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O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

O Corsário e a Ciência

Textos de divulgação científica e reflexões sobre Ecologia da Saúde, à luz da teoria evolutiva ultradarwinista:

07.12.18

FLORESTAS URBANAS E COEXISTÊNCIA HOMEM-ÁRVORES (EM TEMPOS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS)


Sérvio Pontes Ribeiro

Começo esse texto vendo as imagens da tempestade de ontem, dia 06 de dezembro, onde centenas de árvores caíram em Belo Horizonte, inclusive causando uma morte. Talvez não haja momento mais difícil, mas também oportuno para este texto. Porém, alerto que sua leitura em momento tão emocional, que dificulta a percepção dos fatos e suas causas, pedirá que o leitor recomponha toda a racionalidade possível para perceber onde temos de fato um problema, ou uma solução mal gerenciada. Em resumo, as cidades precisam das árvores e elas não são o problema!

Para falar das árvores na cidade, em especial de tantas caindo, precisamos primeiro ir na causa destas quedas: uma tempestade de granizo que, segundo dados coletados pelo Jornal Estado de Minas com a Defesa Civil, desceu 42,6 milímetros de água em 2 horas e 50 minutos. Ou seja, 17,04 mm por hora. Considerando que temos uma precipitação anual de 1500 mm, portanto de 0,17 mm/hora, em média, choveu 100 vezes mais que a média esperada para o ano em uma tarde, e com ventos de 75 Km/hora! O serviço Meteorológico da CEMIG relata 75 mm em menos de uma hora em Contagem ontem. Com esse dado, foram 440 vezes mais chuva em uma tarde do que a média por hora/ano. Portanto, podemos ser mais precisos dizendo que tivemos uma segunda tempestade que matou pessoas em BH esse ano, tendo sido a primeira do Vilarinho, em novembro. No Vilarinho morreram mais pessoas, levadas pelas águas do córrego que ali a cidade um dia canalizou. Precisamos entender que inundações são muito mais difíceis de controlar e evitar do que quedas de árvore, mas que ambas estão associadas.

No dia 06 de dezembro, a tempestade matou uma pessoa e centenas de árvores em Belo Horizonte. Considero essa a informação mais importante deste texto e necessária para que os leitores abracem o projeto de árvores urbanas. Aqui também precisa ficar claro que as inundações do Vilarinho e outras partes da cidade vão ser piores se colocarmos a culpa nas árvores e não nas tempestades. Há um ponto fundamental que passa desapercebido pela maioria das pessoas: as piores inundações acontecem nas regiões menos arborizadas e mais pavimentadas da Capital mineira. Não é coincidência, pois afinal, a existência de solo permeável com árvores é a única maneira de evitar transbordamentos.

A necessidade de solo exposto para absorver a água é óbvia, mas as árvores tem um papel essencial nisso: elas retém a chuva nas copas, e assim desaceleram a chegado de todo o volume de água ao solo, dando o tempo necessário para absorção gradual da precipitação pelo subsolo, retardando o ponto de saturação de água no solo superficial, e assim evitando escorrimento e inundações. O sistema radicular também evita compactação do terreno, e aumenta a capacidade de absorção por volume cúbico de terra. Quer um exemplo onde isso funciona? Avenida Francisco Deslandes no Anchieta, cuja “cabeceira” tem o bem arborizado Parque “Julien Rien” e acima deste, a Serra do Curral. Por causa deste tamponamento florestal, essa avenida é uma das que menos inundam em BH.

A importância disto se intensifica quando se olha para as projeções do “International Energy Agency”, que aponta um aumento de 3,7 % nas emissões de Carbono em 2018, interrompendo um ciclo de diminuição. Lembrando que o Carbono atmosférico é apontado como principal responsável pelo aquecimento global. Porém, se olharmos o gráfico da NASA abaixo, veremos que em mais 30 anos fecharemos um século com partículas de Carbono acima de um patamar nunca alcançado em tempos geológicos recentes. A questão mais relevante é que essa ascensão na concentração atmosférica de Carbono se dá, na escala geológica, em um intervalo de tempo extremamente pequeno. Com isso, seguem-se todas as imprevisibilidades e extremismos climáticos, para os quais a ciência vêm alertando desde a década de 90. Haverá um ponto irreversível, mas antes de chegarmos nisso, o que as cidades podem fazer a respeito?

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Fonte: NASA Observatory for Global Climate Change: https://climate.nasa.gov/climate_resources/24/graphic-the-relentless-rise-of-carbon-dioxide/

Primeiro e emergencialmente, se preparar. Aumentar as áreas de drenagem, em especial nas zonas de cabeceira dos antigos rios que hoje correm embaixo de avenidas. Criar parques com o objetivo primário de absorver chuva e aumentar a saúde geral do ecossistema urbano (por exemplo, intercalando áreas verdes dentro de regiões intensamente construídas). Intensificar investimentos no manejo e saúde das árvores de rua, incluindo podas sanitárias rotineiras (e não apenas voltadas para a proteção de fios). Converter sistema elétrico aéreo para subterrâneo. Criar protocolos de contingenciamento e proteção ao cidadão, com clara indicação de proibição de acesso a áreas de risco durante tempestades. Ou seja, combater a especulação imobiliária que tenta a tudo pavimentar, e pensar no bem-estar e segurança da população antes de tudo. Não se pode esquecer nunca que o acontecido nas regiões Centro-Sul no dia 06 de dezembro e no Vilarinho dia 15 de novembro, são catástrofes climáticas, em grande parte com danos imprevisíveis e improváveis de serem evitados. Ao longo do tempo, as cidades serão convocadas internacionalmente para contribuir para combater esses eventos, decorrentes exclusivamente do aquecimento global.

Para respondermos a esse desafio, precisamos entender que é preciso mudar o ecossistema urbano para que ele sequestre Carbono mais do que emite, ou que ao menos cheguemos a níveis balanceados de emissão/sequestro. Sequestro de Carbono atmosférico significa “fotossíntese”, portanto, mais e não menos, árvores. Para que um ecossistema florestal-urbano funcione, precisamos trabalhar para o rápido entendimento político de que é urgente investir em Secretarias de Meio Ambiente que abracem Parques e Jardins com mesmo esforço e investimento que abraçam saneamento básico, água e esgoto.

Arborizar é uma questão de obras, planejamento e segurança climática.

16.08.18

A onipresença da seleção natural e novos ataques pseudo-científicos à Teoria da Evolução


Sérvio Pontes Ribeiro

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Sérvio Pontes Ribeiro

Esta reflexão surge da leitura (incompleta, confesso) de um best seller, o “Sapiens: uma breve história da humanidade” do “Yuval N Harari”, enquanto assistia a 2a Temporada de Orphan Black. No livro, toda uma vasta (e excelente) explicação sobre o que é a biologia evolutiva para o público leigo converge para uma estranha conclusão sobre o que o autor chama de “Design Inteligente”. Na série de TV, algumas mulheres vão descobrindo que são clones e parte de um experimento secreto e ilegal, cujo líder é o grande defensor do conceito de “Neolution”, uma invenção da ficção científica, claro. No entanto, com um nome ou outro, ambos instrumentos de comunicação debatem pelos seus meios o direcionamento dos caminhos evolutivos do homem pelo homem, e não mais pela seleção natural. Curioso que a série de TV parece se manter mais fiel a conceitos de biologia molecular a seu alcance do que o livro. Ao menos “Orphan” discute certas impossibilidades e questões moleculares com suficiente clareza, enquanto expõe o fato de que a Neolution é um processo fascista e excludente, que visa interesses militares e de dominância. Harari faz sim questionamentos importantes, induz reflexões necessárias sobre a bioética, mas rompe nas suas conclusões como a humildade dos fatos biológicos, e nos empodera para além da natureza.

A diferença que preocupa entre uma série e um livro sobre ciência é que qualquer um sabe a diferença de realidade e ficção. Por outro lado, um livro que tem objetivo de explicar a evolução, não deveria terminar com um capítulo dedicado a uma nova evolução gerida por nós, e menos ainda chamar isso de “design inteligente”. O conceito em si esconde um perigo de entendimento, em especial nos EUA. O “design” é um pseudo-conceito científico, com abrigo em algumas universidades americanas e mesmo um museu, onde criacionistas “provam” a existência de um Deus que desenha inteligentemente a vida e descartam os processos que levaram, erroneamente, os biólogos a aceitarem o darwinismo e suas vertentes. Nada que os “designers” fazem tem base metodológica aceitável, nenhuma crítica à evolução se sustenta diante de qualquer escrutínio mediano. Porém, precisamos lembrar que estamos falando de um país em que pessoas com títulos de Ph.D aparecem frequentemente na televisão dando relatos de provas irrefutáveis sobre a influência dos alienígenas na construção da nossa sociedade, presente e passada. Ali, a liberdade vai ao absurdo de permitir que algo que não é ciência se chame como tal e acomode-se em centros notadamente de pesquisa.

Claro, o “design inteligente” do Harari é um pouco diferente. Para ele, nós somos os desenhistas da vida, não Deus. No entanto, em ambiente onde a crença define e formata o pensar, é um passo muito curto e profundamente subliminar o que o livro permite, se não induz maliciosamente: que um leitor crente salte sobre a conclusão, para ele óbvia, de que se nós desenhamos, é Deus que guia nossa mão na reconstrução da vida. Se recria hoje, pode ter criado no passado. Nada disso, claro, está no livro. Nem de longe! Não se fala de Deus, mas tira de forma inquestionável, a seleção natural do nosso futuro evolutivo, usando um conceito criacionista. Portanto, dá na mesma, é como se falasse. De certa forma, ainda muito subliminar, fica fácil crer que o que nos parecia “evolução” nos bilhões de anos anteriores era uma longa e paulatina criação divina.

Mas então, do que de fato se tratam os avanços e mudanças que impomos a nós mesmo pela engenharia molecular, se não é um novo processo evolutivo? Primeiramente, precisamos esclarecer que nossas ações sobre a biologia que afetam, no sentido de mudar a direção da seleção natural, existem tempos antes de Watson e Crick, e em alguns casos não dependem de manipulação genética de nenhuma natureza. Nos casos que dependem, temos o velho e bom melhoramento genético (seleção artificial) de espécies domésticas, que inclusive Darwin usou para ilustrar como a seleção natural funcionaria.

Nos casos que não há nada de manipulação genética, por exemplo, temos a perda de acuidade visual no homem moderno. Da necessidade de caçar e não ser caçado, também de perceber com clareza a profundidade entre galhos, numa vida total ou parcialmente arbórea, evoluiu nossa acuidade visual. A física ótica e a invenção dos óculos e lentes causaram um efeito sobre a seleção, mas não a destruíram ou sua ação sobre nós. A seleção natural da capacidade visual nas populações humanas indígenas é a chamada direcional, ou seja, elimina os genótipos variantes com menor acuidade, por incapacidade de caçar ou por aumento de risco de mortalidade por predação ou acidente. Não se vive tanto vendo mal, por isso também não se reproduz muito, e assim se é gradualmente eliminado. Criar óculos então passa a funcionar como a eliminação de predadores ou a facilitação da caça, e é descrito como afrouxamento da seleção natural. O afrouxamento é um processo perfeitamente “selvagem” no seu mecanismo, que acontece por exemplo em aves de ilhas oceânicas que perdem a capacidade de voar por não terem predadores nas ilhas (assim, voar é uma perda de energia desnecessária e arriscado, dado que tudo envolta é mar!). Aí, se pensar bem ... ei! Nós já tínhamos eliminado a predação e facilitado a “caça” (na pior das hipóteses, um míope sem óculos só vai comprar mais carne vencida por não conseguir ler as letrinhas da data de vencimento). Mesmo sem óculos, não sofremos estas pressões primitivas mais e, assim, por séculos, olhos menos competentes se acumulam na nossa espécie sem nenhuma consequência reprodutiva. Como se pode notar, há todo um processo que muda como as pressões de seleção natural atuam sobre nós, mas não elimina em nada nem nos torna imunes, às suas ações.

Como também vemos, as mudanças tecnológicas têm muito mais a contribuir na maneira como mudamos as pressões seletivas do que as mudanças biológicas e genéticas que venhamos a engendrar em nossos corpos. Criamos um mundo diferenciado e isso está nos mudando, mas já faz milênios, e em nada afetamos a seleção natural, apenas a afrouxamos em vários aspectos, mas apertamos em outros. Por exemplo, hoje há enormes vantagens adaptativas em genótipos que sejam resistentes a toxinas orgânicas similares à agrotóxicos ou à metais pesados ou poluição atmosférica. São fortes pressões seletivas como também são aquelas que favorecem genótipos que quebram gorduras em taxas elevadas ao invés de acumulá-las (por sinal, um genótipo com raras chances de sobreviver em um mundo primitivo, onde a fome era lugar comum). Para nenhum destes novos cenários ambientais estamos de fato “desenhando” um homem melhor, e muito provavelmente não há como fazê-lo senão por eugenia, ou seja, seleção da “raça superior”, algo associado as piores ideias da Humanidade, o fascismo e o Nazismo. É possível? Sim, é possível tentar ao menos, como em partes do mundo se matam certos fenótipos ou mulheres no nascimento, pode-se decidir por inseminar e permitir crescer só o tipinho que se queira. Infelizmente (brincadeira, felizmente), as condições ambientais mudam totalmente fora do nosso controle, por mais que tentemos impedi-las ou domá-las. Assim, a “raça superior” nazistamente selecionada para hoje, será um fracasso amanhã.

Em outras palavras, não desenhamos nada, não eliminamos a seleção natural, apenas manipulamos intensivamente recursos naturais e genéticos, e em função deste manejo, sofreremos as consequências evolutivas que forem, todas, como de costume, desde a origem da vida.

Concluindo, apenas algo dá alento diante de debates e proposições de divulgação de ciência tão distorcidas assim: é um engano e não está acontecendo. A evolução é um processo populacional, e nada que nossa biotecnologia crie de totipotente para a mudança direcionada de uma pessoa, haverá aplicabilidade em escala para sequer roçar nossa espécie antes do mundo eliminar esta, tecnicamente falando, aberração. Sigamos a vida, como ela é e sempre foi.

08.08.18

Educação Pública e Gratuita é investimento e retorno garantido e interessa todo mundo.


Sérvio Pontes Ribeiro

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Sérvio Pontes Ribeiro

Uma semana no cesec de Contagem. Centro Estadual de Educação Continuada, flexível nos horários, nas regras, desenhado para dar chances de obter o Segundo grau para quem não teve oportunidade. Estrutura simples, mas limpa e segura, ambiente apropriado para o aprendizado, mas com menos investimento que mereceria. Ainda assim, oferece café até as sete e um almoço no meio da manhã. Se está estudando, precisa comer! Afinal, é esse o nível de alcance que deve ter o conceito de ensino público e gratuito: não só é gratuito, como premia quem ali está. Buscar conhecimento não é algo que só deve ser subsidiado, deve ser estimulado ao extremo. Dar comida, livro, acessibilidade ao saber. Falhas? Sim, não há wifi na biblioteca, e não há orientações sobre possíveis programas de aprendizado gratuito online. Haviam várias ferramentas de acesso financiados pelo Governo Federal, mas cortados após o golpe. Ainda assim, há diversas opções gratuitas e às vezes a diferença do sucesso está em saber e ter acesso a estas ferramentas.

E o que vim fazer aqui? Uma de minhas filhas optou por abandonar o ensino médio formal no meio do ano e tirar o diploma do MEC, para ter seis meses mais livres para estudar para o ENEM. Mas pode? Mas não é para pessoas carentes? Pode, e não, isso é essencial, ensino gratuito não é ASSISTENCIALISMO! De fato, esta é a informação essencial aqui! Ensino é investimento e quem o busca precisa ser premiado. Tem que ser flexível para acomodar diferentes ritmos e formas? Deveria sim! Isso traz mentes diferenciadas, sofridas ou não, meramente diferenciadas, para o mercado de trabalho com uma melhor capacitação, melhor visão de mundo, com mais senso de cidadania, deveres e direitos (nesta ordem). Assim como o SUS, deve ser UNIVERSAL, auxiliar quem o buscar mas precisa ter mais, muito mais, investimento. Precisa de políticas que garantam o aprendizado primariamente à busca do diploma meramente. Isso traria todo um Brasil inteligente e devidamente capacitado, para dentro de um mercado de mudança e enriquecimento equitativo, justo e baseado no mérito. Sim, sou meritocrata, sempre, mas antes precisa ser justo. Para ver o mérito precisamos dar as condições e recursos. Curioso que imagino que aqueles aqui neste canto do mundo, que se veem numa posição muito à direita do pensar, me parecem estarem mesmo preocupados em privilégios e proteção de mercado para seus filhos. Filhos muitas vezes, convenhamos, preguiçosos e desinteressados. Não entendo um industrial ou empresário não preferir haver por aí muita gente capacitada, de preferência com sangue nos olhos para enriquecer e tirar os pais da velhice miserável, do que uma pequena elite de jovens classe média-alta e preguiçosa que vai, invariavelmente, nos manter num ciclo de crescimento-encolhimento por incompetência generalizada do mercado e governo. Trazer a maioria do Brasil para as faixas altamente (ou em qualquer nível) capacitadas significa mudar nosso perfil de competência e progredir irreversivelmente. As classes dominantes falharam no mundo todo e é preciso mudar até o conceito de existência de tais classes. Aliás, um vasto mundo de média classe educado é o único caminho para nossa sobrevivência ambiental.

Que vingue! Nesta semana que o MP denunciou o Estado de Minas Gerais por não aplicar o mínimo do PIB em saúde e educação, que o governo volte a ser o fiador da juventude. Nesta semana que um vice de um temerário candidato à Presidência associa índios e negros à indolência e malandragem, que os recursos educacionais de qualidade atinjam em especial estas classes de pessoas. Para que, com a juventude brasileira TODA nivelada em conhecimento e capacitação, vejamos se não seriam na verdade os brancos ricos os indolentes e malandros deste país. Que educação gratuita e subsidiada volte a ser visto como investimento de elevado retorno, e não caridade, porque não é!

30.07.17

Nulis in Verba e a pós-verdade


Sérvio Pontes Ribeiro

Semana passada ensinei método científico e hipóteses. O velho e bom modelo indutivo-dedutivo, e a necessidade de se ter conhecimento acumulado para se fazer boas perguntas científicas na construção do conhecimento contemporâneo. Mas para tal, volto na criação da Royal Society, em 1640, e na sua regra pétrea: o Nulis in Verba. Palavra alguma vale nada, tudo deve ser demonstrado. E me pego redirecionando a aula para o quanto isto se tornou necessário e verdadeiro no mundo pós-verdade da internet.

 

O tanto que se lê de absurdo hoje é em nada diferente das crenças e mistificações absurdas que rodavam o mundo mágico (no sentido exclusivo aqui de não real, não possível) daquele tempo. A Royal Society, sob uma certa proteção de liberdade garantida por Rei Carlos I, pode exercer os primórdios da ciência moderna com princípios fundamentais: liberdade de pensamento e de experimentação, independência político-religiosa, demonstração de tudo possível a fim de definir as realidades e fatos do mundo natural.

 

Neste processo, não lembro se Elias Ashmole ou Robert Hooke (dois dos menos cientistas do corpo original) propuseram verificar se de fato os chifres de unicórnio em um círculo poderiam prender uma aranha, como rezava uma lenda mística da época. E essa era a ideia! Testar tudo! Claro, com a maior clareza e maior acúmulo de conhecimento dos dias de hoje, faríamos um pouco diferente. Primeiro, estabeleceríamos um controle, ou seja, um espaço igual ao delimitado pelos chifres, mas cercado por outro tipo de material similar, e submeteríamos as aranhas controle e tratamento ao mesmo tipo de estresse de experimento. Afinal, elas poderiam ficar quietas entre os chifres por outros motivos que não uma força magística que os retivessem. E mais importante, ao mandarmos um servente comprar chifres de unicórnio no mercado local, verificaríamos se eram mesmo de unicórnio, e não de rinocerontes, como de fato foram naquele experimento.

 

A questão é que naquele tempo, crer que se conseguiria chifres de unicórnio para comprar deveria ser uma façanha não muito diferente da de comprar chifres de rinoceronte. Porém, a falta de circulação da informação científica não dava bases sólidas para dúvida e, ao contrário dos meus alunos de olhos estatelados, ninguém duvidava de um elemento básico do experimento, mesmo que a mera ocorrência do unicórnio na Terra fosse mais interessante que os poderes de seus chifres arrancados!

 

Hoje, não posso deixar de me perguntar quantos por aí assistindo Alienígenas do Passado de fato não acreditarão em unicórnios? O homem é tão afim de ter conhecimentos privilegiados, saber o que é desconhecido ao próximo, mas de preferência, saber de forma fácil, sem muito gasto de energia. Matéria prima para todo tipo de enganadores! Assim, vejo o grande valor do tempo gasto ao promover o pensamento científico! Para tal, dois conselhos: 1 – Se a informação tem base no mundo natural (física, biologia, matemática, química) ou tecnológico, verifique! Busque fontes confiáveis e veja se há publicações em revistas sérias que sustentem a afirmação; 2 – Se a informação tem caráter transcendente ao testável pela ciência, não confie e pronto. Não estou dizendo para não transcender, mas se o assim o quiser, faça pelo caminho correto: procure Templos, Tradições, livros e orientações de iniciados no assunto que te fascina, e que não é científico. Como ouvi uma vez, até o diabo tem critérios e não vai te seduzir por um post. Agora, se o assunto for política, bem, é mentira.

28.07.17

O fim da sua bolsa, da ciência brasileira, seu silêncio e um velho reclamão


Sérvio Pontes Ribeiro

Só uma coisa é pior que papo de velho dizendo o que fez na época dele e que a juventude de hoje não faz nada igual: perceber que este velho agora é você. No entanto, preciso sustenta-lo diante de meus alunos e ex-alunos, muitos já procurando empregos em ciência em outro País. Em 2001, 500, apenas 500, recém doutores desempregados enfrentaram a política de não concurso e baixo investimento na ciência do FHC. Com um abaixo assinado entregue nas mãos do Ministro da Educação (cujo nome não deve ser mencionado), em uma cerimônia de premiação, e com uma correspondência na Nature, conseguimos reverter este quadro, e o CNPq teve fôlego para criar o PROFIX (de certa forma, o programa mãe do PNPD) e em 2002 os concursos nas Federais foram reabertos.

 

Era um Presidente eleito, com feitos positivos e negativos, mas um Presidente ELEITO, e éramos só 500. Não existia redes sociais e todos os debates aconteceram apadrinhados pelo Jornal online da Ciência Hoje, que chegava pelo email, e que publicava nossos textos e réplicas. O número de doutores formados desde 2002 aumentou 400%, e a repatriação de cérebros foi notável, embora ainda vivamos quase que um apagão científico por sermos tão poucos para um País deste tamanho e com esta complexidade. Este é meu ponto: TEMOS MUITO PARA CRESCER E NÃO PODEMOS ENCOLHER AGORA!

 

A ciência pode ter mais força do que imaginam, ainda mais com o volume de doutores jovens que hoje temos no mercado, a maioria subempregados! Acomodarem em poucas verbas, ok, mas estão diante da possibilidade de cortes absolutos das bolsas TODAS do CNPq, e vamos assistir calados, caçando emprego fora e virando as costas para o País que investiu na sua permanência aqui? Pior, virando as costas para a melhor chance que poderia ter de um futuro promissor como cientista, se a política certa for imposta à Brasília por pressão nossa!?

 

O Brasil é um dos últimos lugares no mundo com real potencial para expansão científica, para criar inovação e empregos em ciência, mesmo que os obtusos que nos comandam agora não vejam isto. Cabe a você fazer que vejam, reagir e lutar contra este cenário fictício atual. Não me entendam mal, eu poderia ter ido embora também, mas não seria justo com o Brasil, mas seria menos justo comigo. Fiz uma carreira (para mim, para minha satisfação, sei que poderia ter feito muito mais) cheia de feitos e conquistas que lá fora eu não conseguiria. Me orgulho mais do que fiz aqui, da brasileirada que fiz confiar na ciência e no progresso e que hoje são meus colegas. Não quero que desacreditem, vai me partir o coração e uma vida inteira dedicada a isto. Eu queria que brigassem pelo que eu, e tanta gente, fizemos para vocês acreditarem

13.02.17

Fórum político-religioso… e científico? Nulis in Verba, mas conta o que sabe onde for!


Sérvio Pontes Ribeiro

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A campanha da Fraternidade da Igreja Católica deste ano abriu uma oportunidade de diálogo da ciência com a sociedade, via a busca da conservação dos Biomas Brasileiros, tema deste ano. Na busca do conceito cunhado pelo Papa Francisco, de uma “Ecologia Integrada”, abriu-se espaço para a Igreja Católica rever sua postura de espiritualização voltada para o Superior, e por tantos anos desvinculada da Mãe Terra. Mas esta oportunidade para nós cientistas, não está pronta, mal é uma trilha em meio ao matagal de informações e propostas de ação.

O texto base da Campanha, por exemplo, não cita a palavra Ciência hora alguma, embora as ações propostas para cada Bioma brasileiro, carece da intervenção científica. Saneamento básico, estudos do potencial das plantas medicinais, conhecimento tradicional, está tudo lá. Espaço para ações e contribuições das ciências Humanas e Biológicas, mas sem a ninguém mencionar. Maldade? Não, omissão nossa, cientistas. No Brasil recente vivemos uma onda de crescimento científico que adormece agora, mergulhada na crise e no golpe, mas enquanto indivíduos e organizações da sociedade se mobilizam, nós, Ciência, permanecemos placidamente na nossa posição de divas protegidas, que não somos.

 

Mas quem entende as bases da construção da ciência moderna (ao menos como foi nas origens da Royal Society), não entende um título onde ponho justamente, religião, política e ciência!! Só avançamos na total tolerância político-religiosa, ou para ser mais preciso, na total ignorância da existência destes aspectos da vida. Por um lado, para nosso funcionamento, colaborações amplas e avaliações isentas uns dos outros, de dentro da ciência, não devemos mesmo misturar estas três palavras. Isto basicamente acabaria com a ciência como conhecemos. Por outro lado, não significa que como cientistas, devamos nos esquivar de conversar com todos sobre o que fazemos e sobre a importância da ciência em sociedades contemporâneas.

 

Parece óbvio e deveria ser para pessoas que não andam mais sem celulares que, minimamente, sabem onde você está, sabem suas preferências e te conectam com os outros por pelo menos 5 caminhos diferentes. Porém, a verdade de um país como o nosso é que o cidadão comum acredita que a engenharia resolve tudo pelo juntar de peças bem conhecidas, e sequer considera o que foi preciso para se conhecer estas partes! Somos um país criado por engenheiros e advogados, e compramos quase tudo que a ciência criou até muito pouco tempo atrás. Agora que começamos a criar com a nossa própria ciência, o brasileiro continua achando que uma hora alguém noutro planeta fará o que precisamos e nós trabalharemos para comprar!

 

Quando entramos na seara da biologia da conservação, vamos de cabeça numa área do conhecimento onde o Brasil é liderança desde a criação deste capítulo aplicado da Ecologia, nos anos 80. Graças ao esforço do Prof. Gustavo Fonseca e vários outros, fomos rapidamente inseridos no coração dos debates e construções sobre a conservação da biodiversidade, sendo um marco desta realidade a criação do Mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre na UFMG, em 1989. E agora, na Terra da Conservação como ciência, os retrocessos nesta área joga a Igreja em defesa de nossos Biomas, com muito pouca contribuição nossa, cientistas.

 

Devemos fazer um “mea culpa”, buscar este diálogo de novo com a sociedade, e agora com os atores na interface com a igreja católica, que por sorte não tem nenhum conflito com a ciência, nem mesmo com a Teoria da Evolução. Só este fato, é motivo mais que forte para esta aproximação. No entanto, para tal diálogo fui convidado por um grupo conhecido como Fórum político-religioso. Fui por ser biólogo e pesquisador, mas só tiveram acesso a mim por outra aproximação. Este é um grupo sediado na Igreja Católica, mas é um grupo ecumênico e minha aproximação se deu, curiosamente, pela Umbanda. Problema nenhum com isto, a não ser pelo fato de que é óbvio que as estradas, mesmo que devam ser de mão única, da Academia para as pessoas, não estão abertas e a sociedade continua parcialmente às cegas sobre o que somos e o que fazemos. Vamos lá fora falar?

04.02.17

A febre amarela em um contexto ecológico e da Biologia da Conservação?


Sérvio Pontes Ribeiro

Painel de Especialista Fundação Renova

Adriano Pereira Paglia (UFMG)

Betânia Paiva Drumond (UFMG)

Eduardo Lázaro de Faria da Silva (Projeto Muriqui)

José Carlos de Magalhães (UFSJ)

Márcia Chame dos Santos (Fiocruz)

Sérgio Lucena Mendes (UFES)

Sérvio Pontes Ribeiro (UFOP)

 

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A febre amarela é uma doença viral transmitida por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, da Família Culicidae, ao ser humano e a macacos. O vírus da febre amarela não é nativo do Brasil, e foi introduzido em consequência do tráfico de escravos vindos da África. Ele se tornou endêmico (de ocorrência constante e ininterrupta no ambiente) em algumas regiões, como na Amazônia e Centro-oeste. No passado, ocorreram surtos de febre amarela urbana no país, transmitida pelo Aedes aegypti, mas esta forma foi erradicada na década de 1940, por meio de vacinação, obras de saneamento urbano e do controle do vetor. No presente, não há relatos de febre amarela urbana por aqui. Todos os casos registrados no Brasil têm sua origem no ciclo silvestre, que ocorre quando o mosquito pica um macaco infectado e depois uma pessoa, assim transmitindo o vírus, como melhor explicado abaixo.

Os surtos de febre amarela silvestre e qualidade ambiental

Alguns casos de febre amarela foram confirmados em pessoas no Estado de Minas Gerais, moradores de regiões com relatos de mortalidade de macacos, em especial os bugios (ou barbados), do gênero Alouatta. A morte de macacos em reservas naturais e fragmentos florestais, tanto em Minas Gerais quanto no Espírito Santo, vem ocorrendo em grande escala, com relatos de centenas de animais mortos. Porém, até o momento, não há confirmação laboratorial de febre amarela nos macacos infectados no ano de 2017, nesses Estados.

Os surtos de febre amarela são bem conhecidos, tendo sido registrados em diferentes regiões do país, a cada sete anos, aproximadamente. Algumas hipóteses, considerando uma perspectiva ecológica poderiam explicar estas observações, já que os surtos observados ocorrem mais frequentemente em locais próximos a fragmentos florestais pequenos e perturbados. Nesses ambientes isolados, os macacos bugios encontram-se em densidades elevadas e se reproduzem dentro de grupos familiares, se tornando geneticamente mais parecidos. Sabe-se que a susceptibilidade a doenças é maior em uma população adensada e geneticamente homogênea. Em populações mais sustentáveis, existem mais macacos geneticamente diferentes, e esta diferença genética pode estar associada a resistência ao vírus. Nestas condições, a doença não desenvolve em larga escala, evitando-se uma epidemia. Além disso, mutações no vírus da febre amarela podem aumentar ou diminuir a transmissão em uma população de macacos, resultando no padrão de surtos separados por anos de baixa ocorrência da doença. No entanto, para a confirmação desta hipótese são necessárias outras pesquisas.

É importante, ainda, levar em consideração um fenômeno conhecido como “efeito de diluição” da transmissão de agentes infecciosos em ecossistemas ecologicamente saudáveis. Esta situação ocorre em áreas naturais grandes e de boa qualidade ambiental, na qual ocorrem muitas e diferentes espécies de vertebrados. Nestes ambientes, os mosquitos se alimentam tanto de animais que são bons mantenedores quanto de outros que são mal mantenedores do vírus. São justamente as espécies que são mal mantenedoras de vírus que diluem a transmissão para as pessoas e outras espécies, uma vez que os mosquitos que usam essas espécies para obter sangue não será infectado ou, ao menos, apresentará uma carga viral baixa. Em florestas bem preservadas, como há uma maior biodiversidade, também espera-se haver mais espécies de mosquitos, várias delas, não transmissoras da doença. Tais mosquitos (não vetores) podem competir com os vetores pelos locais de postura de ovos, diminuindo a circulação e transmissão do vírus. Da mesma forma, é provável que haja maior quantidade de predadores de mosquitos, como anfíbios, insetos aquáticos, aranhas e outros, o que também ajuda a controlar as populações dos vetores. O efeito da diluição, portanto, presta um serviço ecossistêmico à saúde, ou seja, benefícios fornecidos pelos ecossistemas às populações humanas.

Como já afirmado, estas são algumas hipóteses já observadas na dinâmica da transmissão de outras arboviroses, que podem explicar a origem e os padrões observados nos surtos de febre amarela, para as quais são necessários mais estudos científicos.

O surto atual de febre amarela e recomendações

O evento atual de febre amarela, confirmado em algumas cidades de Minas Gerais é considerado pelas autoridades de saúde como um surto, ou seja, uma ocorrência maior de casos do que a normalmente observada em dada região. Em 2017, até o dia 20 de janeiro, segundo a Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais, foram notificados 272 casos suspeitos da  doença em humanos, sendo 47 casos já confirmados. O total de 25 óbitos causados pela febre amarela já foram confirmados e ocorreram nos municípios de Ladainha, Piedade de Caratinga, Ipanema, Malacacheta, Imbé de Minas, São Sebastião do Maranhão, Frei Gaspar, Itambacuri, Poté, Setubinha, Teófilo Otoni, Ubaporanga.

Para saber mais sobre a Situação epidemiológica em Minas Gerais, em 2017, consulte dos dados da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais. Clique aqui: http://www.saude.mg.gov.br/component/search/?all=Informe+Epidemiol%C3%B3gico+da+Febre+Amarela&area=all

Para saber mais sobre a situação da febre amarela no Brasil, veja os dados do Ministério da Saúde - clique aqui -http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/situacao-epidemiologica-dados-febreamarela

 

Como é a doença

Uma vez que a pessoa é picada por um mosquito infectado com o vírus da febre amarela, o vírus pode começar a multiplicar no organismo dessa pessoa. Logo no início, não são observados sintomas, e esse é o período de incubação, que geralmente dura de 3 a 6 dias. Em algumas pessoas esse período pode ser maior, se estendendo por até 15 dias. A maioria das pessoas infectadas pelo vírus da febre amarela não apresenta sintomas, ou sintomas muito leves, evoluindo logo para cura. Algumas pessoas infectadas, após o período de incubação do vírus, podem ter sintomas como febre, dor muscular, dor nas costas, dor de cabeça, calafrios, perda de apetite e náuseas ou vômitos. A maioria dos pacientes melhora e seus sintomas desaparecem, na maioria dos casos, após 3 a 4 dias do início dos sintomas, e o paciente evolui para a cura.

Por outro lado, em cerca de 15% das pessoas infectadas, após o período inicial de melhora dos sintomas, o paciente pode ter o seu quadro agravado. A febre reaparece e o paciente apresenta icterícia (coloração amarelada na pele e mucosas, como a mucosa dos olhos). O paciente pode queixar-se de dor abdominal com vômitos (aspecto de borra de café) e pode apresentar diarreia. O paciente apresenta quadro de insuficiência hepatorrenal (insuficiência dos rins e do fígado) e hemorragias podem acontecer pela boca, nariz, olhos ou estômago. Cerca de metade dos pacientes que evoluem para esta fase (denominada de tóxica) morre dentro de 10 a 14 dias, e o restante dos pacientes se recupera normalmente. Todos os pacientes que evoluem para a cura, ficam protegidos contra infecções futuras pelo o vírus da febre amarela.

Transmissão

O vírus da febre amarela não é transmitido diretamente de pessoa a pessoa e também não é transmitido diretamente dos macacos para as pessoas. A transmissão só ocorre pela picada dos mosquitos infectados com o vírus. Os mosquitos vetores da febre amarela têm hábito diurno, mas alguns podem estender até o crepúsculo.  Quando uma pessoa é infectada, cerca um a dois dias antes do início dos sintomas, o vírus já pode ser encontrado na corrente sanguínea da pessoa infectada (a denominada viremia = vírus no sangue). Quando o vírus da febre amarela está na corrente sanguínea do macaco ou de uma pessoa, se este indivíduo for picado por um mosquito das espécies que têm a capacidade de transmiti-los, ela passa a ser a fonte de infecção do vírus para o mosquito. Esse mosquito infectado pode então transmitir o vírus a outro hospedeiro (macaco ou ser humano).

Tratamento

Não existe tratamento específico contra a febre amarela, ou seja não existe um medicamento que elimine o vírus do organismo da pessoa infectada. O tratamento é de suporte, ou seja, os sintomas apresentados pelo paciente são tratados para ajudar na recuperação do paciente. Todo paciente que apresentar sintomas suspeitos de febre amarela, principalmente pessoas que vivem em zonas rurais e trabalham ou frequentam ambientes florestados ou que viajaram para áreas de risco, devem procurar atendimento médico imediatamente para que seja feito o diagnóstico e tratamento corretos. É importante que as pessoas com sintomas que podem ser febre amarela relatem ao médico suas atividades e origem de moradia, trabalho ou lazer para que ele considere a infecção como febre amarela, antes que o caso se agrave. Pessoas não vacinadas que frequentam as áreas de risco devem procurar a vacinação e só se expor após 10 dias. Aquelas sem vacina devem se proteger da picada de mosquitos, usando calças e blusas de mangas compridas e uso correto de repelentes.

PREVENÇÃO

A febre amarela pode ser prevenida com a vacinação e com a proteção individual contra picada de mosquitos. A vacina contra febre amarela é eficaz e é a medida mais importante para prevenção e controle da doença. A vacina é produzida no Brasil, pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos da FIOCRUZ  e  apresenta eficácia acima de 95%.

Por se tratar de uma vacina de vírus  atenuado (um vírus enfraquecido, mas que consegue  multiplicar um pouco no organismo da pessoa vacinada),  em alguns casos a pessoa vacinada pode apresentar reações  adversas . Essas reações podem aparecer cerca  de 5 a 10 dias  após a vacinação com sintomas como febre, dor local, dor de cabeça, dor no corpo. "Atenção especial deve ser dada quando, após administração da vacina de febre amarela, a pessoa apresentar dor abdominal intensa".  Nestes casos, o paciente deve procurar atendimento médico imediatamente.

A proteção contra o vírus da febre amarela é obtida após 10 dias da vacinação, portanto deve-se vacinar ao menos 10 dias antes  de  viajar para área de risco.

A vacina possui algumas contra-indicações: a vacina não é indicada para  grávidas,  crianças com menos de 6 meses de idade; pacientes com imunossupressão (pacientes HIV positivos, pacientes em tratamento com drogas imunossupressoras, pacientes submetidos a transplante de órgãos, pacientes com imunodeficiência primária, pacientes com câncer). A vacina também é contraindicada para pessoas que têm alergia a ovo de galinha e seus derivados, gelatina e outros produtos que contêm proteína animal bovina. Todos estes  pacientes devem procurar avaliação médica e orientação para vacinação. Para saber mais sobre a  vacina, indicações e contra-indicações clique aqui -

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/427-secretaria-svs/vigilancia-de-a-a-z/febre-amarela/l1-febre-amarela/10771-vacinacao-febre-amarela

Fontes:

-  Ministério da Saúde -

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/427-secretaria-svs/vigilancia-de-a-a-z/febre-amarela/l1-febre-amarela/10771-vacinacao-febre-amarela (acesso em  22 de  janeiro de 2017)

- Ministério da Saúde:

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/svs/febre-amarela (acesso em  22 de  janeiro de 2017)

- Organização Mundial de Sáude: http://www.who.int/csr/disease/yellowfev/en/ (acesso em  22 de  janeiro de 2017).

 

14.12.16

Por que permitir a volta da mineração da Samarco? Porque é melhor para o meio ambiente.


Sérvio Pontes Ribeiro

Sérvio P. Ribeiro

Prof. de Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Ouro Preto.

 

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As relações entre a Sociedade e Meio Ambiente são conflituosas desde as épocas em que agricultura consorciou-se com o comércio, e a produção passou a ser feita não apenas para a subsistência das famílias, mas para trocas e complementação de bens pessoais. Embora este modelo trouxesse mais desgaste ao solo, tais bens trocáveis tinham um motivo: ajudavam enormemente na sobrevivência de cada grupo humano.  Estas relações de complementação de atividades e trocas de produção, portanto, sempre fundamentaram e fortaleceram os laços sociais. Afinal, é a interdependência que nos faz capazes de ampla colaboração, solidariedade e coexistência pacífica. A ampliação desta base de relações entre recursos naturais e grupos humanos, com o aumento da sofisticação tecnológica e científica, resultou na sociedade industrial moderna, como descrito no livro  de Joel Mokyr, “A culture of growth” (leia sobre em http://www.nature.com/nature/journal/v538/n7626/full/538456a.html).

 

Não há dúvida que a escala de impactos aumentou na mesma proporção ou senão, em alguns setores, de maneira exponencial. A mineração está entre as atividades de maior impacto localizado que se pode imaginar haver sobre um ecossistema. Mesmo assim, os pressupostos iniciais de que a extração e comercialização de recursos minerais tem uma razão social, não podem ser esquecidos. Na região de Ouro Preto e Mariana, a paralisação da Samarco traz a mais imediata e palpável consequência da quebra desta relação entre produto-comércio-sobrevivência: o desemprego. Como sociedade, precisamos entender que há de haver mudanças profundas nas relações de produção e risco na mineração, a fim de se evitar de maneira radical as chances de outros desastres ambientais. Porém, qual é o tempo para isto acontecer e qual o risco da ausência de atividades econômicas para o ecossistemas modificados pelo homem moderno? A pobreza, é o primeiro e óbvio impacto.

 

Dito isso, também não há dúvidas de que a produção de minério deveria minimizar o chamado racismo ambiental invés de causá-lo! Racismo ambiental é quando uma parcela, vulnerável, da sociedade herda os impactos e outra, o desenvolvimento. Este fenômeno se evita equalizando os custos ambientais e os benefícios da produção, de forma que os custos não sobrecaiam exclusivamente sobre as comunidades mais pobres, com pouca chance de defesa ou de exigir de mudanças. Na verdade, os benefícios da mineração deveriam, via poder público, minimizar senão eliminar a pobreza onde ela ocorre. Sabemos disto e sabemos que há um caminho a percorrer. Sabemos que a Samarco não pode se esquivar das consequências do rompimento da barragem de Fundão e seu impacto em toda a bacia do Rio Doce e nas comunidades humanas ao longo da mesma. Mas sabemos que cabe ao Poder Público atuar para que os benefícios de royalties, por exemplo, de fato resolvam por completo questões de saneamento básico, saúde e educação, com foco nas populações carentes. Assim, sabemos que a coresponsabilidade é de toda a sociedade brasileira e que somos todos em parte responsáveis pelas mazelas do modelo econômico hoje vigente. O problema é que o não funcionamento da mineração, hoje, agrava todos estes problemas, da pobreza, ao risco futuro de novos desastres, passando pelos projetos de recuperação da bacia, que precisam ser executados.

 

Assim, considerando que não há possibilidades remotas sequer de abandonarmos a “Era do Ferro” amanhã, nem qualquer modelo econômico alternativo capaz de substituir a mineração em poucos anos, o retorno da atividade mineraria da Samarco sanaria dois enormes problemas sociais: o desemprego e a perda de arrecadação dos Municípios. Cabe a nós todos, claro, fiscalizar que estas atividades sejam feitas com mais rigor socioambiental, bem como nos cabe também fiscalizar se as verbas de royalties do Minério sejam devidamente aplicadas pelos Municípios, inclusive na busca de alternativas econômicas para uma sobrevida abundante e segura para além do esgotamento do minério de ferro.

 

Volto no ponto fundamental, em profunda discordância com a maioria dos ambientalista debruçados sobre o problema. Portanto, atuando como cientista, e não um ambientalista no sentido estrito, preciso olhar para os fatos! Se não há outra forma de produção econômica viável agora, não é melhor testarmos uma proposta de produção feita em associação com a deposição de rejeito sobre uma área já profundamente impactada, que é a cava da mineração? Não adianta fingir um mundo melhor! Para muito antes do esgotamento do modelo de mineração, precisamos que se desenvolvam e testem métodos de deposição de rejeitos tecnicamente mais seguros e capazes de poupar a destruição de vastas áreas com a criação de perigosas barragens. Senão mudar este paradigma aqui, diante dos olhos de toda uma sociedade desenvolvida, imaginou a alternativa e seus custos ambientais?

 

Precisamos lembrar que além de Minas e Bahia, onde ainda é possível uma grande expansão da mineração são em regiões remotas, selvagens, e vagamente ou nada estudadas cientificamente quanto à biodiversidade. Em lugares assim, em todo o Globo, desastres ambientais na mesma escala do ocorrido no rio Doce já ocorreram antes, e pouco se foi feito ou anunciado pela grande imprensa. Desastres em locais remotos causam perdas ambientais muito maiores, inestimáveis e, devido a total falta de informações científicas prévias sobre os ecossistemas impactados, irrecuperáveis.  A recuperação da bacia do Rio Doce é em parte possível porque ela foi extremamente bem estudada antes. Sem ilusões, uma recuperação de um desastre deste porte  sempre será parcial, de longo-prazo e mera remediação, mas possível por balizamento científico prévio! No entanto, onde uma riqueza em biodiversidade e serviços ambientais são muito mais relevantes para a humanidade, porém  menos conhecidos, as perdas são sim irreversíveis. Além de que, as contaminações ambientais em zonas remotas dificilmente terão as mesmas chances de serem sanadas como quando acontecem em áreas desenvolvidas.

 

Nesta comparação entre mineração aqui ou lá, não podemos nos furtar do óbvio: o compromisso de sanar a qualidade de água do Rio Doce hoje vai muito além do rompimento da barragem de Fundão, pois sua contaminação ambiental já era vasta e anterior ao desastre. Concluindo, claro que é imperdoável o rompimento de Fundão. Imperdoável, mas se acontecido longe do Sudeste, seria também irrecuperável.

 

Nosso desenvolvimento social e econômico ainda é inevitavelmente dependente da extração de recursos naturais, algo altamente impactantes à natureza. Uma mudança neste paradigma é urgente, mas só pode se dar gradualmente. Até lá, é necessário que se possa minerar de maneira cada vez mais eficiente e segura ao homem e ao Meio Ambiente. Defendo mudanças profundas na sociedade, mas de forma responsável e gradual.

20.11.16

BIÓLOGOS FANTÁSTICOS E ONDE ELES ADOECEM


Sérvio Pontes Ribeiro

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Assim como “Como treinar o seu dragão”, o “Animais Fantásticos e onde habitam” fala, indiretamente, de uma criatura em extinção, e ao meu ver fascinante: o biólogo. Ambos filmes mostram com muita beleza nossa paixão pela vida, em especial pela vida incompreendida pela sociedade e, portanto, perseguida. Mostra como poucos seres em cada comunidade são eternamente picados pela paixão pelo desconhecido, entendem a natureza de criaturas renegadas, e passam o resto da vida a sofrer e lutar pela iluminação de seus iguais quanto a importância de cada espécie que combatemos. No caminho, um mundo inteiro que envenenamos. Assim, mostram como o ser cientista da natureza é tão fundamentalmente ser biólogo, e não somente o químico, o físico ou o matemático!

Porém, somos mais, somos cientistas apaixonados pelas criaturas que abraçamos a estudar. Não sei se somos assim tão diferentes, ou se somos só aqueles que não esqueceram o fascínio que a natureza trás a qualquer um na sua infância (dado o sucesso internacional dos dois filmes que inspiraram este texto, parece óbvio que é a segunda opção). Talvez o biólogo seja aquele que não quis parar de fuçar seu jardim, que não tenha cansado de ser curioso. Não tenha achado um dia que isto é brincadeira de criança.

Somos sensíveis ao sofrimento de nossas criaturas e do mundo do qual nossa existência e saúde dependem. Mas no mundo do “real das outras pessoas”, muitas vezes somos contratados para monitorar o extermínio das espécies e dos ecossistemas que tanto nos fascinam. Resgate de fauna, licenciamento ambiental... tantos e tão importantes, mas associados a um fato muitas vezes cruel: a sociedade vai autorizar perdas irreversíveis. Nós, assim como os veterinários que fazem eutanásia, temos a obrigação de acompanhar estas mudanças. Fato é, são vários os que conheço que adoecem no processo. Não convencemos ainda o mundo a desenvolver de outra maneira.

Ao menos, já convencemos que é importante tentar, é importante pesar as perdas ecossistêmicas como perdas de serviços ambientais que, se preservadas, resultam sim em dinheiro, em desenvolvimento, em qualidade de vida e felicidade social. Já ensinamos a muitos de que precisamos das mais “nojentas” criaturas e de seus ecossistemas saudáveis, para estarmos ricos e bem, coletivamente. Mas falta muito, e sabemos que o tempo é pouco. Para minimizar ao máximo os danos sobre a vida enquanto não alcançamos a perfeição do respeito à Natureza, acumulamos danos e frustrações sobre a nossa vida solitária de biólogos!

06.10.16

A curiango e o gavião na jardineira


Sérvio Pontes Ribeiro

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Um pequeno drama da vida selvagem na minha janela. Vários sabiás fazendo o que chamamos de “mobbing” (mais ou menos, bagunça) entorno de um gavião que acabara de destruir o ninho de curiango da minha jardineira. Isto mesmo. Bem dentro de BH, dois predadores primários (sabiás e curiangos, insetívoros) contra um predador de topo. Para um biólogo que estuda saúde ecossistêmica, isto equivale a olhar uma pele saudável de uma pessoa esbelta! Reflete que ao menos a parte da cidade onde eu moro, está bem.

 

Deveria estar satisfeito, mas tinha acabado de ver um pequeno curta sobre o acidente da Samarco, e quando meus olhos voltaram da distante árvore onde o gavião foi buscar sossego, viu o telhado de meu vizinho, um francês, geólogo da mineração. Será ele responsável pelo acidente em Barcarena, com aquela mineradora francesa que destruiu as águas amazônicas naquela região, sem alarde, sem drama e com uma pequena multa? Barcarena, o maior PIB do Brasil, uma das populações ribeirinhas mais miseráveis da Amazônia, cujo único benefício minerário foi o de sempre: prostituição para as filhas e violência para os filhos.

 

Mas fiquei pensando no nosso recente desastre ambiental no Rio Doce, e no sistema falido, entrópico, que destrói para construir. Este sistema terá que acabar, ele é o causador de TODO o racismo ambiental do mundo. No entanto, além e antes disto, é preciso melhorar e preservar a qualidade ambiental de onde está bem. A saúde florestal de uma cidade depende de suas árvores, e seu manejo com menos inseticidas e mais predadores naturais. Depende de reconhecimento da importância da fauna nativa dentro da cidade. Depende de um forte saneamento básico combinado com controle de zoonoses de animais domésticos, que não deve ser confundido com defaunamento silvestre urbano. Depende de voltarmos a viver como parte de um ecossistema. Até entendermos que temos que consolidar ecossistemas antrópicos sem destruir outros, temos que ser cautelosos com as poucas chances que nos restam.