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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

15.05.19

A EXCELÊNCIA CIENTÍFICA DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS SEMPRE FOI CAPITALISTA E LIBERAL


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

Uma das grandes alegações desse governo atual para punir e sufocar financeiramente as Universidades Federais está calcada em acusações de ineficiência e balbúrdias, além de terem se transformado em um antro esquerdista. Há eco a isso, e vários apoiadores denunciam que as Federais são geridas por partidos de esquerda. Vamos investigar essas afirmações.

 

Faço aqui uma avaliação desse momento delicado, mas alerto que é minha visão pessoal. Sou professor de Federal e gestor de recursos públicos para pesquisa, os quais nos chegam por editais de ampla concorrência do MCTI ou fundações Estaduais de Amparo à Ciência. Somos um grupo diverso de pessoas e não falo por ninguém mas eu mesmo: Ph.D pelo Imperial College, UK via financiamento público federal, verbas devidamente restituídas ao Brasil pela Embaixada Britânica que me agraciou depois da minha volta com um projeto de treinamento em pesquisas florestais. Esse projeto custou mais do que o que o Governo tinha gasto com minha formação, e foi a base para a criação de um Programa de Pós-Graduação novo em Ecologia, aqui no Brasil. Falo em nome de quem acredita que verbas devem achar as mãos capazes de transformá-las em capacitação e conhecimento, e retorne desenvolvimento. O que será novidade para muitos, é que o sistema brasileiro de Pesquisa-Ensino nas Universidades Públicas já funciona assim, e só agora está ameaçado.

 

Mas vamos avaliar a presença de alas esquerdistas nas Federais. Há mesmo influências de esquerda em alguns setores, mas o que todos sabemos lá dentro é que essa influência se restringe em grande escala nos entornos sindicais, ou no tempo livre dos improdutivos. Detalhe é que na verdade isso vai tanto à esquerda quanto à direita, pois se acham que não há grupos internos defensores e propagadores do atual governo, se enganaram. Há, mas ambos, enquanto ativistas políticos, são os menos competitivos entre nós, e uma minoria. Todos podem ter seus lados, e costumávamos respeitar e mesmo nem saber que lado era esse antes das redes sociais. A base da ciência ocidental é colaboração intelectual, distante da política e da religião, desde a criação da Royal Society, em 1640. Quem não segue isso, para mim, é um desocupado, de esquerda ou de direita.

 

Agora vamos avaliar o porquê eu estou criando vários inimigos no meu ambiente de trabalho afirmando isso, em um dia de defesa das universidades federais. Primeiro, porque esses são a minoria absoluta. Em cursos de ciências exatas ou biológicas, onde a maioria das patentes, tratamentos, remédios, técnicas essenciais para o desenvolvimento e bem-estar das pessoas são criados, poucos tem tempo de se ocupar da política. Os atuais ataques à nossa sobrevida nos fizeram sair dessa bolha e lidar com a política, mas fazemos de má vontade. Queremos é fazer pesquisa. Agora, o que poucos estão vendo é que esses 30% de cortes no funcionamento das Federais se somam aos mais de 40% de cortes do Ministério de Ciência e Tecnologia, a despeito dos gritos solitários de protesto do Ministro Pontes, o único que parece defender os objetivos e funções de sua pasta.

 

O que o cidadão comum, em especial de direita, precisa saber, é que nesses cortes o governo está matando o sistema capitalista e liberal mais eficiente em atuação no serviço público, e jogando os mais competentes à mercê dos incompetentes ou ao corporativismo do serviço público. Afinal, o que diferencia esses grupos é a quantidade de verbas que cada um trás para as Universidades. Sim, caro leitor, o dinheiro de pesquisa não chega automaticamente, chega para projetos específicos que concorrem por essa verba. Um processo cuidadosamente auditado em todas as fases.

 

A distribuição de verbas de Pesquisa, de agências como o CNPq e a CAPES, são feitas por editais públicos, onde qualquer Instituição de ensino E pesquisa, público ou privado, pode concorrer. As universidades públicas produzem mais ciência porque acumulam mais competências e ganham mais verbas, de forma competitiva e capitalista, o que muitas vezes inerva quem não ganha, que nos acusam de meritocratas e elitistas!  Porém, é o sistema capitalista mais bem montado na prestação pública de serviços, com as universidades tendo pouquíssimo controle sobre a distribuição de verbas de ciência, o que garante liberdade política, e combate o corporativismo. Ou seja, os mais competentes laboratórios não precisam puxar o saco de ninguém. Um processo lícito e eficiente que em duas décadas nos colocou como a 14a produção científica do mundo, e que acaba agora, com esses cortes, e nos jogam na boca dos leões, ou, na análise governista, dos esquerdistas.

 

Mas então nos perguntamos o mais importante: a quem beneficiaria esses cortes? A qualquer um, nacional ou estrangeiro, que não tem interesse em um Brasil científico, tecnológico e competitivo. Momento esse que começamos a nos perguntar se estamos guinando à direita com um governo que nos apoia em um mundo capitalista, ou sendo vendidos como sucata a outros capitalistas não brasileiros a quem os governantes são subjugados? Não é lícito perguntar?

 

O objetivo desse texto que a todos vai irritar é mostrar que o gasto do dinheiro público no consórcio Ensino-Pesquisa é eficiente, honesto e produtivo, e que todo esse investimento não se mantém inerte se há um corte do repasse de verbas. Ciência é interesse de Nação, de Soberania, e em todo o mundo capitalista é financiado pelos Estados.

 

Com os cortes muita coisa vai se perder e recuperar isso seria muito mais caro que a economia do contingenciamento. Pensem em biotérios – animais mantidos vivos há décadas que deverão ser sacrificados, coleções que se perderão e custaram milhões para serem obtidas em campo, equipamentos caríssimos que precisam de manutenção. Fora toda a corrida para ser o autor de uma descoberta, que perderemos para grupos estrangeiros. Não há senão o fracasso nacional em todas as escalas, e o fortalecimento daqueles que dizem estar combatendo com os cortes “sanadores”.  Não há o que sanar, senão a influência de fake News na cabeça das pessoas comuns.

 

Assim, seguem alguns sites com esses dados, e alguns posts de fácil difusão, com informações didáticas sobre o que fazemos.

https://www.instagram.com/ufmgpesquisa/?utm_source=ig_profile_share&igshid=pbl1i658ut8g

 

https://jornal.usp.br/ciencias/fabricas-de-conhecimento/?fbclid=IwAR3PLPOgEpMriXiGQZUrn-0n2fd19NM6tvV56_ObpkYXZZ3kFxLdVwZKTSE

 

https://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/2019/05/13/internas_educacao,1053232/cortes-do-mec-nas-federais-com-nome-e-curriculo-conheca-vitimas-ufmg.shtml

07.12.18

FLORESTAS URBANAS E COEXISTÊNCIA HOMEM-ÁRVORES (EM TEMPOS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS)


Sérvio Pontes Ribeiro

Começo esse texto vendo as imagens da tempestade de ontem, dia 06 de dezembro, onde centenas de árvores caíram em Belo Horizonte, inclusive causando uma morte. Talvez não haja momento mais difícil, mas também oportuno para este texto. Porém, alerto que sua leitura em momento tão emocional, que dificulta a percepção dos fatos e suas causas, pedirá que o leitor recomponha toda a racionalidade possível para perceber onde temos de fato um problema, ou uma solução mal gerenciada. Em resumo, as cidades precisam das árvores e elas não são o problema!

Para falar das árvores na cidade, em especial de tantas caindo, precisamos primeiro ir na causa destas quedas: uma tempestade de granizo que, segundo dados coletados pelo Jornal Estado de Minas com a Defesa Civil, desceu 42,6 milímetros de água em 2 horas e 50 minutos. Ou seja, 17,04 mm por hora. Considerando que temos uma precipitação anual de 1500 mm, portanto de 0,17 mm/hora, em média, choveu 100 vezes mais que a média esperada para o ano em uma tarde, e com ventos de 75 Km/hora! O serviço Meteorológico da CEMIG relata 75 mm em menos de uma hora em Contagem ontem. Com esse dado, foram 440 vezes mais chuva em uma tarde do que a média por hora/ano. Portanto, podemos ser mais precisos dizendo que tivemos uma segunda tempestade que matou pessoas em BH esse ano, tendo sido a primeira do Vilarinho, em novembro. No Vilarinho morreram mais pessoas, levadas pelas águas do córrego que ali a cidade um dia canalizou. Precisamos entender que inundações são muito mais difíceis de controlar e evitar do que quedas de árvore, mas que ambas estão associadas.

No dia 06 de dezembro, a tempestade matou uma pessoa e centenas de árvores em Belo Horizonte. Considero essa a informação mais importante deste texto e necessária para que os leitores abracem o projeto de árvores urbanas. Aqui também precisa ficar claro que as inundações do Vilarinho e outras partes da cidade vão ser piores se colocarmos a culpa nas árvores e não nas tempestades. Há um ponto fundamental que passa desapercebido pela maioria das pessoas: as piores inundações acontecem nas regiões menos arborizadas e mais pavimentadas da Capital mineira. Não é coincidência, pois afinal, a existência de solo permeável com árvores é a única maneira de evitar transbordamentos.

A necessidade de solo exposto para absorver a água é óbvia, mas as árvores tem um papel essencial nisso: elas retém a chuva nas copas, e assim desaceleram a chegado de todo o volume de água ao solo, dando o tempo necessário para absorção gradual da precipitação pelo subsolo, retardando o ponto de saturação de água no solo superficial, e assim evitando escorrimento e inundações. O sistema radicular também evita compactação do terreno, e aumenta a capacidade de absorção por volume cúbico de terra. Quer um exemplo onde isso funciona? Avenida Francisco Deslandes no Anchieta, cuja “cabeceira” tem o bem arborizado Parque “Julien Rien” e acima deste, a Serra do Curral. Por causa deste tamponamento florestal, essa avenida é uma das que menos inundam em BH.

A importância disto se intensifica quando se olha para as projeções do “International Energy Agency”, que aponta um aumento de 3,7 % nas emissões de Carbono em 2018, interrompendo um ciclo de diminuição. Lembrando que o Carbono atmosférico é apontado como principal responsável pelo aquecimento global. Porém, se olharmos o gráfico da NASA abaixo, veremos que em mais 30 anos fecharemos um século com partículas de Carbono acima de um patamar nunca alcançado em tempos geológicos recentes. A questão mais relevante é que essa ascensão na concentração atmosférica de Carbono se dá, na escala geológica, em um intervalo de tempo extremamente pequeno. Com isso, seguem-se todas as imprevisibilidades e extremismos climáticos, para os quais a ciência vêm alertando desde a década de 90. Haverá um ponto irreversível, mas antes de chegarmos nisso, o que as cidades podem fazer a respeito?

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Fonte: NASA Observatory for Global Climate Change: https://climate.nasa.gov/climate_resources/24/graphic-the-relentless-rise-of-carbon-dioxide/

Primeiro e emergencialmente, se preparar. Aumentar as áreas de drenagem, em especial nas zonas de cabeceira dos antigos rios que hoje correm embaixo de avenidas. Criar parques com o objetivo primário de absorver chuva e aumentar a saúde geral do ecossistema urbano (por exemplo, intercalando áreas verdes dentro de regiões intensamente construídas). Intensificar investimentos no manejo e saúde das árvores de rua, incluindo podas sanitárias rotineiras (e não apenas voltadas para a proteção de fios). Converter sistema elétrico aéreo para subterrâneo. Criar protocolos de contingenciamento e proteção ao cidadão, com clara indicação de proibição de acesso a áreas de risco durante tempestades. Ou seja, combater a especulação imobiliária que tenta a tudo pavimentar, e pensar no bem-estar e segurança da população antes de tudo. Não se pode esquecer nunca que o acontecido nas regiões Centro-Sul no dia 06 de dezembro e no Vilarinho dia 15 de novembro, são catástrofes climáticas, em grande parte com danos imprevisíveis e improváveis de serem evitados. Ao longo do tempo, as cidades serão convocadas internacionalmente para contribuir para combater esses eventos, decorrentes exclusivamente do aquecimento global.

Para respondermos a esse desafio, precisamos entender que é preciso mudar o ecossistema urbano para que ele sequestre Carbono mais do que emite, ou que ao menos cheguemos a níveis balanceados de emissão/sequestro. Sequestro de Carbono atmosférico significa “fotossíntese”, portanto, mais e não menos, árvores. Para que um ecossistema florestal-urbano funcione, precisamos trabalhar para o rápido entendimento político de que é urgente investir em Secretarias de Meio Ambiente que abracem Parques e Jardins com mesmo esforço e investimento que abraçam saneamento básico, água e esgoto.

Arborizar é uma questão de obras, planejamento e segurança climática.

16.08.18

A onipresença da seleção natural e novos ataques pseudo-científicos à Teoria da Evolução


Sérvio Pontes Ribeiro

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Sérvio Pontes Ribeiro

Esta reflexão surge da leitura (incompleta, confesso) de um best seller, o “Sapiens: uma breve história da humanidade” do “Yuval N Harari”, enquanto assistia a 2a Temporada de Orphan Black. No livro, toda uma vasta (e excelente) explicação sobre o que é a biologia evolutiva para o público leigo converge para uma estranha conclusão sobre o que o autor chama de “Design Inteligente”. Na série de TV, algumas mulheres vão descobrindo que são clones e parte de um experimento secreto e ilegal, cujo líder é o grande defensor do conceito de “Neolution”, uma invenção da ficção científica, claro. No entanto, com um nome ou outro, ambos instrumentos de comunicação debatem pelos seus meios o direcionamento dos caminhos evolutivos do homem pelo homem, e não mais pela seleção natural. Curioso que a série de TV parece se manter mais fiel a conceitos de biologia molecular a seu alcance do que o livro. Ao menos “Orphan” discute certas impossibilidades e questões moleculares com suficiente clareza, enquanto expõe o fato de que a Neolution é um processo fascista e excludente, que visa interesses militares e de dominância. Harari faz sim questionamentos importantes, induz reflexões necessárias sobre a bioética, mas rompe nas suas conclusões como a humildade dos fatos biológicos, e nos empodera para além da natureza.

A diferença que preocupa entre uma série e um livro sobre ciência é que qualquer um sabe a diferença de realidade e ficção. Por outro lado, um livro que tem objetivo de explicar a evolução, não deveria terminar com um capítulo dedicado a uma nova evolução gerida por nós, e menos ainda chamar isso de “design inteligente”. O conceito em si esconde um perigo de entendimento, em especial nos EUA. O “design” é um pseudo-conceito científico, com abrigo em algumas universidades americanas e mesmo um museu, onde criacionistas “provam” a existência de um Deus que desenha inteligentemente a vida e descartam os processos que levaram, erroneamente, os biólogos a aceitarem o darwinismo e suas vertentes. Nada que os “designers” fazem tem base metodológica aceitável, nenhuma crítica à evolução se sustenta diante de qualquer escrutínio mediano. Porém, precisamos lembrar que estamos falando de um país em que pessoas com títulos de Ph.D aparecem frequentemente na televisão dando relatos de provas irrefutáveis sobre a influência dos alienígenas na construção da nossa sociedade, presente e passada. Ali, a liberdade vai ao absurdo de permitir que algo que não é ciência se chame como tal e acomode-se em centros notadamente de pesquisa.

Claro, o “design inteligente” do Harari é um pouco diferente. Para ele, nós somos os desenhistas da vida, não Deus. No entanto, em ambiente onde a crença define e formata o pensar, é um passo muito curto e profundamente subliminar o que o livro permite, se não induz maliciosamente: que um leitor crente salte sobre a conclusão, para ele óbvia, de que se nós desenhamos, é Deus que guia nossa mão na reconstrução da vida. Se recria hoje, pode ter criado no passado. Nada disso, claro, está no livro. Nem de longe! Não se fala de Deus, mas tira de forma inquestionável, a seleção natural do nosso futuro evolutivo, usando um conceito criacionista. Portanto, dá na mesma, é como se falasse. De certa forma, ainda muito subliminar, fica fácil crer que o que nos parecia “evolução” nos bilhões de anos anteriores era uma longa e paulatina criação divina.

Mas então, do que de fato se tratam os avanços e mudanças que impomos a nós mesmo pela engenharia molecular, se não é um novo processo evolutivo? Primeiramente, precisamos esclarecer que nossas ações sobre a biologia que afetam, no sentido de mudar a direção da seleção natural, existem tempos antes de Watson e Crick, e em alguns casos não dependem de manipulação genética de nenhuma natureza. Nos casos que dependem, temos o velho e bom melhoramento genético (seleção artificial) de espécies domésticas, que inclusive Darwin usou para ilustrar como a seleção natural funcionaria.

Nos casos que não há nada de manipulação genética, por exemplo, temos a perda de acuidade visual no homem moderno. Da necessidade de caçar e não ser caçado, também de perceber com clareza a profundidade entre galhos, numa vida total ou parcialmente arbórea, evoluiu nossa acuidade visual. A física ótica e a invenção dos óculos e lentes causaram um efeito sobre a seleção, mas não a destruíram ou sua ação sobre nós. A seleção natural da capacidade visual nas populações humanas indígenas é a chamada direcional, ou seja, elimina os genótipos variantes com menor acuidade, por incapacidade de caçar ou por aumento de risco de mortalidade por predação ou acidente. Não se vive tanto vendo mal, por isso também não se reproduz muito, e assim se é gradualmente eliminado. Criar óculos então passa a funcionar como a eliminação de predadores ou a facilitação da caça, e é descrito como afrouxamento da seleção natural. O afrouxamento é um processo perfeitamente “selvagem” no seu mecanismo, que acontece por exemplo em aves de ilhas oceânicas que perdem a capacidade de voar por não terem predadores nas ilhas (assim, voar é uma perda de energia desnecessária e arriscado, dado que tudo envolta é mar!). Aí, se pensar bem ... ei! Nós já tínhamos eliminado a predação e facilitado a “caça” (na pior das hipóteses, um míope sem óculos só vai comprar mais carne vencida por não conseguir ler as letrinhas da data de vencimento). Mesmo sem óculos, não sofremos estas pressões primitivas mais e, assim, por séculos, olhos menos competentes se acumulam na nossa espécie sem nenhuma consequência reprodutiva. Como se pode notar, há todo um processo que muda como as pressões de seleção natural atuam sobre nós, mas não elimina em nada nem nos torna imunes, às suas ações.

Como também vemos, as mudanças tecnológicas têm muito mais a contribuir na maneira como mudamos as pressões seletivas do que as mudanças biológicas e genéticas que venhamos a engendrar em nossos corpos. Criamos um mundo diferenciado e isso está nos mudando, mas já faz milênios, e em nada afetamos a seleção natural, apenas a afrouxamos em vários aspectos, mas apertamos em outros. Por exemplo, hoje há enormes vantagens adaptativas em genótipos que sejam resistentes a toxinas orgânicas similares à agrotóxicos ou à metais pesados ou poluição atmosférica. São fortes pressões seletivas como também são aquelas que favorecem genótipos que quebram gorduras em taxas elevadas ao invés de acumulá-las (por sinal, um genótipo com raras chances de sobreviver em um mundo primitivo, onde a fome era lugar comum). Para nenhum destes novos cenários ambientais estamos de fato “desenhando” um homem melhor, e muito provavelmente não há como fazê-lo senão por eugenia, ou seja, seleção da “raça superior”, algo associado as piores ideias da Humanidade, o fascismo e o Nazismo. É possível? Sim, é possível tentar ao menos, como em partes do mundo se matam certos fenótipos ou mulheres no nascimento, pode-se decidir por inseminar e permitir crescer só o tipinho que se queira. Infelizmente (brincadeira, felizmente), as condições ambientais mudam totalmente fora do nosso controle, por mais que tentemos impedi-las ou domá-las. Assim, a “raça superior” nazistamente selecionada para hoje, será um fracasso amanhã.

Em outras palavras, não desenhamos nada, não eliminamos a seleção natural, apenas manipulamos intensivamente recursos naturais e genéticos, e em função deste manejo, sofreremos as consequências evolutivas que forem, todas, como de costume, desde a origem da vida.

Concluindo, apenas algo dá alento diante de debates e proposições de divulgação de ciência tão distorcidas assim: é um engano e não está acontecendo. A evolução é um processo populacional, e nada que nossa biotecnologia crie de totipotente para a mudança direcionada de uma pessoa, haverá aplicabilidade em escala para sequer roçar nossa espécie antes do mundo eliminar esta, tecnicamente falando, aberração. Sigamos a vida, como ela é e sempre foi.

04.02.17

A febre amarela em um contexto ecológico e da Biologia da Conservação?


Sérvio Pontes Ribeiro

Painel de Especialista Fundação Renova

Adriano Pereira Paglia (UFMG)

Betânia Paiva Drumond (UFMG)

Eduardo Lázaro de Faria da Silva (Projeto Muriqui)

José Carlos de Magalhães (UFSJ)

Márcia Chame dos Santos (Fiocruz)

Sérgio Lucena Mendes (UFES)

Sérvio Pontes Ribeiro (UFOP)

 

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A febre amarela é uma doença viral transmitida por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, da Família Culicidae, ao ser humano e a macacos. O vírus da febre amarela não é nativo do Brasil, e foi introduzido em consequência do tráfico de escravos vindos da África. Ele se tornou endêmico (de ocorrência constante e ininterrupta no ambiente) em algumas regiões, como na Amazônia e Centro-oeste. No passado, ocorreram surtos de febre amarela urbana no país, transmitida pelo Aedes aegypti, mas esta forma foi erradicada na década de 1940, por meio de vacinação, obras de saneamento urbano e do controle do vetor. No presente, não há relatos de febre amarela urbana por aqui. Todos os casos registrados no Brasil têm sua origem no ciclo silvestre, que ocorre quando o mosquito pica um macaco infectado e depois uma pessoa, assim transmitindo o vírus, como melhor explicado abaixo.

Os surtos de febre amarela silvestre e qualidade ambiental

Alguns casos de febre amarela foram confirmados em pessoas no Estado de Minas Gerais, moradores de regiões com relatos de mortalidade de macacos, em especial os bugios (ou barbados), do gênero Alouatta. A morte de macacos em reservas naturais e fragmentos florestais, tanto em Minas Gerais quanto no Espírito Santo, vem ocorrendo em grande escala, com relatos de centenas de animais mortos. Porém, até o momento, não há confirmação laboratorial de febre amarela nos macacos infectados no ano de 2017, nesses Estados.

Os surtos de febre amarela são bem conhecidos, tendo sido registrados em diferentes regiões do país, a cada sete anos, aproximadamente. Algumas hipóteses, considerando uma perspectiva ecológica poderiam explicar estas observações, já que os surtos observados ocorrem mais frequentemente em locais próximos a fragmentos florestais pequenos e perturbados. Nesses ambientes isolados, os macacos bugios encontram-se em densidades elevadas e se reproduzem dentro de grupos familiares, se tornando geneticamente mais parecidos. Sabe-se que a susceptibilidade a doenças é maior em uma população adensada e geneticamente homogênea. Em populações mais sustentáveis, existem mais macacos geneticamente diferentes, e esta diferença genética pode estar associada a resistência ao vírus. Nestas condições, a doença não desenvolve em larga escala, evitando-se uma epidemia. Além disso, mutações no vírus da febre amarela podem aumentar ou diminuir a transmissão em uma população de macacos, resultando no padrão de surtos separados por anos de baixa ocorrência da doença. No entanto, para a confirmação desta hipótese são necessárias outras pesquisas.

É importante, ainda, levar em consideração um fenômeno conhecido como “efeito de diluição” da transmissão de agentes infecciosos em ecossistemas ecologicamente saudáveis. Esta situação ocorre em áreas naturais grandes e de boa qualidade ambiental, na qual ocorrem muitas e diferentes espécies de vertebrados. Nestes ambientes, os mosquitos se alimentam tanto de animais que são bons mantenedores quanto de outros que são mal mantenedores do vírus. São justamente as espécies que são mal mantenedoras de vírus que diluem a transmissão para as pessoas e outras espécies, uma vez que os mosquitos que usam essas espécies para obter sangue não será infectado ou, ao menos, apresentará uma carga viral baixa. Em florestas bem preservadas, como há uma maior biodiversidade, também espera-se haver mais espécies de mosquitos, várias delas, não transmissoras da doença. Tais mosquitos (não vetores) podem competir com os vetores pelos locais de postura de ovos, diminuindo a circulação e transmissão do vírus. Da mesma forma, é provável que haja maior quantidade de predadores de mosquitos, como anfíbios, insetos aquáticos, aranhas e outros, o que também ajuda a controlar as populações dos vetores. O efeito da diluição, portanto, presta um serviço ecossistêmico à saúde, ou seja, benefícios fornecidos pelos ecossistemas às populações humanas.

Como já afirmado, estas são algumas hipóteses já observadas na dinâmica da transmissão de outras arboviroses, que podem explicar a origem e os padrões observados nos surtos de febre amarela, para as quais são necessários mais estudos científicos.

O surto atual de febre amarela e recomendações

O evento atual de febre amarela, confirmado em algumas cidades de Minas Gerais é considerado pelas autoridades de saúde como um surto, ou seja, uma ocorrência maior de casos do que a normalmente observada em dada região. Em 2017, até o dia 20 de janeiro, segundo a Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais, foram notificados 272 casos suspeitos da  doença em humanos, sendo 47 casos já confirmados. O total de 25 óbitos causados pela febre amarela já foram confirmados e ocorreram nos municípios de Ladainha, Piedade de Caratinga, Ipanema, Malacacheta, Imbé de Minas, São Sebastião do Maranhão, Frei Gaspar, Itambacuri, Poté, Setubinha, Teófilo Otoni, Ubaporanga.

Para saber mais sobre a Situação epidemiológica em Minas Gerais, em 2017, consulte dos dados da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais. Clique aqui: http://www.saude.mg.gov.br/component/search/?all=Informe+Epidemiol%C3%B3gico+da+Febre+Amarela&area=all

Para saber mais sobre a situação da febre amarela no Brasil, veja os dados do Ministério da Saúde - clique aqui -http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/situacao-epidemiologica-dados-febreamarela

 

Como é a doença

Uma vez que a pessoa é picada por um mosquito infectado com o vírus da febre amarela, o vírus pode começar a multiplicar no organismo dessa pessoa. Logo no início, não são observados sintomas, e esse é o período de incubação, que geralmente dura de 3 a 6 dias. Em algumas pessoas esse período pode ser maior, se estendendo por até 15 dias. A maioria das pessoas infectadas pelo vírus da febre amarela não apresenta sintomas, ou sintomas muito leves, evoluindo logo para cura. Algumas pessoas infectadas, após o período de incubação do vírus, podem ter sintomas como febre, dor muscular, dor nas costas, dor de cabeça, calafrios, perda de apetite e náuseas ou vômitos. A maioria dos pacientes melhora e seus sintomas desaparecem, na maioria dos casos, após 3 a 4 dias do início dos sintomas, e o paciente evolui para a cura.

Por outro lado, em cerca de 15% das pessoas infectadas, após o período inicial de melhora dos sintomas, o paciente pode ter o seu quadro agravado. A febre reaparece e o paciente apresenta icterícia (coloração amarelada na pele e mucosas, como a mucosa dos olhos). O paciente pode queixar-se de dor abdominal com vômitos (aspecto de borra de café) e pode apresentar diarreia. O paciente apresenta quadro de insuficiência hepatorrenal (insuficiência dos rins e do fígado) e hemorragias podem acontecer pela boca, nariz, olhos ou estômago. Cerca de metade dos pacientes que evoluem para esta fase (denominada de tóxica) morre dentro de 10 a 14 dias, e o restante dos pacientes se recupera normalmente. Todos os pacientes que evoluem para a cura, ficam protegidos contra infecções futuras pelo o vírus da febre amarela.

Transmissão

O vírus da febre amarela não é transmitido diretamente de pessoa a pessoa e também não é transmitido diretamente dos macacos para as pessoas. A transmissão só ocorre pela picada dos mosquitos infectados com o vírus. Os mosquitos vetores da febre amarela têm hábito diurno, mas alguns podem estender até o crepúsculo.  Quando uma pessoa é infectada, cerca um a dois dias antes do início dos sintomas, o vírus já pode ser encontrado na corrente sanguínea da pessoa infectada (a denominada viremia = vírus no sangue). Quando o vírus da febre amarela está na corrente sanguínea do macaco ou de uma pessoa, se este indivíduo for picado por um mosquito das espécies que têm a capacidade de transmiti-los, ela passa a ser a fonte de infecção do vírus para o mosquito. Esse mosquito infectado pode então transmitir o vírus a outro hospedeiro (macaco ou ser humano).

Tratamento

Não existe tratamento específico contra a febre amarela, ou seja não existe um medicamento que elimine o vírus do organismo da pessoa infectada. O tratamento é de suporte, ou seja, os sintomas apresentados pelo paciente são tratados para ajudar na recuperação do paciente. Todo paciente que apresentar sintomas suspeitos de febre amarela, principalmente pessoas que vivem em zonas rurais e trabalham ou frequentam ambientes florestados ou que viajaram para áreas de risco, devem procurar atendimento médico imediatamente para que seja feito o diagnóstico e tratamento corretos. É importante que as pessoas com sintomas que podem ser febre amarela relatem ao médico suas atividades e origem de moradia, trabalho ou lazer para que ele considere a infecção como febre amarela, antes que o caso se agrave. Pessoas não vacinadas que frequentam as áreas de risco devem procurar a vacinação e só se expor após 10 dias. Aquelas sem vacina devem se proteger da picada de mosquitos, usando calças e blusas de mangas compridas e uso correto de repelentes.

PREVENÇÃO

A febre amarela pode ser prevenida com a vacinação e com a proteção individual contra picada de mosquitos. A vacina contra febre amarela é eficaz e é a medida mais importante para prevenção e controle da doença. A vacina é produzida no Brasil, pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos da FIOCRUZ  e  apresenta eficácia acima de 95%.

Por se tratar de uma vacina de vírus  atenuado (um vírus enfraquecido, mas que consegue  multiplicar um pouco no organismo da pessoa vacinada),  em alguns casos a pessoa vacinada pode apresentar reações  adversas . Essas reações podem aparecer cerca  de 5 a 10 dias  após a vacinação com sintomas como febre, dor local, dor de cabeça, dor no corpo. "Atenção especial deve ser dada quando, após administração da vacina de febre amarela, a pessoa apresentar dor abdominal intensa".  Nestes casos, o paciente deve procurar atendimento médico imediatamente.

A proteção contra o vírus da febre amarela é obtida após 10 dias da vacinação, portanto deve-se vacinar ao menos 10 dias antes  de  viajar para área de risco.

A vacina possui algumas contra-indicações: a vacina não é indicada para  grávidas,  crianças com menos de 6 meses de idade; pacientes com imunossupressão (pacientes HIV positivos, pacientes em tratamento com drogas imunossupressoras, pacientes submetidos a transplante de órgãos, pacientes com imunodeficiência primária, pacientes com câncer). A vacina também é contraindicada para pessoas que têm alergia a ovo de galinha e seus derivados, gelatina e outros produtos que contêm proteína animal bovina. Todos estes  pacientes devem procurar avaliação médica e orientação para vacinação. Para saber mais sobre a  vacina, indicações e contra-indicações clique aqui -

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/427-secretaria-svs/vigilancia-de-a-a-z/febre-amarela/l1-febre-amarela/10771-vacinacao-febre-amarela

Fontes:

-  Ministério da Saúde -

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/427-secretaria-svs/vigilancia-de-a-a-z/febre-amarela/l1-febre-amarela/10771-vacinacao-febre-amarela (acesso em  22 de  janeiro de 2017)

- Ministério da Saúde:

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/svs/febre-amarela (acesso em  22 de  janeiro de 2017)

- Organização Mundial de Sáude: http://www.who.int/csr/disease/yellowfev/en/ (acesso em  22 de  janeiro de 2017).

 

14.12.16

Por que permitir a volta da mineração da Samarco? Porque é melhor para o meio ambiente.


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio P. Ribeiro

Prof. de Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Ouro Preto.

 

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As relações entre a Sociedade e Meio Ambiente são conflituosas desde as épocas em que agricultura consorciou-se com o comércio, e a produção passou a ser feita não apenas para a subsistência das famílias, mas para trocas e complementação de bens pessoais. Embora este modelo trouxesse mais desgaste ao solo, tais bens trocáveis tinham um motivo: ajudavam enormemente na sobrevivência de cada grupo humano.  Estas relações de complementação de atividades e trocas de produção, portanto, sempre fundamentaram e fortaleceram os laços sociais. Afinal, é a interdependência que nos faz capazes de ampla colaboração, solidariedade e coexistência pacífica. A ampliação desta base de relações entre recursos naturais e grupos humanos, com o aumento da sofisticação tecnológica e científica, resultou na sociedade industrial moderna, como descrito no livro  de Joel Mokyr, “A culture of growth” (leia sobre em http://www.nature.com/nature/journal/v538/n7626/full/538456a.html).

 

Não há dúvida que a escala de impactos aumentou na mesma proporção ou senão, em alguns setores, de maneira exponencial. A mineração está entre as atividades de maior impacto localizado que se pode imaginar haver sobre um ecossistema. Mesmo assim, os pressupostos iniciais de que a extração e comercialização de recursos minerais tem uma razão social, não podem ser esquecidos. Na região de Ouro Preto e Mariana, a paralisação da Samarco traz a mais imediata e palpável consequência da quebra desta relação entre produto-comércio-sobrevivência: o desemprego. Como sociedade, precisamos entender que há de haver mudanças profundas nas relações de produção e risco na mineração, a fim de se evitar de maneira radical as chances de outros desastres ambientais. Porém, qual é o tempo para isto acontecer e qual o risco da ausência de atividades econômicas para o ecossistemas modificados pelo homem moderno? A pobreza, é o primeiro e óbvio impacto.

 

Dito isso, também não há dúvidas de que a produção de minério deveria minimizar o chamado racismo ambiental invés de causá-lo! Racismo ambiental é quando uma parcela, vulnerável, da sociedade herda os impactos e outra, o desenvolvimento. Este fenômeno se evita equalizando os custos ambientais e os benefícios da produção, de forma que os custos não sobrecaiam exclusivamente sobre as comunidades mais pobres, com pouca chance de defesa ou de exigir de mudanças. Na verdade, os benefícios da mineração deveriam, via poder público, minimizar senão eliminar a pobreza onde ela ocorre. Sabemos disto e sabemos que há um caminho a percorrer. Sabemos que a Samarco não pode se esquivar das consequências do rompimento da barragem de Fundão e seu impacto em toda a bacia do Rio Doce e nas comunidades humanas ao longo da mesma. Mas sabemos que cabe ao Poder Público atuar para que os benefícios de royalties, por exemplo, de fato resolvam por completo questões de saneamento básico, saúde e educação, com foco nas populações carentes. Assim, sabemos que a coresponsabilidade é de toda a sociedade brasileira e que somos todos em parte responsáveis pelas mazelas do modelo econômico hoje vigente. O problema é que o não funcionamento da mineração, hoje, agrava todos estes problemas, da pobreza, ao risco futuro de novos desastres, passando pelos projetos de recuperação da bacia, que precisam ser executados.

 

Assim, considerando que não há possibilidades remotas sequer de abandonarmos a “Era do Ferro” amanhã, nem qualquer modelo econômico alternativo capaz de substituir a mineração em poucos anos, o retorno da atividade mineraria da Samarco sanaria dois enormes problemas sociais: o desemprego e a perda de arrecadação dos Municípios. Cabe a nós todos, claro, fiscalizar que estas atividades sejam feitas com mais rigor socioambiental, bem como nos cabe também fiscalizar se as verbas de royalties do Minério sejam devidamente aplicadas pelos Municípios, inclusive na busca de alternativas econômicas para uma sobrevida abundante e segura para além do esgotamento do minério de ferro.

 

Volto no ponto fundamental, em profunda discordância com a maioria dos ambientalista debruçados sobre o problema. Portanto, atuando como cientista, e não um ambientalista no sentido estrito, preciso olhar para os fatos! Se não há outra forma de produção econômica viável agora, não é melhor testarmos uma proposta de produção feita em associação com a deposição de rejeito sobre uma área já profundamente impactada, que é a cava da mineração? Não adianta fingir um mundo melhor! Para muito antes do esgotamento do modelo de mineração, precisamos que se desenvolvam e testem métodos de deposição de rejeitos tecnicamente mais seguros e capazes de poupar a destruição de vastas áreas com a criação de perigosas barragens. Senão mudar este paradigma aqui, diante dos olhos de toda uma sociedade desenvolvida, imaginou a alternativa e seus custos ambientais?

 

Precisamos lembrar que além de Minas e Bahia, onde ainda é possível uma grande expansão da mineração são em regiões remotas, selvagens, e vagamente ou nada estudadas cientificamente quanto à biodiversidade. Em lugares assim, em todo o Globo, desastres ambientais na mesma escala do ocorrido no rio Doce já ocorreram antes, e pouco se foi feito ou anunciado pela grande imprensa. Desastres em locais remotos causam perdas ambientais muito maiores, inestimáveis e, devido a total falta de informações científicas prévias sobre os ecossistemas impactados, irrecuperáveis.  A recuperação da bacia do Rio Doce é em parte possível porque ela foi extremamente bem estudada antes. Sem ilusões, uma recuperação de um desastre deste porte  sempre será parcial, de longo-prazo e mera remediação, mas possível por balizamento científico prévio! No entanto, onde uma riqueza em biodiversidade e serviços ambientais são muito mais relevantes para a humanidade, porém  menos conhecidos, as perdas são sim irreversíveis. Além de que, as contaminações ambientais em zonas remotas dificilmente terão as mesmas chances de serem sanadas como quando acontecem em áreas desenvolvidas.

 

Nesta comparação entre mineração aqui ou lá, não podemos nos furtar do óbvio: o compromisso de sanar a qualidade de água do Rio Doce hoje vai muito além do rompimento da barragem de Fundão, pois sua contaminação ambiental já era vasta e anterior ao desastre. Concluindo, claro que é imperdoável o rompimento de Fundão. Imperdoável, mas se acontecido longe do Sudeste, seria também irrecuperável.

 

Nosso desenvolvimento social e econômico ainda é inevitavelmente dependente da extração de recursos naturais, algo altamente impactantes à natureza. Uma mudança neste paradigma é urgente, mas só pode se dar gradualmente. Até lá, é necessário que se possa minerar de maneira cada vez mais eficiente e segura ao homem e ao Meio Ambiente. Defendo mudanças profundas na sociedade, mas de forma responsável e gradual.

20.11.16

BIÓLOGOS FANTÁSTICOS E ONDE ELES ADOECEM


Sérvio Pontes Ribeiro

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Assim como “Como treinar o seu dragão”, o “Animais Fantásticos e onde habitam” fala, indiretamente, de uma criatura em extinção, e ao meu ver fascinante: o biólogo. Ambos filmes mostram com muita beleza nossa paixão pela vida, em especial pela vida incompreendida pela sociedade e, portanto, perseguida. Mostra como poucos seres em cada comunidade são eternamente picados pela paixão pelo desconhecido, entendem a natureza de criaturas renegadas, e passam o resto da vida a sofrer e lutar pela iluminação de seus iguais quanto a importância de cada espécie que combatemos. No caminho, um mundo inteiro que envenenamos. Assim, mostram como o ser cientista da natureza é tão fundamentalmente ser biólogo, e não somente o químico, o físico ou o matemático!

Porém, somos mais, somos cientistas apaixonados pelas criaturas que abraçamos a estudar. Não sei se somos assim tão diferentes, ou se somos só aqueles que não esqueceram o fascínio que a natureza trás a qualquer um na sua infância (dado o sucesso internacional dos dois filmes que inspiraram este texto, parece óbvio que é a segunda opção). Talvez o biólogo seja aquele que não quis parar de fuçar seu jardim, que não tenha cansado de ser curioso. Não tenha achado um dia que isto é brincadeira de criança.

Somos sensíveis ao sofrimento de nossas criaturas e do mundo do qual nossa existência e saúde dependem. Mas no mundo do “real das outras pessoas”, muitas vezes somos contratados para monitorar o extermínio das espécies e dos ecossistemas que tanto nos fascinam. Resgate de fauna, licenciamento ambiental... tantos e tão importantes, mas associados a um fato muitas vezes cruel: a sociedade vai autorizar perdas irreversíveis. Nós, assim como os veterinários que fazem eutanásia, temos a obrigação de acompanhar estas mudanças. Fato é, são vários os que conheço que adoecem no processo. Não convencemos ainda o mundo a desenvolver de outra maneira.

Ao menos, já convencemos que é importante tentar, é importante pesar as perdas ecossistêmicas como perdas de serviços ambientais que, se preservadas, resultam sim em dinheiro, em desenvolvimento, em qualidade de vida e felicidade social. Já ensinamos a muitos de que precisamos das mais “nojentas” criaturas e de seus ecossistemas saudáveis, para estarmos ricos e bem, coletivamente. Mas falta muito, e sabemos que o tempo é pouco. Para minimizar ao máximo os danos sobre a vida enquanto não alcançamos a perfeição do respeito à Natureza, acumulamos danos e frustrações sobre a nossa vida solitária de biólogos!

06.10.16

A curiango e o gavião na jardineira


Sérvio Pontes Ribeiro

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Um pequeno drama da vida selvagem na minha janela. Vários sabiás fazendo o que chamamos de “mobbing” (mais ou menos, bagunça) entorno de um gavião que acabara de destruir o ninho de curiango da minha jardineira. Isto mesmo. Bem dentro de BH, dois predadores primários (sabiás e curiangos, insetívoros) contra um predador de topo. Para um biólogo que estuda saúde ecossistêmica, isto equivale a olhar uma pele saudável de uma pessoa esbelta! Reflete que ao menos a parte da cidade onde eu moro, está bem.

 

Deveria estar satisfeito, mas tinha acabado de ver um pequeno curta sobre o acidente da Samarco, e quando meus olhos voltaram da distante árvore onde o gavião foi buscar sossego, viu o telhado de meu vizinho, um francês, geólogo da mineração. Será ele responsável pelo acidente em Barcarena, com aquela mineradora francesa que destruiu as águas amazônicas naquela região, sem alarde, sem drama e com uma pequena multa? Barcarena, o maior PIB do Brasil, uma das populações ribeirinhas mais miseráveis da Amazônia, cujo único benefício minerário foi o de sempre: prostituição para as filhas e violência para os filhos.

 

Mas fiquei pensando no nosso recente desastre ambiental no Rio Doce, e no sistema falido, entrópico, que destrói para construir. Este sistema terá que acabar, ele é o causador de TODO o racismo ambiental do mundo. No entanto, além e antes disto, é preciso melhorar e preservar a qualidade ambiental de onde está bem. A saúde florestal de uma cidade depende de suas árvores, e seu manejo com menos inseticidas e mais predadores naturais. Depende de reconhecimento da importância da fauna nativa dentro da cidade. Depende de um forte saneamento básico combinado com controle de zoonoses de animais domésticos, que não deve ser confundido com defaunamento silvestre urbano. Depende de voltarmos a viver como parte de um ecossistema. Até entendermos que temos que consolidar ecossistemas antrópicos sem destruir outros, temos que ser cautelosos com as poucas chances que nos restam.

02.10.16

SOBRE O FIM DO MUNDO E QUANDO ELE ACONTECEU


Sérvio Pontes Ribeiro

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Costumo ler Nature na cantina do Instituto uma vez por semana ao menos, para não esquecer o que vim fazer aqui. Nesta, dei de cara com um artigo sobre “Capability” Brown, arquiteto de paisagem inglês, responsável por boa parte dos “landscape gardenings” do Sec. XVIII, e Frederick Olmsted, arquiteto criador do Central Park. Pensadores de grandes paisagens selvagens, mesmo que permeando as áreas urbanas, defensores do lúdico, do belo, e das grandes visadas da natureza como remédio para a alma, e bem estar de toda a população. Olmsted em particular foi fundamental para a concepção de parques nacionais, que dos EUA se espalhou para o mundo inteiro.

 

Porém, mesmo os antigos modelos de preservação da paisagem, ou de modificação da mesma, visando o engrandecimento estético da vida por meio da natureza, refletiam uma forma de transformar o mundo com grande potencial de compatibilidade com o ideal da sustentabilidade que, em algum momento, nós perdemos.

 

De fato, estamos falando de Séculos XVIII e XIX, os últimos antes do fim do mundo. Claro, o mundo ocidental, os anteriores, no Oriente e em África, já haviam  acabado um tanto antes, e crescíamos sobre os destroços, destruindo outros, como os das Américas e remoendo, entre um e outro, o fim dos mundos Mesopotâmio, Egípcio e Helênico, causados pela maior desertificação que o homem já fez na Terra. Mesmo que cruel, crescíamos um mundo que evoluiu muito rapidamente de 1700 até a virada para 1900. Se humanizou, achou sombra na ciência e no misticismo (Eliphas Levi era contemporâneo a Darwin). Pensava-se civilizatoriamente, nos EUA, inclusive, pensava-se para todos, em igualdade, fraternidade e liberdade. Mas deu errado, e acabou, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

 

Já se notava no auge do triunfo, a decadência que aproximaria. Por exemplo, sintomático que nos relatos de 1854 para frente, Richard Burton (antropólogo, espião e geógrafo inglês, que descobriu as nascentes do Nilo, portanto, o Lago Vitória) já tendia à distorção do entendimento recente da biologia evolutiva para descrever, tendenciosamente, os povos africanos como uma raça degenerada. Abandonando o antropólogo sensível que ele foi, que amava as culturas africanas, e assumindo o militar, o primeiro homem ocidental que fez todo a peregrinação à Meca, ajudou a implantar a ideia distorcida do darwinismo social, e fortaleceu a última fase do Império Britânico, justificando sua opressiva presença no mundo. Começava o fim. Ao pararmos de perceber a beleza no diferente, começamos a morrer.

 

Depois disto vamos ruindo, lentamente, mas já após o fim do mundo. Aqui que quero chegar. Temos esta perversa ideia cristã de que há um fim súbito, que vai arrancar motoristas crentes de trás de seus carros velhos e despedaçados, que vão sair sem controle pelas ruas, batendo nas limusines dos pastores ímpios, ou nos carros dos ateus, católicos e macumbeiros, até tudo se desfazer entre o céu e o inferno. Não há isto, né? Já se estabeleceu o inferno na maioria das regiões habitadas pelo homem na Terra. Um resquício do que possa ser bom sobrou em regiões selvagens e em pouquíssimos jardins, perdidos, secretos, ou semi abandonados daqui e Dalí, mas como ilhas em meio as quais o barqueiro de Dante navega, sádico.

 

Porém, a boa nova é que o fim do mundo já aconteceu. Nunca conhecemos o mundo, nem nós nem nossos pais. Nossos avós sim, mas já há quatro gerações pós o fim. Isto é bom, porque não temos o que perder? Claro que não, é bom porque não temos que ter mais a ansiedade do colapso. Ele já ocorreu. O resto é farsa para alarmar políticos e a população para a necessidade de parar a queda. Se ruímos, e ainda estamos vivos, vamos parar de fingir que vivemos as últimas décadas de benesses tecnológicas e água pura (a água que você bebe não é pura, é suja como o ar que respira) e vamos começar a reconstruir.

 

Fundamental disto é que se tiver esta consciência, vai parar de achar normal casa sem reboco, nem esgoto, nem luz, pobre na rua, lixo, poluição, rios destruídos, ou que a humanidade inteira trabalha para o luxo de 1% das pessoas. Mundo? Onde um bom País africano, o Quênia, tem na sua capital, Nairóbi, 60% da população morando em uma só favela gigante, que nem é a maior do planeta? Preciso lembrar (e quem leu “A Trilogia Suja de Havana” de Pedro Gutiérrez sabe) que a miséria extrema se instalou em Cuba muito antes do planeta alcançar seis bilhões de pessoas, e que não foi por se alcançar uma capacidade suporte de população diferenciada por regiões do globo. Se instalou porque alguém controlando o mundo, em Washington, achou boa ideia meter um embargo econômico à ilha, levando milhares a uma vida de pobreza dor, e morte precoce. O que isso tem haver? O fim do mundo levou ao sistema de controle extremo dos recursos restantes, e este controle não está sendo usado para mudar o cenário, mas para nutrir as ilhas perversas de prosperidade.

 

O mundo acabou. Vai entender que é um processo em cadeia que já dura séculos, e que vai levar, um dia, à inviabilidade da nossa espécie. Vai entender que já é o pós fim. Se aceitar que a miséria com a qual você acostumou é o preço de um fracasso já velho, mais velho que você, vai procurar outra forma de viver, não vai?

27.06.16

Capitães da Ciência I: a morte da interdisciplinaridade


Sérvio Pontes Ribeiro

Qual é o critério mais poderoso de qualidade científica no momento? Na verdade, ele é baseado em princípios de... quantidade, e não de qualidade: o Fator de Impacto! As revistas são avaliadas pela quantidade de vezes que seus artigos são citados em outras revistas. Assim, aquelas revistas que publicam artigos de maior interesse para a comunidade científica, recebe maior número de citações, bem como seus autores (também julgados por outro cálculo bem complicado que os associa ao tanto que eles, pessoalmente, foram citados). Parece até razoável, não fosse o fato de que o princípio capitalista por trás desta disputa feroz alimente em si fraudes e um mero princípio de não independência. Claro que as revistas que acumulam melhor reputação vão ser mais lidas, independente do real conteúdo de seus artigos científicos. Isto sempre aconteceu, mas antes gerava uma certa ambição por publicar ali, fundamentada em interesses legítimos do conhecimento. Hoje, procuramos nichos que nos aceitem e que vençam esta batalha, e isto resulta em retroalimentar quem já venceu.

            Uma outra consequência funesta deste método é que ele levou ao completo isolamento entre as áreas do conhecimento. Se o critério de qualidade passa a ser quantos o leem, e se os pesquisadores são avaliados pelas revistas onde publicam, como alguém de uma área que é lida por milhões poderia interagir com alguém que, mesmo que tenha a expertise para resolver problema de conhecimento, estaria listado em revistas muito mais fracas (quantitativamente falando)? Vamos falar de viroses transmitidas por artrópodes (Arthropod Born Diseases = arboviroses), como a dengue e a Zika. Boa parte do entendimento sobre mecanismos da doença pousam em revistas lidas por pesquisadores em medicina, um número enorme de pessoas. Entretanto, parte do problema epidêmico precisa ser entendida em áreas muito menos populares, como Ecologia de Populações! Como interagir oficialmente sem comprometer a prestigiada (=extremamente popular, não melhor ciência, não mais competente na sua execução!!) Medicina com a muito menos prestigiada Ecologia?

            A CAPES, no Brasil, criou um sistema de avaliação que poderia resolver isto: o Qualis. Uma revista Qualis A1 na área de Biodiversidade deveria indicar pesquisadores publicando no topo desta área do conhecimento. Com isto, deveriam ser equiparáveis aos imunologistas publicando em revistas Qualis A1 na Ciências Biológicas III, a mais internacionalmente severa das áreas biológicas. Assim, o melhor ecólogo poderia trabalhar a longo prazo em programas de pós-graduação típicos da CBIII, onde doenças são estudadas. No entanto, esta possibilidade vai totalmente para o lixo quando a CAPES não escalona as revistas e as equipara sendo as melhores de cada área, mas as escalona exclusivamente DENTRO das áreas. Assim, as melhores da Biodiversidade precisam ser reescalonadas na CBIII, onde ganham notas, obviamente, péssimas. Continuamos isolados e cegos, pois as verbas, tempo, orientações, tudo, depende destes parâmetros.

              Assim, a interdisciplinaridade nos programas de pós-graduação do Brasil, ou no mundo, está morta.  Devemos recriá-la fora? Fora, na mente de jovens, para que um dia ressurja em meio à uma nova humanidade, mais brilhante e razoável que a que temos hoje.

Continua....

13.12.15

A CIDADE CELEBRA CICLOS QUANDO A ARTE CELEBRA A MORTE


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio Pontes Ribeiro

Há quem se negue a ver os mais graves impactos ecossistêmicos que a remoção sem proporções das árvores do ambiente tem causado. Mesmo dentro das cidades, é preciso que se tenha as árvores não como elementos decorativos, mas como formadores de florestas urbanas. Como tais, estas florestas são como quaisquer outras, e são pautadas pela dinâmica de nascimento, crescimento, ocupação delongada do espaço pelas copas, redução e, finalmente, morte das árvores. Sem qualquer uma destas etapas, aleijamos este ecossistema.

 

Se negando a abraçar a proposta do movimento Fica Ficus de incorporar as árvores tombadas como parte da paisagem de Belo Horizonte, a Prefeitura realizou nosso sonho ao só largá-las por lá. Uma onda de mortalidade abriu um buraco no dossel da floresta linear da Av. Bernardo Monteiro, como de fato acontecesse nas florestas. Porém, como se tivesse lido nossos prognósticos, a onda parou.

 

 

 Uma clareira não nega uma floresta,

é parte dinâmica dela.

 

As árvores sobreviventes revigoraram-se, mesmo quando reduzidas. Largam aos céus seus poucos mas gigantescos galhos. Trazem ao urbano o assimétrico, complexo, grandioso e dinâmico SER de uma floresta.

 

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Galhos restantes de um Ficus, retorcidos pela busca da luz em meio aos

demais galhos que se foram, desenham a memória da copa que se foi,

deixando a marca de sua antiga grandeza, a velha senhora.

 

A floresta está viva mas o cidadão não vê. Uma velha e simples técnica de desfazer dos espaços públicos. Se não é o que o Poder quer, se é algo que surge da vida, das pessoas, não dá dinheiro aos amigos, abandona-se. Que o capim cresça, o cocô se acumule, as caixas e sacos escalem as árvores como cipós.

 

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O abandono não desfaz da floresta,

nem do renascer constante.

 

 

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Ainda são canteiros, mas o cidadão não

pode mais reconhecer.

 

 

Agrega-se o senso de lixo e feio ao que é um ciclo que garante que a cidade viva, respire, nasça, cresça, morra, mas siga em outra rodada da Fortuna. Para este descaso, há um antídoto: a Arte. O crescimento e a expansão dos troncos de um Ficus e suas raízes aéreas, são a arte da luz, da água e dos espaços. Morta a árvore, fica a Arte que moldou sua vida.

 

 

 

O desenhar do ar nos troncos que

deixam a senda de sua vida, e um

tronco-arte, reto, que traz risco

zero de queda.

 

 

 

 O desenhar da água, que faz

escorrer as raízes em busca do

solo que lhes firme e eternize.

 

Mais que arte, o tronco é o registro biográfico de uma existência centenária. Cuidada, estas formas desenhadas pelos anos serão a moldura de uma galeria ao céu aberto. Esta galeria terá que ser aberta em meio a capim, mato e restos, mas é onde o mundo mais precisa de mudança que o belo precisa invadir. Atrás do belo que se instale, que venha a cidade, os jardins o bem estar e o querer ficar.

 

  

 

Fiquem, Ficus, mortos e vivos.