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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

11.01.12

Porque o Novo Código Florestal vai piorar e intensificar as catástrofes nas cidades da Mata Atlântica?


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio P. Ribeiro

(Artigo publicado no caderno de Opinião do jornal Estado de Minas de quarta feira, dia 11/01).

 

Será coincidência que a maior concentração de municípios e situação de emergência e em estado de calamidade públicas de Minas ficam no Leste do Estado? Mais precisamente, qualquer especialista que olhe o mapa de distribuição destes municípios vê com clareza o mapa de distribuição original da Mata Atlântica mineira. Se ampliarmos o mapa da tragédia para o Rio de janeiro, entramos nas encostas íngremes da Serra do Mar, originariamente também ocupadas por florestas. Como estes fatos se relacionam? Claro, a mata Atlântica há muito não está ali, tirando seus 7 % restantes. Entretanto, a forma como ocupamos a região para urbanização e agricultura não considera o fato de que os solos evoluem com esta vegetação, e que sua estabilidade e relevo dependem intrinsecamente da sua existência. Obviamente não é reversível a ocupação da Mata Atlântica, mas é sim o seu manejo e a política de tê-la em consideração nos planos de prevenção de acidentes.

Olhando para Belo Horizonte, dou dois exemplos bons e pouco conhecidos. A zona sul de Belo Horizonte é parte do Bioma da Mata Atlântica, e tem suas principais avenidas construídas sobre cursos de água, e as encostas ocupadas com urbanização. O que se fazem com os locais onde eram as nascentes destes córregos? As encostas da Serra do curral compõem as nascentes dos antigos riachos que descem pelas ruas do bairro Anchieta, em especial, cito a Rua Odilon Braga. Esta termina no pé da serra, em um local onde anos atrás era degradada pela abertura de uma rua de loteamento construída sobre aterro, e coberta apenas por capim. Por muitos anos a rua inundava com toda chuva forte que invadiam a parte baixa das casas acima da Avenida Bandeirantes. Mais recentemente, uma ocupação particular da Serra reverteu o quadro, com uma vasta arborização destas encostas degradadas. Após esta revegetação (com objetivos privados, diversos à prevenção de acidentes, diga-se de passagem), o volume de água que desce a pela rua diminuiu consideravelmente e nenhum outro caso de inundação severa foi observado, nem neste ano! O outro exemplo é a Avenida Francisco Deslandes, a qual nunca teve registro de inundação ou transbordamento de seu sistema fluvial, a despeito da inclinação, profundidade e proximidade da serra. Esta Avenida é ainda mais baixa que a rua Odilon Braga, e encontra-se efetivamente sobre onde deveria haver uma planície de inundação, mas não transborda. Esta avenida termina nas bases do Parque Julien Rian, o qual consiste de 14.530 m2 de mata e existe desde 1978. O Parque é proteção de nascentes, e com sua cobertura arbórea amplamente distribuída sobre as encostas de drenagem desta microbacia, retém toda a água que poderia descer na forma de enxurrada.

Assim, dois exemplos na contramão dos eventos recentes. Claro que precisou força política em algum momento histórico para manter um parque de proteção de nascente como o Julien Rian em uma das áreas mais valorizadas de Belo Horizonte. Entretanto, a fortuna individual que poucos alcançariam via especulação imobiliária não aconteceu e, consequentemente, a preservação deste terreno com nascentes sob densa cobertura florestal garante a sobrevida segura de investimentos imobiliários e de vidas humanas em número muito maior ao longo desta Avenida que é o centro comercial do bairro.

Será que não teríamos muito menos problemas com as chuvas se BH foi composta de um mosaico de reservas em nascentes e em áreas de risco? Fala-se muito de ocupação humana das baixadas de inundação, mas vivemos em regiões montanhosas, onde as enxurradas se formam com as chuvas nas cabeceiras. Ocupações de vales é parte de toda a história da colonização portuguesa, mas inundações com a escala de tragédia são um pouco mais recentes. Será que estamos mesmo ampliando invasões sobre as áreas dos rios ou este processo de urbanização não estaria se somando à intensificação da degradação das cabeceiras? Basta olhar as encostas íngremes ocupadas no bairro Buritis, antes florestadas, e não mais agora. Basta olhar o Belvedere II ou, em breve, o Sion sem a Mata das Borboletas, engolida por edifícios. Basta olhar o aumento da especulação imobiliária em toda BH e contar quantos metros quadrados de área verde foram planejadas para cada metro quadrado construído. E tem quem fale em diminuir as áreas de preservação ambiental da cidade. Francamente, os ganhos privados da especulação imobiliária não pagarão os prejuízos coletivos!

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