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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

15.08.11

Ateísmo como uma nova forma de domínio e opressão cultural?


Sérvio Pontes Ribeiro

Já visto no passado recente, quando crenças foram proibidas na União Soviética, de maneira contemporânea, mas igualmente imponente, o mundo tecnológico moderno vem suplantando as crenças, mas nem sempre via imposição direta (a menos quando Richard Dawkins resolve agir). Mas será mesmo que lidamos com um processo neutro e espontâneo e anulação dos medos pelo conhecimento, como pregamos nós cientistas? Não poderíamos estar sendo manipulados neste processo, como fomos no passado?

Mais importante, será que religião é tudo a mesma coisa? Neste texto eu discuto que há dois tipos opostos de manifestações religiosas: uma legítima, histórica, e etnográfica em vários aspectos, portanto, curadora de tradições e da diversidade cultural, incluindo aqui o conhecimento tradicional, não abduzido pela ciência ocidental; a outra, opressora e massificadora, tanto quanto pode ser as “crenças” do mundo contemporâneo.

Começo citando um trecho fabuloso da Tenda dos Milagres, de Jorge Amado. Seu personagem, Pedro Arcanjo, um homem simples, do povo, mas também brilhante autodidata, ganha reconhecimento entre os mais novos intelectuais baianos e no exterior, com pequenos livros onde expunha em detalhes a vida cotidiana e os segredos da sociedade pobre e mulata de Salvador, durante os anos de perseguição religiosa ao Candomblé, no Estado Novo, e de delírios Darwinistas sociais, da criminologia antropológica e do racismo de Nina Rodrigues.

Pedro Arcanjo era também Ojoubá, o olho de Xangô, um título de fato carregado por Pierre Verger. Talvez numa menção fictícia (liberdade poética minha aqui) aos questionamentos que outros intelectuais faziam da real crença de Verger nos Orixás, em um dado ponto Pedro trava uma conversa difícil com seu amigo e jovem professor Fraga Neto, chegado da Alemanha para dar aula na Escola de Medicina, onde Pedro era Bedel. Questionado sobre como um homem com visão e leitura que ele já era podia ainda crer em ritos animistas e tão primitivos como do Candomblé? Encurtando este diálogo que daria em si algumas teses sociológicas, Pedro diz a um certo ponto: “sou tão materialista quanto você, mas meu materialismo não me limita”.

          Esta fala encerra as razões fundamentais pelas quais as religiões tradicionais, as crenças primitivas e ancestrais NUNCA deveriam ser confundidas com as religiões modernas, ao menos não com aquelas massificadoras e dotadas de enorme poder, aparentemente emanado de seu robusto Monoteísmo. Há claro eventos recentes, como a Umbanda, nascida no Rio no início do Século XX pela fusão de crenças Tupis, do Candomblé e do Kardecismo. Da mesma maneira como no passado o Candomblé escondeu seus Orixás nos Santos Católicos, em um dado momento eles se manifestam de maneira mais legítima e em evolução de forma e gênero, estrutura e crença, na Umbanda. O grande elemento unificador entre estas crenças? Do ponto de vista religioso, a mediunidade e a conexão frontal com o mundo místico através de pessoas capazes para esta ponte. Do ponto de vista cultural, a preservação da diversidade de arquétipos, tradições, procedimentos e até, segredos.

          No lado oposto, as religiões de cunho ocidental e judaico-cristãs ou mulçumanas. Todas carregam o pesado fardo da destruição e massificação cultural de países africanos, asiáticos e americanos, feitos ao longo do tapete dos Impérios regidos por seus Reis, enviados diretos de seu Deus único. Estas crenças e conjuntos de atos relacionados, repetidos no mundo inteiro por milhões de pessoas, justificam muitas vezes um combate intelectual. Pedem, na verdade, exposição de suas prepotências e intolerâncias, estas exercidas com o mesmo fervor (ou argumento esfarrapado, se preferir) por Jorge W. Bush e Osama Bin Laden.

          Estas crenças, ao menos nos seus formatos fundamentalistas, ficariam melhores se substituídas por algo diferente na mente e coração das pessoas. Entretanto, é aqui que discordo frontalmente de alguns colegas e de Richard Dawkins, em especial. Estas crenças fundamentalistas ficariam bem substituídas por... nada! Não há nada para colocar em seu lugar, muito menos a ciência. Na verdade, sua importância relativa ao mundo e as grandes decisões é que são um problema, POLÍTICO, não científico nem religioso, já que a crença de ninguém deveria suplantar a dos demais! Nem a ausência de crenças deveria! Portanto, se mantida sob o estrito controle constitucional e em respeito à carta dos direitos Humanos da ONU, várias destas religiões massificadoras teriam o efeito e impacto que tem... uma novela. Há pessoas, e muitas, que não tem preparo ou interesse pelo saber, pelo expandir, pelo mais querer, e desde que sua visão limitada do mundo não afete a mais ninguém, nada há para se fazer senão educar, e deixar ao livre arbítrio.

          Assim, em dando a todos acesso às informações, não há nada que se fazer sobre o que querem, pensam o crêem cada um. Não é da conta da ciência e nem dos governos. Da primeira, é assunto o saber, o verificar e o não crer como princípio. Do segundo, é da responsabilidade preservar o que quer que seja a manifestação de grupos e indivíduos, resguardando, porém, uns dos outros e os limites da convivência pacífica, ou um pouco mais que só isto.

          Do ponto de vista científico, ou mantém-se a distância, ou investiga-se, com a isenção necessária e típica de qualquer investigação. Em geral, eu costumo lidar com estes tópicos de maneira completamente separada, e deixo claro inclusive nas aulas de evolução que são assuntos NÃO relacionados. Se alguém conseguir conciliar suas crenças com os fatos evolutivos relacionados com a origem da vida e diversificação da mesma, ótimo! Por outro lado, religiões politeístas estão relacionadas a heranças culturais e identidades orais importantíssimas, até do ponto de vista etno-ecológico. No caso do Brasil, isto vale para as crenças tupis e o candomblé, mas também para o Hinduísmo e outras religiões mundo afora.

O ateísmo no lugar destas expressões seria uma perda cultural, de conhecimentos tradicionais (relacionados a plantas medicinais, por exemplo) inestimável. A dominação materialista pode portanto ser tão danosa à diversidade cultural quanto as crenças imperialistas e fundamentalistas. Assim, cientistas investiguem, pessoas, vivam e deixem viver!

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