, junto com nossas sinceras desculpas pelas terras arrasadas que lhes deixaremos.

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