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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

17.11.11

Movimento TODAS ÁRVORES MORTAS QUESTIONADAS


Sérvio Pontes Ribeiro

Apresento abaixo o laudo que produzi em resposta ao parecer técnico gerado pela Prefeitura de Belo Horizonte para a supressão de uma enorme árvore de Samanea tubulosa na Praça da Savassi. Em respeito aos engenheiros que geraram o parecer técnico propondo a supressão da mesma, não apresento este laudo, o qual porém deve ser apresentado pela Prefeitura a qualquer cidadão que solicitar. Uma palavra neste sentido: eu entendo a pressão de quem tem que tomar uma decisão que se relaciona ao risco para as pessoas. Entretanto, centenas de pessoas são atropeladas todos os dias por motoristas sóbrios, dirigindo devidamente, na lei e na velocidade permitida. Ou seja, a vida tem perigos, e as soluções coletivas trazem também seus perigos. Se não podemos viver sem veículos automotores, o que quero com este laudo contestador é enfatizar que precisamos DEMAIS de árvores, em especial das grandes e antigas, DENTRO das cidades.

Há técnicas para retardar o risco de suas quedas, como há técnicas para monitorar potencial movimentação de um tronco, e ancoramentos para evitar a queda, ou direcioná-la, numa eventualidade. Queremos as árvores, e queremos cada árvore morta explicada, cada supressão autorizada substituída por árvores ADULTAS e não mudas!

 

Parecer independente e voluntário sobre o decisão de supressão da árvore “sete cascas” (Samanea tubulosa, Mimosoidae) na praça da Savassi, quarteirão Antônio de Albuquerque.

Sérvio Pontes Ribeiro

CRBio-04 – 08779/04-D

Professor de Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Ouro Preto.

Especialidade – Ecologia de Dosséis Florestais (cv lattes - http://lattes.cnpq.br/0415561263095335)

Introdução e contra argumentação ao estado de saúde da árvore em questão - Este é um indivíduo adulto, maduro, de cerca de 25 metros de altura ou mais, sem nenhum sinal de envelhecimento ou de doenças fitossanitárias de qualquer tipo. O laudo de supressão não foi apresentado aos cidadãos e as Organizações Sociais que se mobilizaram em defesa desta árvore. Após obtermos o Parecer Técnico 2704/11 da Gerência de Gestão Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, contesto os seguintes tópicos apontados como razão para pressupor que a árvore estaria sob risco de queda: 1) a “presunção” árvore havia crescido sobre uma peça de asfalto e teria o enraizamento fragilizado, além de 2) não estar em volume de terra necessário para seu desenvolvimento. Além disto, avalio o aspecto fitossanitário desta árvore.

1 ) Quanto ao crescimento sobre asfalto – o responsável pela obra indicou dois buracos de sondagem do terreno, de menos de um metro de profundidade, feitos a cerca de 1,2 m do tronco da árvore: A) A análise visual destas sondagens não mostrou que ela terminava em asfalto. O final destes buracos havia solo compactado, e não asfalto; B) mesmo que houvesse asfalto em torno desta árvore, esta é uma espécie de raiz pivotante, de crescimento agressivo e potencialmente tão agressivo quanto o crescimento de sua copa, vertical e profundo. Raízes são tecidos poderosos, tanto é que um dos maiores motivos para pedido de corte de árvores urbanas se dá em função das raízes que arrebentam muros e estruturas de construção, a muitos metros de distância de seu tronco. Caso houvesse uma peça asfáltica abaixo desta árvore, para ela ter alcançado o tamanho que tem e se manter estável até hoje, tal peça teria sido quebrada pelo crescimento da raíz, a qual portanto deve que ter seguido seu caminho natural, geocêntrico. Não houve investigação que comprovasse o contrário.

Tal afirmação de que um piso abaixo de tal árvore poderia estar comprometendo sua estabilidade (posto, literalmente como uma presunção), sem nenhum indício físico real de comprometimento de sua saúde e crescimento por tantos anos, beira o fantasioso e sugere questionamento sobre a competência ou idoneidade do profissional que emitiu tal parecer, SE tal parecer foi de fato emitido.

 2) Sobre a falta de volume de solo para o desenvolvimento da mesma – os autores do laudo pautam sua avaliação sobre a volumetria de solo necessária para o devido crescimento de uma árvore sadia em um gráfico copiado de alguma literatura em língua inglesa, e não devidamente referenciado. Nenhum problema com a literatura em inglês, mas fica a dúvida sobre que tipo particular de história de vida de árvore está sendo relacionada aqui, para que espécies e em que partes do mundo. Anexo a este parecer cito algumas referências bibliográficas de nível internacional relacionadas ao crescimento de árvores tropicais (algumas de minha autoria).

NENHUM trabalho sobre espécies tropicais questionam seu desenvolvimento à luz de um dimensionamento de solo tão limitante e restrito quanto o apresentado no laudo. Diversas espécies, inclusive as com estratégias de pioneirismo, como a espécie aqui em questão, evoluem adaptações para desenvolvimento firme e seguro em condições de pouquíssimo solo, e em alguns casos até sobre rochas. A eliminação de uma árvore com o papel ecológico urbano que esta tem (veja abaixo) com base em um trecho isolado de uma referência técnica de regiões temperadas me parece no mínimo precipitado. Além disto, de acordo com vários dos trabalhos aqui citados, árvores fragilizadas, em estágio de envelhecimento ou próximas a sofrerem queda natural, apresentam evidentes sinais de adoecimento por insetos e outras enfermidades de tronco, o que claramente não é o caso (veja abaixo).

Tecnicamente, basta ampliar o canteiro e acomodar estruturas de suporte em solo para permitir a recuperação de suas raízes, e monitorar o crescimento e movimentação do tronco, e assim dar condições para que ela continue crescendo saudável e segura. Ou seja, acomodar a cidade a ela e não o contrário, por razões funcionais que esclareço abaixo.

Sobre o estado de saúde da árvore - Uma árvore de tamanho similar ao desta, que tivesse problemas de enraizamento teria, por conseguinte, problemas de irrigação de seus ramos superiores. Comumente, após secas severas como a que acabamos de experimentar no inverno de 2011, árvores com saúde radicular comprometida, ou com raízes de crescimento deficitário, chegam a sofrer morte dos seus ramos superiores, devido a um processo de “embolia do xilema”, que leva à interrupção do fornecimento de água para os galhos mais extremos. A) Ao contrário, a árvore em questão apresentava seus ramos superiores saudáveis e vigorosos, com alguns ramos terminais com crescimento de primavera de mais de 40 cm, como mostrado na foto feita de alguns dos ramos cortados. Seu crescimento recente de copa, a baixíssima incidência de herbívoros de folha, são evidências fortes de que não há problemas de desenvolvimento ou de envelhecimento desta árvore. B) os troncos que chegaram a ser suprimidos da árvore permitiram um exame cuidadoso de sua condição de saúde. Na análise de TODOS os troncos, galhos e ramos cortados, portanto, e todos os níveis de ramificação, NÃO há qualquer indício de atividade de cupins ou outros insetos brocadores, ou de outros tipos de doenças de tronco (vide fotos).

               A árvore em questão está saudável, não apresenta nenhum sinal de perda de vigor, ou comprometimento do caule, troncos ou raízes, e não representa um risco à população. Se houve um laudo afirmando o contrário, o mesmo é passível de investigação pelo Conselho Profissional ao qual o técnico que o teria emitido é filiado.

Argumento pela manutenção da árvore e da renovação da arborização urbana A PRIORI qualquer ato se supressão – Uma árvore deste porte em meio a uma malha urbana altamente permeabilizada como é hoje a Savassi presta um serviço ambiental único de resfriamento, aumento de umidade, purificação do ar e neutralização de Carbono, além de ser atrativo para fauna nativa benéfica à saúde urbana:

1 – Resfriamento e aumento de umidade – uma árvore deste porte emite para a atmosfera até 4mm de água por dia, o que por ano corresponde quase ao total das chuvas em Belo horizonte! Esta atividade de evapotranspiração por si só resfria o ambiente, melhora as condições atmosféricas locais, aumentando qualidade de vida dos cidadãos.

2 – Purificação do ar e neutralização de Carbono – Acoplado ao processo de evapotranspiração segue-se a fotossíntese, que em uma árvore deste porte implicará na emissão de uma quantidade considerável de Oxigênio na atmosfera. Hoje um centro movimentado como a Savassi sofre um déficit de produção de oxigênio, com elevada liberação de CO2 pelos carros, ônibus e pessoas, e poucas árvores para sua conversão fotossintética. Neste cenário, qualquer árvore, em especial uma deste porte, será seriamente deficitária para a qualidade atmosférica regional. No processo de fotossíntese acontece a fixação do Carbono do CO2 em madeira e outras estruturas lenhosas, consistindo no chamado tecnicamente como “serviço de sequestro e neutralização de Carbono”. A Cidade de Belo Horizonte não tem um plano de neutralização do Carbono liberado pelos seus automóveis, e ao qual deveria ser acrescidas explicitamente medidas para neutralizar a liberação de todo Carbono resultante de madeira cortada dentro da cidade. Ou seja, ao ser cortada, ao invés de somar na retirada do Carbono, a árvore retorna tudo que acumulou ao longo da vida para a atmosfera via decomposição ou queima. Para contextualizar, 1000 veículos circulando em uma extensão de um pouco menos de 1 Km liberam em torno de 70 quilos de CO2 por dia. Considerando cerca de vinte anos para uma árvore crescer e alcançar seu ótimo fotossintético, e este mesmo período de poluição de tráfego, apenas para neutralizar uma pequena extensão de rua como esta, seriam necessárias 3.500 árvores! Dentro deste cenário tão fortemente deficitário, o que justifica a retirada de uma árvore sem nenhum sinal de doença ou envelhecimento, portanto, sem qualquer demonstração aparente de risco de queda?

3 – Atração de fauna – o cidadão urbano tropical tem um temor quanto à proximidade de animais, e os associam a doenças. Entretanto, animais que transmitem doenças são aqueles que formam grandes bandos e que entram em contato com a sujeira, lixo, dejetos e restaurantes. Na década de 80, quando a arborização da região da Savassi era menor e mais deficitária que agora, esta região e toda a zona sul da cidade era tomada por bandos de pardais (ave exótica e nociva, oriunda da Europa), que por serem bem adaptadas a condições ambientais depauperadas, entravam em contacto com as pessoas de maneira mais intensa e, assim como pombos e ratos, teriam o potencial de transmissão de zoonoses. Uma região bem arborizada, com árvores de grande porte, atrai animais e aves silvestres. Hoje já é possível ver benti-vis, sabiás, almas de gato, anus pretos, e outras aves insetívoras e frugívoras, portanto todas benéficas à saúde urbana, em toda zona sul e Savassi. Esta fauna (nativa, e portanto passível de proteção ambiental plena, sendo matá-las ou causar sua morte crime inafiançável) é porém profundamente dependente de árvores do porte desta aqui em questão. A supressão de cada árvore, e hoje já são várias recentemente suprimidas na Savassi, pode por em risco a continuidade de suas populações na região.

Irreversibilidade temporal do impacto gerado pela supressão – O grande problema da supressão de uma árvore deste porte é, portanto, o fato de que as perdas ecológicas decorrentes de tal ato só seriam reversíveis após o crescimento pleno de outra árvore que a substituísse. Desta forma, já que não houve um plantio prévio visando a manutenção dos  diversos serviços ambientais acima descritos, sua reposição e a compensação do impacto causado no ecossistema urbano, só seriam sentidos em 40 ou mais anos, ou seja, o tempo da vida útil de uma pessoa! O ideal é que uma árvore fosse suprimida somente quando o conjunto de copas de algumas outras árvores mais novas, plantadas para compensá-la, alcancem a soma de suas folhas atuais.

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